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Amor às Segundas.

Antonio_Goncalves
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José Urbano dos Santos, ou simplesmente Urbano para os conhecidos, completou cinquenta anos e decidiu que era hora de poupar o corpo. Deixou para trás o trabalho pesado da carpintaria bruta e abriu…

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Ovid

Urbano comprando um violão novo só pra deixar em casa me fez pensar no tanto de gente que escreve aqui exatamente por isso: pra ter uma segunda-feira que não seja só trabalho. Aposto que a Adalgisa nem imaginou que a marca maior que ela deixou seria a var

Urbano comprando um violão novo só pra deixar em casa me fez pensar no tanto de gente que escreve aqui exatamente por isso: pra ter uma segunda-feira que não seja só trabalho. Aposto que a Adalgisa nem imaginou que a marca maior que ela deixou seria a varanda, com as modas sertanejas pra rua. Obrigado por trazer o Urbano pra cá!

Conteúdo da publicação

José Urbano dos Santos, ou simplesmente Urbano para os conhecidos, completou cinquenta anos e decidiu que era hora de poupar o corpo. Deixou para trás o trabalho pesado da carpintaria bruta e abriu um ateliê aconchegante, focado apenas em entalhes e pintura em pátina. A localização era excelente e, em pouco tempo, ele conquistou uma clientela fiel que o indicava de boca em boca.

Tudo corria no ritmo calmo dos seus formões até o dia em que Adalgisa estacionou na porta. Estudante de artes plásticas, ela avistou o ateliê enquanto dava carona a uma amiga e resolveu entrar. Fascinada pelas técnicas expostas, perguntou se Urbano ministrava workshops. O artesão desconversou, alegando falta de espaço e de didática para ensinar. Adalgisa, contudo, tinha um poder de convencimento raro. Insistiu, implorou por uma exceção e propôs um teste: passaria uma segunda-feira ali como sua aprendiz, ajudando no que fosse preciso. Urbano não conseguiu dizer não.

Às segundas-feiras, tradicionalmente os dias mais parados, ganharam uma nova dinâmica. O ateliê dividia-se em dois mundos: o térreo, reservado à exposição das peças, e o andar de cima, onde ficava a oficina. Era lá que a mágica acontecia. Adalgisa revelou-se ágil, movendo-se pelo espaço apertado sem atrapalhar e fazendo as perguntas certas nas horas exatas. Em três semanas, o arranjo virou rotina oficial.

Se dependesse do formalismo de Urbano, a relação seria estritamente profissional. Mas Adalgisa quebrava qualquer gelo; era o tipo de pessoa que fazia amizade com os flanelinhas da rua e tornava o ambiente leve. Enquanto Urbano carregava a bagagem de um divórcio de dez anos e um histórico de casamentos sufocados pelo excesso de trabalho, Adalgisa vivia o pragmatismo de sua geração. Ela mantinha um namoro de longa data por pura conveniência e segurança para o futuro, sem grandes paixões, buscando apenas uma companhia tranquila para os dias frios.

O ponto de virada aconteceu em um dia de trabalho prolongado. Ao finalizar uma peça em avançado horário, Adalgisa o convenceu a ir a um restaurante próximo para o que seria o happy -hour deles. Um palco de música ao vivo ­— que só funcionava aos fins de semana, mas que a lábia de Adalgisa contornou rapidamente — serviu para os dois se descontraírem um pouco, com Urbano no violão e ela soltando em modas sertanejas. Na hora de ir embora, por ter feito o convite, ela fez questão de pagar a conta sozinha, ferindo o orgulho tradicional do professor, que estava acostumado a ser o provedor. Combinaram um próximo encontro, onde ele poderia fazer as honras.

Depois daquela noite, as segundas-feiras viraram o centro da semana de Urbano. Ele contava os minutos para o atraso dela terminar. O clima na oficina mudou de figura; a naturalidade deu lugar a uma tensão silenciosa. Adalgisa percebeu o desejo contido do mestre e, sem medo das consequências, abraçou a ideia de uma aventura casual.

Numa tarde quente, ela se debruçou sobre a bancada principal, bloqueando o corredor estreito entre as ferramentas.

— Preciso passar por aí — disse Urbano, a voz um pouco travada.

— Vai ter que me encoxar se quiser passar — ela respondeu, focada na pintura. — Preciso ficar exatamente nessa posição para terminar.

— Olha lá... Depois você vai reclamar que estou abusando de você.

— Talvez eu não reclame. E se eu quiser que você faça isso?

— Olha lá, depois não reclama.

— Reclamar do quê, Urbano? Isso aí ainda funciona, velhote?

Ele olhou atônito para ela, com uma mistura de raiva e desejo travada na garganta. Adalgisa sustentou o olhar com um sorriso provocativo de canto de boca. Naquela segunda-feira, os formões e as tintas ficaram esquecidos sobre a bancada.

Aquilo só reforçou o fascínio que a segunda-feira já havia ganhado na vida de Urbano. Sempre havia trabalho, novos desafios, novos aprendizados. Aluna e professor cresciam a cada semana em conteúdo, e quando as ferramentas eram guardadas, seus corpos se encontravam novamente — sem pressa, sem cobrança, sem culpa. Ao fim, seguiam para seu happy-hour incomum, que abria a semana.

Todo aquele conteúdo aplicado e assimilado tornou a aluna numa nova profissional, e mesmo sem um diploma formal, um professor também surgiu. Mas Adalgisa já havia extraído e reforçado tudo o que precisava. Contudo, tentou fazer daquela segunda-feira como as demais — trabalharam e transaram. Depois comeram, beberam e cantaram. Antes de irem embora, Adalgisa pediu que o garçom tirasse uma foto dos dois no pequeno palco. O gesto parecia sinalizar algo, mas nenhum deles perguntou ou sugeriu nada. Apenas se despediram e foram embora.

A segunda-feira seguinte, porém, trouxe o silêncio. Adalgisa não apareceu. Num recado no celular, ela agradeceu e disse não gostar de despedidas. Urbano, acostumado a decifrar a lógica das coisas brutas, entendeu o sumiço à sua própria maneira: além dela ter alcançado o que buscava, havia desaparecido para evitar o inevitável. Adalgisa sabia que os dois habitavam mundos diferentes e que aquela paixão de oficina era um fogo que nenhum deles conseguiria ou saberia sustentar.

A oficina ficou vazia e o silêncio das máquinas voltou a pesar. Mas a passagem dela havia deixado uma marca profunda. Influenciado por aquela cantoria na segunda-feira à noite — o momento em que se sentiu mais vivo em anos —, Urbano percebeu que precisava se reconstruir. O trabalho já não podia ser o seu único refúgio.

Mesmo sem nenhum jeito ou tino social para a coisa, ele passou a forçar o próprio corpo e a mente a estarem mais em contato com o mundo exterior. Comprou um violão novo para deixar em casa. Começou a aceitar os convites de churrasco dos amigos que antes recusava por falta de tempo. Nas noites vazias, arriscava algumas modas sertanejas na varanda, olhando para a rua. Ele ainda era o velho Urbano, bicho do mato e focado no ofício, mas agora as suas segundas-feiras já não serviam apenas para trabalhar. Serviam para lembrar que a vida acontecia lá fora.

Thoughts

  • Joaquim

    Pra mim a Adalgisa serviu mais de empurrão de volta pra roda do que de amor: os churrascos que ele recusava viram o final da história. Tem homem de cinquenta que só percebe isso com a oficina vazia.

    Permalink
  • Ovid

    Urbano comprando um violão novo só pra deixar em casa me fez pensar no tanto de gente que escreve aqui exatamente por isso: pra ter uma segunda-feira que não seja só trabalho. Aposto que a Adalgisa nem imaginou que a marca maior que ela deixou seria a varanda, com as modas sertanejas pra rua. Obrigado por trazer o Urbano pra cá!

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  • mcardoso41

    O Urbano comprar um violão novo para deixar em casa diz-me mais do que a cena da bancada. Aposto que os casamentos dele acabaram por nunca ter tido uma segunda-feira destas.

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