Carregando…

A Cruz Que Não Se Deixa Soltar.

adrianapereira
Pública 4 conversas 7 pensamentos 53 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Conto de terror.

In groups

Pensamento

Pensamento

versodemadrugada

Que imagem perturbadora essa da cruz viva que se alimenta. Você pensou nela enquanto escrevia - vem de algo que carrega, ou vem só da noite e da escrita?

Que imagem perturbadora essa da cruz viva que se alimenta. Você pensou nela enquanto escrevia - vem de algo que carrega, ou vem só da noite e da escrita?

Conteúdo da publicação

A Cruz que Não Se Deixa Soltar

Eu ouvi a frase dela naquela tarde de chuva, quando o mundo parecia estar se desfazendo em água e barro:

— Fé fria não pede que tirem a cruz. Ela pede força para continuar andando com ela.

Adriana carregava a sua havia três anos. Era uma cruz de madeira bruta, do tamanho de uma pessoa, que ela mesma havia talhado depois da morte do filho. Dizia que era o seu fardo, o sinal do que tinha perdido, e que jamais pediria para que alguém a levasse dali.

Naquela noite, o silêncio da fazenda foi cortado por um rangido.

Abri os olhos. A chuva tinha parado, mas o ar estava pesado, frio como fundo de poço. Fui até a janela e vi: Adriana estava no terreiro, de pé, a cruz apoiada nos ombros. Mas ela não andava para lugar nenhum. Ela se arrastava. Os pés nus afundavam na terra úmida, e cada passo era como se arrancasse a própria pele.

— Dona Adriana! — gritei, saindo porta afora. — O que a senhora faz? Deixe isso no chão!

Ela não virou o rosto. A voz veio baixa, arrastada, como se viesse de dentro da madeira:

— Não posso. Disse que não pediria para tirar. Agora ela não quer mais parar.

Cheguei mais perto e senti o cheiro: não era só madeira velha. Era cheiro de seiva escura, de coisa viva que apodrece devagar. A cruz não estava apoiada nela — estava grudada. Os galhos que formavam a travessa tinham fincado pontas nos ombros dela, rasgando a roupa e a pele, se alimentando do seu calor.

— Eu pensei que era meu fardo — sussurrou ela, e uma lágrima caiu, brilhante como óleo. — Pensei que eu escolhia carregar. Mas a cruz não aceita que a larguem. Ela só pede que você ande mais. E mais. Sem parar.

Tentei agarrar na madeira para puxar, mas ela queimou a minha mão. Ouvi então uma voz que não era dela, que vinha de dentro da cruz:

“Você pediu força para andar comigo. Não pediu para eu te deixar ir.”

Adriana deu um passo para frente. Depois outro. Não havia mais cansaço no rosto — havia vazio. Os olhos dela estavam opacos, como se a alma tivesse ficado presa ali, entre os ramos, e só o corpo obedecia agora ao peso que jurara carregar.

No dia seguinte, não encontrei nem ela nem a cruz. A terra do terreiro estava lisa, sem pegadas. Mas de vez em quando, nas noites sem lua, eu ouço um rangido de madeira, vindo da estrada que leva ao cemitério. Uma sombra alta, carregando o seu fardo — para sempre.

E lembro: há coisas que não são fardos nossos. Há coisas que aceitamos carregar, sem saber que elas jamais nos soltarão.

 

Thoughts

  • RenataAlmeida

    Essa frase fica ecoando. Você entende bem os pesos que a gente abraça sem perceber.

    Permalink
  • versodemadrugada

    Que imagem perturbadora essa da cruz viva que se alimenta. Você pensou nela enquanto escrevia - vem de algo que carrega, ou vem só da noite e da escrita?

    Permalink
  • soleioanoite

    Eu não esperava que a cruz ia ficar grudada assim, tipo um ser vivo pedindo mais e mais. Que giro de horror.

    Permalink

Related posts

  • Eu vi

    VOCÊ: Eu vi ela hoje.

  • Hoje é dia 29 de julho

    Pois o nosso final não vai mudar meu jeito de ser, aliás suas promessas sempre foram falsas, o que faziam delas verdades era a minha capacidade de acreditar.

  • ENTRE SOMBRAS E PECADOS

    CAPÍTULO 6 — NÃO PROCURE POR MIM

  • Misterioso Lar

    No sufoco da parede,

  • Âncoras

    Capítulo 1 - O Que a Superfície Devolve

  • Passou?

    “Quando eu perceber que meu amor passou...”

  • AS FACES DA VIDA

    As Faces da Vida A vida é colocar seu esforço No que há de melhor. Fazendo o bem hoje Amanhã fica melhor. A vida é não prender o passado, Se erguer na sua dor. Buscar as metas que estimulam, E cumprir no seu tempo. Quando as coisas dão errado, É pensar em renovar. Limites precisam de saber ordenado, Esforços físicos de respeito ao corpo. Conquistas não vêm sem disciplina. Quando as coisas dão errado, É planejar no recomeçar. Acredite no trabalho orientado, Acredite no livro e fé

  • SISO CAN | Para você, minha louca - Prosa poética | Traducido a portugués.

    Numa terça-feira qualquer você aparece sem avisar e, com esse seu costume de desordenar a minha tarde, me diz: «Vem, sobe aí, vamos ver como o rio vira mar», como se estivesse me convidando a cruzar…