Antes do Toque
Os beijos que você nunca me deu
invadem meus pensamentos,
no silêncio ensurdecedor da noite,
onde até o vazio parece sussurrar teu nome
e a saudade inventa os momentos
que o destino ainda não nos permitiu.
Eu te amo.
E te amei antes do toque,
antes que minhas mãos conhecessem as tuas,
antes que nossos corpos soubessem
o que nossas almas já reconheciam.
Porque, de alguma forma,
nunca foi sobre o carnal.
Foi sobre o teu bom-dia pela manhã,
o sorriso que me encontrava desprevenida,
as palavras que me acolhiam
quando o mundo desabava lá fora
e eu já não sabia como permanecer inteira.
Foi sobre encontrar abrigo em alguém
que sequer precisei abraçar
para sentir tão perto.
E talvez seja essa a parte mais bonita
e mais cruel de te amar:
sentir falta de momentos que nunca existiram,
guardar lembranças que ainda não vivi
e carregar no peito a saudade
de um futuro que nem sequer me pertence.
Mas aprendi que nem todo amor
floresce na estação em que nasce.
Alguns precisam do tempo,
do silêncio,
das voltas que a vida dá
até que dois caminhos
finalmente aprendam a se encontrar.
E, se for preciso esperar,
que eu espere sem fazer da espera uma prisão,
sem deixar minha vida passar
à sombra de um talvez.
Pois eu te amo,
e há uma beleza quase inexplicável
em amar alguém para além da pressa,
sem exigir do tempo uma resposta,
sem cobrar do destino uma promessa.
Se um dia nossos caminhos se cruzarem
na hora em que ambos soubermos ficar,
talvez eu finalmente te dê os beijos
que tantas noites precisei imaginar.
E, se esse dia nunca chegar,
ainda terei amado a tua essência,
aquela que encontrei antes da pele,
antes dos braços,
antes de qualquer certeza.
Porque algumas almas se reconhecem
muito antes de se pertencerem.
E talvez amar também seja isso:
aceitar que o coração chegou primeiro,
mesmo quando a vida
ainda não sabe para onde ir.