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Pensamento

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bete

Uf. Esse apesar de.

Uf. Esse apesar de.

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No começo, parecia só mais um passo, uma descida mais profunda, um túnel mais escuro, uma dobra a mais na carne da alma, mas então o chão sumiu e o silêncio mudou um tom. Percebi que não era ausência de som e sim a ausência de mim.

O núcleo é quente, não um calor que lembra vida, é mais como um calor de uma estrela morta, comprimida até virar punho. A pressão é tanta que a identidade começa a perder contorno, como a cera de uma vela derretendo em um canto qualquer do mundo. Percebi que meu nome se dissolveu primeiro, depois o rosto e depois qualquer lembrança de que houve uma fronteira entre meu "eu" e o mundo.

Aqui, tudo que fui vira ruído mineral, um arranhar irritante mas contido, um quase sussurro de quem tenta lembrar a própria forma, mas não existem fotos ou lembranças.

No núcleo, o corpo não é corpo, é um impulso, um pulsar arrastado, é a vontade triste, um eco de vida batendo sem encaixe, como se não fosse mais humano, nem figurativo, mas algo entre, algo que existe, mas não tem explicação.

A dor não tem linguagem, ela pulsa em ondas, como se fosse geografia viva, e cada onda me atravessa com a franqueza de uma verdade sem metáfora: ainda existo apesar de tudo.

Não "porque", não "para", apenas "apesar de".

Aqui, não dá para mentir, pois o núcleo sabe, sempre soube. Ele guarda os crimes que cometi contra minha própria alma e os que o mundo enfiou pela pele adentro. Nada fica de fora, nem o que perdi, nem o que fiz perder. E o mais cruel: não existe uma única companhia como telespectador, sem riso de parede, nem deus sentado na cadeira vazia, sem Abbadon rangendo dentes na sombra, sequer um vulto protetor atrás da mente.

Só eu, cru, cruel, gravado em silêncio como espinho enterrado demais para retirar ou calcografia funda demais para alterar matriz. O núcleo não julga, mas expõe. Mostra o que me tornei ao sobreviver a coisas que deveriam ter me partido, mostra o que sobrou quando todas as máscaras internas se cansaram, revelam o que ainda pulsa mesmo depois de ter tentado calar, negar, riscar, cortar, dissolver ou apagar.

O núcleo revela coisas violentas, inclusive a verdade que odeio ver: não sou o que caiu, sou o que continua pulsando "apesar de", onde o mundo não deveria alcançar. Eu não sou a crise, entretanto estou lá quando acontece, me escondo nos bastidores assistindo o espetáculo como um penetra.

É quase insultante que meu coração sobreviva a isso, que continue pulsando como um protesto, que ele declare existência em lugar onde nada deveria sobreviver. É sobre essa piada que o núcleo dá risada.

Percebi que nunca fui humano no sentido frágil da palavra, minha humanidade é outra espécie — torta, resistente, feita de cicatriz que se recusa a morrer. Existe uma força na permanência que beira o sobrenatural, essa mesma força que sempre achei que só Abbadon tinha.

Mas decorei que ele só existe porque eu existo. E é por isso que ele se senta ao meu lado na masmorra, é por isso que ele segura meus pesadelos, por isso que ele ordena a chuva, que controla as engrenagens do plano acima.

Um dia, quando me trouxeram ao núcleo, me disseram que o que chamo de deus é só uma parte do que eu sou, parte que o mundo — e nem mesmo eu, conseguiram matar.

Esse núcleo é vivo e ele olha pra mim. Ele é a coisa acima de todos os planos.

É o equilíbrio, sobriedade e consciência.

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  • bete

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