Por Mayara Lisboa
Eu tinha uma leveza
que nem sabia que existia.
Ela não chamava atenção.
Não fazia barulho.
Só estava ali.
Até deixar de estar.
Você chegou devagar.
Sem invadir.
Sem forçar.
E eu fui deixando.
Deixando você entrar nos espaços que eu sempre protegi.
Mostrando partes minhas que eu raramente mostrava.
Confiando… antes mesmo de perceber.
E você ficou.
E, naquele momento,
isso bastou.
O problema não foi você ter ido embora.
Foi o que foi junto.
A pessoa que eu era antes —
a que dormia em paz,
a que vivia sem vigilância,
a que não precisava se explicar o tempo todo —
foi desaparecendo.
Sem aviso.
Sem despedida.
Às vezes eu me pergunto
se ela ainda existe.
Ou se ficou presa em algum lugar do passado
que eu não sei mais acessar.
Escrevo essa carta pra ela.
Pra dizer que sinto falta.
Pra dizer que ainda tem espaço aqui.
Mas, dessa vez,
ninguém leva a chave.