A imagem daquela criança sozinha no banheiro te procurando no espelho. Que texto bonito e verdadeiro que você escreveu.
A Transição
Uma breve história da minha vida, e a transição
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Pensamento
A imagem daquela criança sozinha no banheiro te procurando no espelho. Que texto bonito e verdadeiro que você escreveu.
Conteúdo da publicação
A Transição
Por onde eu começo?
Essa é uma pergunta que me faço sempre que penso em contar minha história. Existe um momento certo? Um instante exato em que Henry deixou de existir e Hyvy nasceu? Ou será que Hyvy sempre esteve aqui, apenas escondida atrás de um nome, de um corpo e de um medo que nunca me pertenciam?
Talvez eu devesse começar pelos meus dezessete anos.
Foi nessa idade que encontrei coragem para contar à minha amiga Rayssa aquilo que passei anos escondendo de quase todo mundo. Eu disse que não me enxergava como um menino. Disse que, desde que me entendia por gente, havia uma menina vivendo dentro de mim. Minha voz tremia, minhas mãos suavam e meu coração parecia querer fugir do peito. Eu tinha medo da rejeição, do silêncio, do olhar de estranhamento.
Mas nada disso aconteceu.
Ela apenas me ouviu.
Não fez perguntas que me machucassem, não riu, não tentou me convencer de que aquilo era uma fase. Apenas sorriu, me abraçou e disse que estaria ao meu lado. Pela primeira vez, senti que alguém estava enxergando a pessoa que eu sempre fui.
Foi ela quem me ajudou a escolher o nome Hyvy.
Até hoje, quando penso nesse momento, lembro que um nome pode parecer apenas uma palavra para quem escuta, mas para quem passa anos vivendo uma identidade que nunca escolheu, ele representa liberdade. Representa renascimento.
Mas, para entender como cheguei até ali, preciso voltar muito mais.
Muito antes de existir Hyvy para o mundo, existia apenas Henry.
Foi assim que me registraram quando nasci.
Durante muito tempo tentei acreditar que aquele nome também era meu. Afinal, era o que todos diziam. Era assim que me chamavam na escola, em casa, em qualquer lugar. Mas havia uma estranha sensação de distância, como se estivessem falando de outra pessoa.
As minhas primeiras lembranças já carregam perguntas que nenhuma criança deveria precisar responder sozinha.
Eu olhava para o meu corpo e não entendia por que ele era daquele jeito.
Enquanto outras crianças pareciam simplesmente aceitar quem eram, eu passava horas imaginando como seria acordar diferente. Queria ter seios. Queria ter um corpo feminino. Queria possuir aquilo que, na minha cabeça de criança, fazia sentido para mim.
Nos banhos, eu apertava o peito com as mãos, acreditando que, se insistisse o suficiente, meus seios cresceriam. Era uma esperança completamente inocente. Eu não entendia de biologia, hormônios ou identidade de gênero. Só sabia que alguma coisa parecia errada.
Nunca contei isso para ninguém.
Quando minha mãe saía ou quando a casa ficava vazia, eu abria seu guarda-roupa em silêncio. Escolhia alguma roupa, colocava diante do espelho e, por alguns minutos, sentia uma felicidade que eu não conseguia explicar.
Era estranho.
Ao mesmo tempo em que aquilo me fazia sorrir, também despertava um medo enorme de ser descoberta.
Qualquer barulho vindo da rua fazia meu coração acelerar. Eu tirava tudo rapidamente, guardava cada peça exatamente onde estava e fingia que nada tinha acontecido.
Eu aprendi muito cedo que esconder quem eu era parecia mais seguro do que tentar explicar.
Os anos passaram.
Então veio a puberdade.
Ela chegou como uma tempestade.
Enquanto meu corpo começava a se transformar em algo que eu nunca pedi, minha mente parecia seguir pelo caminho oposto. Cada mudança me afastava ainda mais da pessoa que eu imaginava ser.
Foi também nessa época, por volta dos dez anos, que tive minhas primeiras experiências afetivas com outros meninos da minha idade.
Na época eu não sabia exatamente o que aquilo significava. Apenas sabia que eu gostava.
Durante algum tempo pensei que talvez eu fosse gay.
Mais tarde descobri que também sentia atração por meninas.
Foi assim que comecei a entender minha bissexualidade.
Mas entender não significava aceitar.
Muito menos contar para alguém.
Passei anos vivendo duas vidas.
Existia a pessoa que todos conheciam.
E existia a pessoa que só aparecia quando eu estava sozinha.
Na escola eu media cada palavra.
Prestava atenção na maneira como andava.
Tentava controlar meus gestos, minha voz e até meu jeito de rir.
Eu tinha medo de parecer feminina demais.
Não porque isso fosse errado.
Mas porque eu sabia como as pessoas tratavam quem era diferente.
Foi nessa época que conheci um garoto gay da minha turma.
No começo éramos apenas colegas.
Depois começamos a conversar mais.
Sem perceber, fui me apaixonando.
Nunca chegamos a ficar juntos.
Ainda assim, ele mudou minha vida.
Foi conversando com ele que comecei a descobrir que existiam outras formas de viver, outras pessoas que também precisavam enfrentar seus próprios medos e outras histórias parecidas com a minha.
Ele talvez nunca saiba, mas foi uma das primeiras pessoas que me fez acreditar que eu não estava completamente sozinha.
Dos quinze aos dezessete anos, comecei a explorar minha bissexualidade.
Foi um período cheio de descobertas, dúvidas, inseguranças e pequenos momentos de liberdade.
Cada passo parecia importante.
Mas havia uma verdade que continuava presa dentro de mim.
Eu não queria apenas ser aceita por gostar de meninos e meninas.
Eu queria ser reconhecida como a menina que sempre fui.
Foi aos dezessete anos que finalmente encontrei coragem para dizer isso em voz alta.
Rayssa foi a primeira pessoa a conhecer Hyvy.
A primeira a usar meu nome.
A primeira a me fazer sentir que minha existência não precisava ser um segredo.
Hoje, apenas ela conhece essa parte da minha história.
Mas talvez isso esteja prestes a mudar.
Nesta semana acontecerá o trote do terceiro ano.
O tema será troca de gênero.
Para muitos colegas será apenas uma fantasia, uma brincadeira de um dia.
Para mim, será muito mais do que isso.
Será a primeira oportunidade de me aproximar da imagem que sempre enxerguei de mim mesma.
Pretendo contar para mais duas amigas quem eu realmente sou.
Tenho medo.
Medo de perder amizades.
Medo de ouvir palavras que nunca esquecerei.
Medo de decepcionar pessoas.
Mas existe um medo ainda maior.
O medo de passar a vida inteira escondendo quem eu sou.
A verdade é que viver escondida cansa.
Cansa fingir.
Cansa responder por um nome que já não representa quem você é.
Cansa sorrir quando, por dentro, tudo o que você queria era simplesmente existir.
Hoje entendo que a transição não começou quando escolhi o nome Hyvy.
Ela também não começou quando contei para Rayssa.
Minha transição começou anos atrás, naquela criança que, sozinha no banheiro, apertava o próprio peito esperando que ele crescesse.
Começou naquela criança que vestia escondida as roupas da mãe.
Começou toda vez que eu me olhava no espelho e imaginava uma versão de mim que ainda não existia para o resto do mundo.
Hyvy nunca nasceu aos dezessete anos.
Ela apenas deixou de se esconder.
E talvez este livro seja justamente isso.
A história de uma menina que passou anos tentando encontrar coragem para existir.
E que, finalmente, decidiu contar ao mundo quem realmente é.
Thoughts
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PermalinkVocê já pensou em contar pra sua família? Ou é uma conversa que vem depois, em outro tempo?
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PermalinkRayssa é tipo aquela pessoa que aparece quando você precisa, sabe? Que legal que ela foi a primeira. Espero que as próximas duas amigas sejam tão legais quanto.
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PermalinkTipo, essa coisa de um nome ser só uma palavra pra quem escuta mas ser tudo pro que vive, faz tanto sentido. Hyvy nunca foi um capricho, foi sempre lá.
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PermalinkA imagem daquela criança sozinha no banheiro te procurando no espelho. Que texto bonito e verdadeiro que você escreveu.
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PermalinkSobre contar pra mais duas amigas no trote, você tá preparada pra esse momento, ou é mais aquela coragem que a gente constrói fazendo do que planejando?
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PermalinkViver duas vidas paralelas desse jeito é exaustivo demais. Que sorte você ter a Rayssa ouvindo.
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PermalinkA coragem que você tinha aos 17 é de outro nível 💙
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PermalinkAquela felicidade que você sentia abrindo o guarda-roupa da sua mãe, como foi quando finalmente nomeou aquela sensação?
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