Pular para o conteúdo
Carregando…

Âncoras

Orlanobre
Pública 6 conversas 10 pensamentos 35 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Capítulo 11 - Cara ou Coroa

In groups

Pensamento

Pensamento

religioes_lado_a_lado

Uma moeda passada de mão na hora da morte tem um eco antigo, o óbolo que os gregos punham com o morto para pagar a Caronte. Aqui corre ao contrário: fica com quem vai ser puxado de volta para a vida.

Uma moeda passada de mão na hora da morte tem um eco antigo, o óbolo que os gregos punham com o morto para pagar a Caronte. Aqui corre ao contrário: fica com quem vai ser puxado de volta para a vida.

Conteúdo da publicação

Capítulo 11 - Cara ou Coroa

- Três minutos - repetiu Adrian, baixinho, mais pra si mesmo do que pra Marco, como se dizer em voz alta pudesse fazer o número parecer menos impossível. - Três minutos, acho que dá tempo.

- Alavanca - disse Marco, a voz apertada de dor, mas ainda firme. - Deve ter alguma coisa aqui que sirva de alavanca.

Adrian se levantou de um salto, o coração batendo tão forte que ele sentia nos próprios ouvidos, e correu até a estante de armas tombada, chutando entulho pra longe, os dedos correndo por cima de placas de metal retorcido, restos de suporte enferrujado, nada comprido o suficiente, nada forte o suficiente.

- Vem, vem, vem - murmurava pra si mesmo, virando uma placa maior, encontrando embaixo dela uma barra de ferro fina, mas longa. - Achei uma coisa!

Correu de volta, encaixando a ponta da barra embaixo da viga que prendia as pernas de Marco, apoiando o próprio peso contra a outra extremidade.

- Na conta de três. Um. Dois-

Os dois fizeram força ao mesmo tempo, os músculos travando, os dentes cerrados dentro dos capacetes. A barra dobrou com um guincho metálico agudo antes que a viga se movesse sequer um centímetro.

- PORRA! - Adrian jogou a barra torta pra longe, o som dela batendo contra o concreto ecoando pelo espaço fechado. - Porra, porra, porra-

- Calma. - A voz de Marco saiu mais fina agora, cada palavra custando um pouco mais que a anterior. - Tenta... tenta achar outra coisa.

Adrian voltou pra estante, revirando tudo com mais força agora, o desespero deixando os movimentos mais brutos, menos calculados. Encontrou um pedaço maior, quase um caco de estrutura arrancado da própria parede, pesado o suficiente pra doer nos braços só de carregar.

- Essa aqui, essa vai funcionar.

Voltou e tentou fazer uma alavanca, mas a viga nem se moveu, começou a bater com ela contra a borda, não tentando mais erguer, só quebrar, rachar, abrir qualquer fresta que desse pra Marco escapar.

Bateu uma vez.

Duas.

Uma nuvem fina de poeira começou a se soltar do concreto.

- Tá funcionando - disse, quase sem fôlego, batendo de novo, com mais força ainda. - Eu vejo rachando, só mais um pouco, só mais...

- Dois minutos - a voz de Hollis cortou o rádio, e o número pareceu esticar o próprio tempo, cada sílaba dele durando mais do que deveria durar, o jeito que um segundo parece uma vida inteira quando não sobra nenhum.

Adrian bateu de novo.

O suor escorria por dentro do capacete agora, descendo até os olhos, ardendo, forçando ele a piscar com força no meio de cada golpe, a visão embaçando por um instante antes de clarear de novo.

- Adrian - chamou Marco, a voz mais fraca.

Ele bateu de novo.

- Adrian, já chega.

- Não! - Bateu mais uma vez, com tanta força que os braços protestaram, um formigamento subindo até o ombro. - Não vou parar, tá quase, eu juro que tá quase...

- Adrian.

Adrian finalmente parou, o peito subindo e descendo rápido demais, os braços tremendo de exaustão, o pedaço de metal escorregando da mão e caindo com um baque surdo.

- Não vai funcionar - disse Marco, cada palavra saindo devagar, como se precisasse juntar força antes de cada uma. - A gente já tentou, e não tem mais tempo, vem aqui.

Adrian não se moveu.

- Vem aqui, Adrian.

Ele se arrastou pra perto, caindo sentado ao lado de Marco, e só então deixou a própria mão fechar-se em punho e bater contra o concreto - uma vez, duas vezes - a dor no próprio pulso quase bem-vinda, alguma coisa física pra sentir além do pânico.

- Que desgraça - sussurrou, batendo de novo. - Merda, merda...

- Ei. - Marco, incrivelmente, sorria. Adrian conseguia ouvir isso na voz, mesmo sem ver direito através da névoa de poeira ainda pairando entre os dois. - Tá tudo bem.

- Não, não tá nada bem.

- Pra mim tá.

Adrian olhou pra ele, a raiva e a descrença se misturando no próprio peito.

- Um minuto - anunciou Hollis, e dessa vez alguma coisa na voz dele quebrou, só um pouco, só o suficiente pra Adrian perceber que ele também sentia o peso daquilo, mesmo do outro lado do rádio, mesmo impotente pra fazer qualquer coisa.

Marco pegou a moeda que sempre carregou consigo.

- Sabe de onde veio isso da moeda? - perguntou Marco, a respiração entrecortada entre as palavras.

- Marco, agora não...

- Meu pai. - Ele continuou como se não tivesse ouvido, parando pra respirar fundo antes de seguir. - Ele nunca confiava... na própria cabeça, pra decisão nenhuma. Dizia que a gente já sabe... o que quer... antes da moeda cair. Ela só dá um segundo a mais... pra gente admitir isso pra si mesmo.

- Por que você tá me contando isso agora?

Marco não respondeu na hora. Respirou fundo de novo, o som áspero, esforçado.

- Chega mais perto.

Adrian se aproximou, o capacete quase encostando no de Marco.

- Dessa vez - disse Marco, cada palavra pesada, definitiva - eu não vou jogar moeda em um cara ou coroa, eu já sei exatamente o que eu quero. Isso aqui, agora, sou eu decidindo, de verdade, pela primeira vez na porra da minha vida.

- Decidindo o que exatamente Marco?

- Tome, segure essa moeda. - Os olhos dele, através dos dois capacetes, finalmente encontraram os de Adrian, firmes apesar de tudo. - Fique com ela.

- Dez segundos! - Disse Hollis do outro lado do rádio, como quem só está fazendo uma contagem simplesmente por protocolo e não mais por acreditar que haja tempo pra algo.

As mãos de Marco já se moviam, rápidas demais para Adrian conseguir impedir, destravando o próprio gancho e encaixando no traje de Adrian. Dois toques rápidos contra o metal.

- NÃO! Marco, NÃO, para com-

O cabo puxou com força brutal.

Adrian jogou o corpo pra frente por instinto, as mãos fincando na terra solta, os dedos se enterrando na poeira e nos cacos de concreto, tentando se agarrar a qualquer coisa que servisse de âncora contra a força que já o arrastava para trás. Sentiu as unhas rasgarem contra alguma coisa dura, sentiu o próprio corpo escorregar mesmo assim, os dedos abrindo sulcos rasos no chão antes de perderem completamente o apoio.

O cabo deu um puxão mais forte, torcendo o corpo dele de lado, e Adrian caiu, o ombro batendo contra um pedaço de escombro antes de continuar sendo arrastado, incapaz de fazer qualquer coisa além de gritar o nome de Marco até a garganta doer, a voz saindo rachada, irreconhecível pra ele mesmo.

Através da névoa que engolia tudo, ele viu por um instante - só um instante, breve demais, cruel demais - Marco deitado onde tinha ficado, o rosto virado na direção dele, ainda sorrindo.

A distância cresceu.

A figura foi ficando menor, mais indistinta, os contornos se dissolvendo devagar na neblina cinzenta que parecia fechar-se sobre ele como uma cortina puxada com calma, sem pressa nenhuma, até não sobrar nada além de branco.

Thoughts

  • Aluisio

    O Hollis contando os dez segundos só por protocolo foi o que mais pesou pra mim. Desconfio que esse homem do rádio vai carregar isso mais tempo que o próprio Adrian.

    Permalink
  • religioes_lado_a_lado

    Uma moeda passada de mão na hora da morte tem um eco antigo, o óbolo que os gregos punham com o morto para pagar a Caronte. Aqui corre ao contrário: fica com quem vai ser puxado de volta para a vida.

    Permalink
  • Ovid

    A moeda do pai do Marco, que só serve pra dar um segundo a mais até a gente admitir o que já quer, me fez pensar nas vezes que a gente finge não saber e deixa pra sorte. Aposto que o Adrian vai passar os próximos capítulos com essa moeda no bolso sem coragem de jogar nenhuma vez. Que capítulo pesado!

    Permalink
  • rotaAntiga

    Marco, pá. Não. 😶

    Permalink

Related posts

  • O Toque do Monstro

    A garotinha indefesa,

  • metas a cumprir e não pessoas a impressiona

    quero dedicar essa publicação a todos que ler meus posts, venho aqui a dizer a vocês grandes sonhadores que não desista dos seus sonhos e nem das suas metas lembre se vc é seu herói e sua heroína…

  • Promessa ao vento

    Ele jurou uma história bem viva,

  • Eu odeio te amar

    Você diz que pensa em mim. Pensa no tempo em que a gente existiu.

  • EU NÃO VIVO SEM VOCÊ

    Eu não vivo, eu morro, Eu tento explicar, Esse amor me destrói, Sem você me amar. Meu coração sofre, Não consegue esquecer, Quanto mais eu te amo, Mais quero você. Eu vivo na saudade, Chorando por…

  • Um dia quente antes de um possível vendaval

    Hoje o dia amanheceu daquele jeito bem Rio de Janeiro: quente, abafado e com um sol que faz a gente pensar duas vezes antes de sair de casa. E justamente hoje eu preciso ir no mercado comprar as…

  • A Autópsia da Liberdade - Parte 3 final

    Mais Tarde no Ginasio das Piscina O vapor da piscina subia devagar, como um véu flutuante sobre a superfície azulada. As luzes frias do teto refletiam na água e recortavam os rostos das poucas…

  • O Sonho de Ana,a Veterinária

    Ana era uma menina curiosa que adorava brincar com os animais da vizinhança. Cuidava dos passarinhos que caíam do ninho, fazia carinho nos cachorros de rua e até conversava com os gatos como se…