Vento no rosto. Brisa de final de tarde. Brilho dourado no horizonte. Mão no acelerador, acelera. Cheiro de tarde. Final de tarde. O Mestre à frente. Sigo na estrada livre, voando. Observo tudo ao redor. Nos primeiros 10 minutos somente vegetação, cheiro de lagoa, zoneamento de condomínio, planagem, outdoor: "Condomínio com vista para a Lagoa Juara".
Minutos se passam, paisagem muda. Bairro novo, casas prontas e por construir. Lotes vagos, estrada nova, urbanização nova, árvores plantadas. Projeto do prefeito. O Mestre segue à frente. Viro para a esquerda, para direita, retorno à esquerda, novamente à direita, Mestre continua à frente. É alto. É o guia de toda uma região. Difícil não rodar 360º e em nenhum momento não o ver. Grande, forte, robusto, peludo, imponente.
Estrada nova acaba. Entrei no bairro: carros, quebra-molas, transeuntes, lojas, escola em construção. Civilização? O que as pessoas estão pensando? Quais os objetivos, os caminhos, os problemas, as felicidades de cada um? Quem as guia? E o Mestre? Continua à frente. Virei à esquerda e continuava lá. Virei à direita e à esquerda novamente. Adivinha? Parado, estático, mas sempre no horizonte. Desci morro, subi morro e lá estava: atrás das casas, entre as lojas, os prédios, atrás de um lote vazio. Lembrei:
Mestre, você tem nome. Já estive contigo. Foi traumatizante. Era noite. Muitos mosquitos, insetos, molhados. Tropeços, quedas, escorregões. Cheguei. Sentei, comi, deitei, tudo escuro, nada para enxergar. Frio. Clareou. Amanheceu e eu estava lá em sua companhia. O deus doutorado está nascendo. Fotos e mais fotos. Cheiro de manhã, de brisa, de natureza. Foi lindo. Mas sair de ti, abandoná-lo, o retorno, foi novamente um sacrifício, horas e horas. Que sentimentos mistos, você me desperta.
Continuo a acelerar, paro no sinal. Mentira, avanço. Meu ato de rebeldia, imprudência. Não tem transeuntes, não tem carros, motos ou bicicletas elétricas cruzando. Transição de bairro. Última reta. Estou chegando. De um lado condomínio novo, do outro posto de gasolina. Entrei na avenida principal: bares, farmácias, lanchonetes, lojas diversas. Transeuntes por toda a parte. Árvores grandes no canteiro central. Bairro de classe emergente. Último sinal. Paro dessa vez. Estudantes atravessam a faixa. Olho pro lado e lá está ele: Mestre. Sigo reto, última acelerada, viro à direita: e o Mestre continua no horizonte. Entro no condomínio, vou até o final do estacionamento, paro a moto de frente para ele. Penso:
Agora só te verei amanhã. Não tenho o privilégio de olhar de para ti. Vejo apenas outros lares. Queria poder te ver. Mas se de uma coisa eu sei, é que amanhã olharei para ti novamente. Pelo menos espero. Tchau, Mestre Álvaro.
Giro a chave e tiro. Caminho na direção contrária a ele.