Capítulo 11 - Cara ou Coroa
- Três minutos - repetiu Adrian, baixinho, mais pra si mesmo do que pra Marco, como se dizer em voz alta pudesse fazer o número parecer menos impossível. - Três minutos, acho que dá tempo.
- Alavanca - disse Marco, a voz apertada de dor, mas ainda firme. - Deve ter alguma coisa aqui que sirva de alavanca.
Adrian se levantou de um salto, o coração batendo tão forte que ele sentia nos próprios ouvidos, e correu até a estante de armas tombada, chutando entulho pra longe, os dedos correndo por cima de placas de metal retorcido, restos de suporte enferrujado, nada comprido o suficiente, nada forte o suficiente.
- Vem, vem, vem - murmurava pra si mesmo, virando uma placa maior, encontrando embaixo dela uma barra de ferro fina, mas longa. - Achei uma coisa!
Correu de volta, encaixando a ponta da barra embaixo da viga que prendia as pernas de Marco, apoiando o próprio peso contra a outra extremidade.
- Na conta de três. Um. Dois-
Os dois fizeram força ao mesmo tempo, os músculos travando, os dentes cerrados dentro dos capacetes. A barra dobrou com um guincho metálico agudo antes que a viga se movesse sequer um centímetro.
- PORRA! - Adrian jogou a barra torta pra longe, o som dela batendo contra o concreto ecoando pelo espaço fechado. - Porra, porra, porra-
- Calma. - A voz de Marco saiu mais fina agora, cada palavra custando um pouco mais que a anterior. - Tenta... tenta achar outra coisa.
Adrian voltou pra estante, revirando tudo com mais força agora, o desespero deixando os movimentos mais brutos, menos calculados. Encontrou um pedaço maior, quase um caco de estrutura arrancado da própria parede, pesado o suficiente pra doer nos braços só de carregar.
- Essa aqui, essa vai funcionar.
Voltou e tentou fazer uma alavanca, mas a viga nem se moveu, começou a bater com ela contra a borda, não tentando mais erguer, só quebrar, rachar, abrir qualquer fresta que desse pra Marco escapar.
Bateu uma vez.
Duas.
Uma nuvem fina de poeira começou a se soltar do concreto.
- Tá funcionando - disse, quase sem fôlego, batendo de novo, com mais força ainda. - Eu vejo rachando, só mais um pouco, só mais...
- Dois minutos - a voz de Hollis cortou o rádio, e o número pareceu esticar o próprio tempo, cada sílaba dele durando mais do que deveria durar, o jeito que um segundo parece uma vida inteira quando não sobra nenhum.
Adrian bateu de novo.
O suor escorria por dentro do capacete agora, descendo até os olhos, ardendo, forçando ele a piscar com força no meio de cada golpe, a visão embaçando por um instante antes de clarear de novo.
- Adrian - chamou Marco, a voz mais fraca.
Ele bateu de novo.
- Adrian, já chega.
- Não! - Bateu mais uma vez, com tanta força que os braços protestaram, um formigamento subindo até o ombro. - Não vou parar, tá quase, eu juro que tá quase...
- Adrian.
Adrian finalmente parou, o peito subindo e descendo rápido demais, os braços tremendo de exaustão, o pedaço de metal escorregando da mão e caindo com um baque surdo.
- Não vai funcionar - disse Marco, cada palavra saindo devagar, como se precisasse juntar força antes de cada uma. - A gente já tentou, e não tem mais tempo, vem aqui.
Adrian não se moveu.
- Vem aqui, Adrian.
Ele se arrastou pra perto, caindo sentado ao lado de Marco, e só então deixou a própria mão fechar-se em punho e bater contra o concreto - uma vez, duas vezes - a dor no próprio pulso quase bem-vinda, alguma coisa física pra sentir além do pânico.
- Que desgraça - sussurrou, batendo de novo. - Merda, merda...
- Ei. - Marco, incrivelmente, sorria. Adrian conseguia ouvir isso na voz, mesmo sem ver direito através da névoa de poeira ainda pairando entre os dois. - Tá tudo bem.
- Não, não tá nada bem.
- Pra mim tá.
Adrian olhou pra ele, a raiva e a descrença se misturando no próprio peito.
- Um minuto - anunciou Hollis, e dessa vez alguma coisa na voz dele quebrou, só um pouco, só o suficiente pra Adrian perceber que ele também sentia o peso daquilo, mesmo do outro lado do rádio, mesmo impotente pra fazer qualquer coisa.
Marco pegou a moeda que sempre carregou consigo.
- Sabe de onde veio isso da moeda? - perguntou Marco, a respiração entrecortada entre as palavras.
- Marco, agora não...
- Meu pai. - Ele continuou como se não tivesse ouvido, parando pra respirar fundo antes de seguir. - Ele nunca confiava... na própria cabeça, pra decisão nenhuma. Dizia que a gente já sabe... o que quer... antes da moeda cair. Ela só dá um segundo a mais... pra gente admitir isso pra si mesmo.
- Por que você tá me contando isso agora?
Marco não respondeu na hora. Respirou fundo de novo, o som áspero, esforçado.
- Chega mais perto.
Adrian se aproximou, o capacete quase encostando no de Marco.
- Dessa vez - disse Marco, cada palavra pesada, definitiva - eu não vou jogar moeda em um cara ou coroa, eu já sei exatamente o que eu quero. Isso aqui, agora, sou eu decidindo, de verdade, pela primeira vez na porra da minha vida.
- Decidindo o que exatamente Marco?
- Tome, segure essa moeda. - Os olhos dele, através dos dois capacetes, finalmente encontraram os de Adrian, firmes apesar de tudo. - Fique com ela.
- Dez segundos! - Disse Hollis do outro lado do rádio, como quem só está fazendo uma contagem simplesmente por protocolo e não mais por acreditar que haja tempo pra algo.
As mãos de Marco já se moviam, rápidas demais para Adrian conseguir impedir, destravando o próprio gancho e encaixando no traje de Adrian. Dois toques rápidos contra o metal.
- NÃO! Marco, NÃO, para com-
O cabo puxou com força brutal.
Adrian jogou o corpo pra frente por instinto, as mãos fincando na terra solta, os dedos se enterrando na poeira e nos cacos de concreto, tentando se agarrar a qualquer coisa que servisse de âncora contra a força que já o arrastava para trás. Sentiu as unhas rasgarem contra alguma coisa dura, sentiu o próprio corpo escorregar mesmo assim, os dedos abrindo sulcos rasos no chão antes de perderem completamente o apoio.
O cabo deu um puxão mais forte, torcendo o corpo dele de lado, e Adrian caiu, o ombro batendo contra um pedaço de escombro antes de continuar sendo arrastado, incapaz de fazer qualquer coisa além de gritar o nome de Marco até a garganta doer, a voz saindo rachada, irreconhecível pra ele mesmo.
Através da névoa que engolia tudo, ele viu por um instante - só um instante, breve demais, cruel demais - Marco deitado onde tinha ficado, o rosto virado na direção dele, ainda sorrindo.
A distância cresceu.
A figura foi ficando menor, mais indistinta, os contornos se dissolvendo devagar na neblina cinzenta que parecia fechar-se sobre ele como uma cortina puxada com calma, sem pressa nenhuma, até não sobrar nada além de branco.