A Cruz que Não Se Deixa Soltar
Eu ouvi a frase dela naquela tarde de chuva, quando o mundo parecia estar se desfazendo em água e barro:
— Fé fria não pede que tirem a cruz. Ela pede força para continuar andando com ela.
Adriana carregava a sua havia três anos. Era uma cruz de madeira bruta, do tamanho de uma pessoa, que ela mesma havia talhado depois da morte do filho. Dizia que era o seu fardo, o sinal do que tinha perdido, e que jamais pediria para que alguém a levasse dali.
Naquela noite, o silêncio da fazenda foi cortado por um rangido.
Abri os olhos. A chuva tinha parado, mas o ar estava pesado, frio como fundo de poço. Fui até a janela e vi: Adriana estava no terreiro, de pé, a cruz apoiada nos ombros. Mas ela não andava para lugar nenhum. Ela se arrastava. Os pés nus afundavam na terra úmida, e cada passo era como se arrancasse a própria pele.
— Dona Adriana! — gritei, saindo porta afora. — O que a senhora faz? Deixe isso no chão!
Ela não virou o rosto. A voz veio baixa, arrastada, como se viesse de dentro da madeira:
— Não posso. Disse que não pediria para tirar. Agora ela não quer mais parar.
Cheguei mais perto e senti o cheiro: não era só madeira velha. Era cheiro de seiva escura, de coisa viva que apodrece devagar. A cruz não estava apoiada nela — estava grudada. Os galhos que formavam a travessa tinham fincado pontas nos ombros dela, rasgando a roupa e a pele, se alimentando do seu calor.
— Eu pensei que era meu fardo — sussurrou ela, e uma lágrima caiu, brilhante como óleo. — Pensei que eu escolhia carregar. Mas a cruz não aceita que a larguem. Ela só pede que você ande mais. E mais. Sem parar.
Tentei agarrar na madeira para puxar, mas ela queimou a minha mão. Ouvi então uma voz que não era dela, que vinha de dentro da cruz:
“Você pediu força para andar comigo. Não pediu para eu te deixar ir.”
Adriana deu um passo para frente. Depois outro. Não havia mais cansaço no rosto — havia vazio. Os olhos dela estavam opacos, como se a alma tivesse ficado presa ali, entre os ramos, e só o corpo obedecia agora ao peso que jurara carregar.
No dia seguinte, não encontrei nem ela nem a cruz. A terra do terreiro estava lisa, sem pegadas. Mas de vez em quando, nas noites sem lua, eu ouço um rangido de madeira, vindo da estrada que leva ao cemitério. Uma sombra alta, carregando o seu fardo — para sempre.
E lembro: há coisas que não são fardos nossos. Há coisas que aceitamos carregar, sem saber que elas jamais nos soltarão.