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Âncoras

Orlanobre
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Capítulo 1 - O Que a Superfície Devolve

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Pensamento

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contoBreve

Gostei de como você constrói o suspense desde o começo - o vapor, o barulho das correntes, a gente já sente que algo tá errado

Gostei de como você constrói o suspense desde o começo - o vapor, o barulho das correntes, a gente já sente que algo tá errado

Conteúdo da publicação

Capítulo 1 - O Que a Superfície Devolve

O hangar cheirava a óleo queimado e metal quente, um cheiro que nunca saía da roupa, por mais vezes que fosse lavada. Vapor subia em fios finos das juntas dos canos ao longo do teto, e o calor das caldeiras - lá embaixo, nas entranhas de Nova Arcádia - chegava até ali em ondas que embaçavam o ar sobre as cabeças dos soldados. Era um calor seco, diferente do frio cortante que esperava do lado de fora do casco, a milhares de metros acima das nuvens.

Ernst Vogel estava encostado contra uma das colunas de aço, os braços cruzados, um palito de fósforo apagado preso entre os dentes. Era um hábito que carregava desde os dezenove anos, quando um instrutor lhe dissera que fumar antes de uma missão trazia azar. Ele parou de fumar. Nunca largou o palito.

O som chegou antes que qualquer um olhasse para o poço.

Um rangido grave, longo, crescendo devagar - as correntes do Casulo, arrastando-se pelas roldanas no topo do túnel. O barulho tinha um jeito próprio de se espalhar pelo hangar inteiro, entrando pelas solas das botas antes mesmo de chegar aos ouvidos.

As conversas foram morrendo aos poucos. Ninguém deu ordem. Ninguém precisou.

- Voltaram cedo - disse Ernst, sem tirar o palito da boca.

Ao lado dele, o soldado Reyes ajeitou a arma no ombro e seguiu o olhar do capitão até o grande relógio de ferro pendurado sobre o portão principal. Os ponteiros marcavam quatro horas e onze minutos antes do previsto.

- Talvez tenham achado o que procuravam rápido demais - disse Reyes, sem muita convicção.

Ernst não respondeu. Vinte e dois anos ali dentro tinham lhe ensinado que expedições nunca voltavam cedo por bons motivos.

O vapor começou a subir do centro do poço, uma coluna branca e densa que se espalhava pelo chão de aço como uma maré baixa, contornando pernas e botas antes de escoar pelas grades. O som das correntes foi diminuindo, engrenagem por engrenagem, até restar apenas um zumbido abafado vindo de algum lugar nas profundezas da estrutura.

Então o topo do Casulo rompeu a névoa.

A cápsula surgiu centímetro por centímetro, coberta por arranhões recentes e uma fina camada de poeira acinzentada. Nada ali, à primeira vista, fugia do comum. Toda expedição voltava marcada.

Foi a mancha na porta que fez Ernst tirar o palito da boca.

Uma gota escura escorregou pela junta do painel de controle externo, seguiu a curva do metal e caiu sobre o piso com um som pequeno, quase inofensivo. Outra veio logo depois. E mais uma, formando uma poça que crescia devagar, alimentada por um ritmo constante demais para ser coincidência.

- Isso é sangue - disse Reyes, a voz baixando de repente.

Ernst já estava andando.

Ao seu sinal, um soldado correu até a alavanca principal e a segurou com as duas mãos, esperando confirmação. Ernst ergueu o queixo uma vez. Só isso.

As travas se soltaram com um estalo seco que ecoou pelas paredes de metal, e as duas portas do Casulo começaram a deslizar, lentas, como se tivessem peso próprio a vencer. Por um instante, o interior permaneceu escuro - um retângulo negro onde a luz do hangar não alcançava.

Depois, algo se moveu lá dentro.

Um Âncora surgiu cambaleando, a mão esquerda arrastando pela parede da cápsula em busca de apoio que não vinha. O uniforme de proteção, normalmente cinza-claro, estava quase todo escurecido - não dava para saber quanto daquilo era óleo e quanto era sangue. Ele deu três passos. No quarto, as pernas cederam, e o corpo bateu no chão com um som seco que fez até os soldados mais experientes se encolherem.

Atrás dele, parado na entrada, um segundo Âncora não se movia.

O capacete estava rachado na altura da têmpora. A viseira, estilhaçada, deixava ver apenas um pedaço de rosto pálido, imóvel. O peito não subia. Não descia.

- Médico! Agora, porra! - gritou alguém, e o hangar explodiu em movimento.

Foi nesse instante que o grito cortou tudo.

Um som que não parecia sair de um homem adulto - agudo, quebrado, cheio de um pavor que fez até os veteranos pararem por meio segundo antes de reagir.

O terceiro Âncora saiu da escuridão do Casulo correndo, tropeçando nos próprios pés, a respiração vindo em golfadas curtas, como alguém que tivesse acabado de escapar de dentro de um incêndio. Os olhos - vermelhos, arregalados, incapazes de fixar em qualquer ponto por mais de um segundo - varreram o hangar.

Passaram pelos soldados.

Pelo capitão.

Pelos próprios companheiros, caídos no chão atrás dele.

O sangue sumiu do rosto do rapaz.

- Não... - A palavra saiu quase inaudível. Ele deu um passo para trás, tropeçando na própria bota. - Não... vocês também...

Um dos Âncoras ainda consciente - Halvard, um homem grande, de barba rala, que sempre carregava um terço de metal enrolado no pulso - ergueu as duas mãos, a voz calma, o tipo de calma que se aprende depois de anos vendo gente quebrar.

- Ei. Calma. Já acabou, garoto.

Não deu tempo de terminar a frase.

O recruta se lançou sobre ele com uma força que ninguém esperava de um corpo tão exausto, e os dois caíram junto ao chão molhado de sangue e vapor condensado.

- Segurem ele! - berrou alguém.

Outro Âncora tentou intervir e foi empurrado com violência, caindo sentado contra a parede da cápsula. O recruta se debatia, mas não como quem ataca - como quem se afoga. Os punhos batiam no ar, nas mãos que se aproximavam, em qualquer coisa que tentasse tocá-lo.

- Me solta! - A voz rachava entre grito e soluço. - Não encosta em mim, caralho! Não encosta!

Cinco soldados avançaram ao mesmo tempo. Mesmo cercado, esmagado contra o chão por peso e número, ele continuava se contorcendo, os olhos fixos em algum ponto que ninguém mais conseguia ver.

- Quem são vocês?! - gritou, olhando direto para Reyes, que segurava seu braço. - O que vocês querem comigo?!

- Ei, sou eu, é o Reyes, olha pra mim.

- Vocês não são humanos! - A voz quebrou de vez, virando um uivo agudo, desesperado. - Vocês não são humanos, vocês não são...

Foi preciso seis homens para imobilizá-lo por completo. Mesmo assim, o corpo continuava tremendo, sacudindo em espasmos curtos, como uma máquina que insistia em funcionar mesmo depois de desligada. Ele chorava agora, um choro sem controle, misturado a palavras que não formavam mais frases.

O hangar inteiro parou.

Por um instante, nem o zumbido distante das caldeiras parecia real.

Ernst caminhou até o corpo do Âncora morto e se agachou ao lado dele. Afastou um pedaço da viseira quebrada com dois dedos. O rosto por baixo era jovem - mais jovem do que deveria estar ali, mais jovem do que a maioria que descia pelo Casulo. Ernst reconheceu o nome bordado no colarinho, mas não disse em voz alta. Levantou-se devagar, os joelhos estalando, e olhou para o recruta, agora imóvel sob o peso dos seis homens, os olhos ainda arregalados, fixos no teto.

- Já é o terceiro este mês - disse, mais para si mesmo do que para qualquer um ali.

Ninguém respondeu. Nunca respondiam.

Enquanto os médicos cobriam o corpo com um lençol que rapidamente ganhou uma mancha escura no meio, dois Âncoras levantaram o recruta pelos braços e o arrastaram para fora, os pés dele mal tocando o chão. Ele ainda chorava, murmurando algo baixo demais para entender.

No corredor, um homem de casaco cinza encostado na parede anotou algo numa prancheta assim que o recruta passou por ele. Não ergueu os olhos.

Ninguém olhou para ele.

Halvard, ainda sentado no chão, o terço de metal apertado com força na mão, observou o corredor vazio por um longo momento antes de virar para o soldado mais novo, que continuava parado, pálido, olhando para a poça de sangue que já começava a esfriar sobre o aço.

- Nunca esquece o que você viu hoje - disse Halvard.

O rapaz não conseguiu responder.

Halvard voltou os olhos para o corredor, para onde o homem de casaco cinza já tinha desaparecido.

- A superfície cobra um preço de todo mundo - continuou, a voz baixa, cansada. - E se sua cabeça não for forte o bastante...

Fez uma pausa. Os dedos apertaram o terço até os nós dos dedos ficarem brancos.

- ...é assim que ela te devolve.

Thoughts

  • contoBreve

    Gostei de como você constrói o suspense desde o começo - o vapor, o barulho das correntes, a gente já sente que algo tá errado

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  • atepagina50

    'Já é o terceiro este mês' - caralho, quantas pessoas já quebram mentalmente lá dentro?

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  • Simao

    Esse detalhe do palito de fósforo na boca do capitão - parece coisa pouca mas deixa ele tão real, sabe?

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  • Rui_Salgueiro

    Tipo, a gente fica sabendo o que é essa Superfície que cobrou esse preço? Parece que é o pior lugar possível

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  • Marina

    Isso me fez lembrar que nem toda volta é uma volta de verdade. O cara volta fisicamente mas... a cabeça dele fica lá

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  • vqueiroz90

    O que exatamente são esses Âncoras e de onde eles voltam? Tipo, missão fora da nave, ou é algo mais estranho?

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