você deixou os espaços em branco propositais? porque parece que tem muito mais história aí que cabe nestas definições. eu levei três noites a ler isto, que é o meu ritmo, e na terceira fiquei parado na lista a contar o que ficou por preencher. houve alguma palavra que quase entrou e que você acabou por tirar?
Amor e Seus Sinônimos
Camaleão
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Pensamento
você deixou os espaços em branco propositais? porque parece que tem muito mais história aí que cabe nestas definições. eu levei três noites a ler isto, que é o meu ritmo, e na terceira fiquei parado na lista a contar o que ficou por preencher. houve algum
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Camaleão
Clarice Lispector dizia, "Amar é dar de presente aquilo que não se tem." - A Paixão Segundo G.H.
Para Machado de Assis, "Cada qual sabe amar a seu modo; o modo pouco importa; o essencial é que saiba amar." - Memórias Póstumas de Brás Cubas
Legião Urbana dizia, " É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã." - Pais e Filhos
Já para a Maria de Lurdes, "Amor é quando a gente só tem um biscoito e dá ele pro amigo." - Maria de Lurdes, 6 anos
E entre definições tão profundas de grandes autores e a simplicidade de Maria de Lurdes, percebi que o Amor é algo muito mais surpreendente do que parece. Desde um amar como se não houvesse o amanhã até o ato de dar o último biscoito para o amigo.
A maioria das pessoas acredita que o amor só é perceptível quando você olha para as nuvens e vê o rosto do amado, quando está varrendo a casa e começa rir porque lembrou de uma situação engraçada que viveu com a amiga, e essas pessoas tem razão, o amor é tudo isso mesmo, mas eu não vim aqui apenas para dizer que o amor é maravilhoso.
Já tive inúmeras experiências com amor, e o mais engraçado é que eu só tenho dezessete anos. O amor só é amor quando você acredita que é amor, quando você sabe que é amor. Não tem uma hora certa para você descobrir o que é o amor, não existe uma idade certa, e nem uma situação específica.
Quando eu tinha quatro anos, morei com a minha família materna, e minha mãe trabalhava viajando para inúmeros lugares fazendo feiras de livros. Quando ela aparecia, ficava doze dias, uma semana, quatro dias, e em uma madrugada qualquer, de uma segunda-feira qualquer, eu a via saindo pela porta com suas malas para passar um ou dois meses longe de mim. Sempre fui a criança que não dava trabalho, mas sempre me perguntei se eu era amada. Eu constantemente fazia afirmações diante do espelho dizendo, "Se ela me ama, por que foi embora de novo?".
Quando fiz onze, ficava olhando no pátio do meu colégio me perguntando o que era o amor, e por que a frase "Eu te amo." saía de maneira não simples da boca das minhas colegas. Às vezes não tinha um motivo plausível, pelo menos não para mim, para dizer essa frase tão forte. Eu via a Ana dizendo "eu te amo" para a Vitória apenas por ter amarro os cadarços dela, e isso não fazia o mínimo sentido para mim.
Aos meus treze, minutos antes do meu primeiro beijo, acreditava fielmente que eu já estava pronta para amar, que aquele era o momento ideal, e que ia ser tudo aquilo que aparentava ser nas comédias românticas e filmes, o bendito frio na barriga, o coração nos olhos, os pássaros voando em volta de mim e tudo que eu tinha direito, e realmente, tinha tudo para ser perfeito, o local, o momento, a roupa nem tanto, muito menos o cabelo, mas pelo menos estava chovendo. E foi nessa brincadeira de criança que descobri a lamentável verdade, que não era bem assim.
Aos meus quatorze, conheci ele, que vamos chamá-lo carinhosamente de ovelha. Eu gostava de estar com ele, eu sentia o frio na barriga, mas esse frio não era tão bom como eu imaginava. Me sentia nervosa, ficava sem jeito e não sabia como puxar assunto, até eu descobrir que ambos gostávamos de ler e tínhamos algumas bandas em comum, e isso simplificou muito. (Mas essa história ficara para a próxima carta)
Aos meus dezessete, esse amor não estava mais nos fazendo bem. Mas sabe o que me intrigava? era o fato de ainda existir muito amor entre nós, não tinha lógica está doendo tanto. "Que raios de amor é esse?" eu perguntava enquanto chorava na ligação com o mesmo. Me perguntava que amor era esse que depois de um tempo começa a machucar, que amor é esse que só te causa dor, que amor é esse que some sem avisar.
Quando paramos de nos falar, e eu aceitei que não era nossa culpa, fiz o que toda garota de dezessete anos faz quando está de luto por um relacionamento, comecei a listar os "Sinônimos de Amor".
Fazer a lista foi um processo bem simples, eu só tinha que lembrar que senti no início e no fim de cada relacionamento que já tive. Não era obrigatório que fosse somente como casal, poderia ser de família, amigos, animais e assim por diante. Mas havia um pequeno problema. Eu não fazia a mínima ideia de quando era amor ou não, afinal, nem eu sabia ao certo o que era o amor.
Foi aí que entendi que o amor não tem um significado só, ele é igual um camaleão. O amor não é um substantivo estático preso no dicionário, mas sim a forma que ele se manifesta na minha vida. E então eu comecei meu próprio dicionário de sinônimos, e usei as palavras mais significativas possíveis para mim.
Saudade, aos quatro anos, quando vi minha mãe saindo de mala numa madrugada qualquer. Ali, o amor era a dor da ausência e a certeza de que ela ia voltar.
Incompreensão, aos onze, vendo minhas colegas amarrarem os cadarços umas das outras. Eu ainda não sabia, mas já estava presenciando o amor na forma mais pura que a Maria de Lurdes descreveu. A delicadeza de abrir mão do próprio tempo para cuidar do outro, como quem dá o seu único biscoito.
Expectativa e Urgência, aos treze, esperando um beijo de cinema debaixo da chuva. Era o desejo de viver o sentimento com a intensidade que o Legião Urbana cantava, querendo amar "como se não houvesse o amanhã".
Vulnerabilidade, aos quatorze, descobrindo o gosto em comum por bandas no meio da noite. Era a tentativa de praticar o que Machado de Assis dizia, de aprender a amar ao meu próprio modo, descobrindo que o essencial era simplesmente sentir.
Entrega e Renúncia, aos dezessete, quando precisei aprender a deixar ir. Um amor que doía e não fazia sentido, mas que me lembrou Clarice Lispector, amar às vezes é exatamente isso, um ato quase impossível de "dar de presente aquilo que não se tem", mesmo quando o que nos sobre por dentro é só o vazio da despedida com a saudade do que se viveu.
E assim a minha lista foi concluída, mas a deixei com alguns espaços, porque sei que vou descobrir muitos outros sinônimos, vou concluir apenas quando eu descobri como é o amor em todas as suas formas, e talvez, eu nunca descubra.
Thoughts
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Permalinkvocê deixou os espaços em branco propositais? porque parece que tem muito mais história aí que cabe nestas definições. eu levei três noites a ler isto, que é o meu ritmo, e na terceira fiquei parado na lista a contar o que ficou por preencher. houve alguma palavra que quase entrou e que você acabou por tirar?
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Permalinknão esperava por isso quando comecei a ler. você desceu fundo mesmo nessa coisa de a gente amar sem saber o que é amar, sem ter manual
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Permalinkaquela madrugada com as malas da sua mãe... você lembra do cheiro? ou é só aquela sensação que fica, sabe? a gente não sabe bem nomear. você nomeou de saudade
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Permalinkvocê esperou o beijo de cinema e descobriu que não era assim. O que era, então? Como era de verdade?
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Permalinkgostei daquela parte da Maria de Lurdes. uma criança de seis anos falando mais verdade que Clarice, e a gente complica o que era só dar o biscoito pro amigo
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Permalinkvocê descreveu a incompreensão aos onze bem. e depois, conseguiu amar simples como aquelas meninas amarrando cadarços?
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Permalinka parte de você aceitar que não era culpa de nenhum dos dois é a que eu reli mais vezes. no balcão eu digo que só leio livro de guerra, mentira, e foi essa frase que me pegou numa segunda com o salão vazio. quanto tempo passou entre aquela ligação chorando e o dia em que você conseguiu escrever isso sem culpar ninguém?
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Permalinka menina de quatro anos falando pro espelho "Se ela me ama, por que foi embora de novo?" foi a parte que eu reli parado na porta do restaurante esperando pedido. e é ela que abre a lista depois, como Saudade. você lembra de ter feito essa pergunta na época ou foi alguém da sua família que te contou anos depois que você fazia?
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