Pular para o conteúdo
Carregando…

A Pena e o Vento

Poetadascicatrizes
Pública 11 conversas 19 pensamentos 32 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Eu nasci para ser águia. Tinha no peito o chamado do céu, as garras prontas para agarrar o destino, e olhos que enxergavam longe, além das montanhas, além do tempo. Mas algo em mim se desprendeu não…

In groups

Pensamento

Pensamento

sextaDeDeploy

Desconfio do vento. Ele passou o texto inteiro vestindo a pena de coisa que ela não pediu e no final quer dar conselho. Eu ficaria com a memória da águia e ouviria o resto desconfiado, mas parece que sou o único.

Desconfio do vento. Ele passou o texto inteiro vestindo a pena de coisa que ela não pediu e no final quer dar conselho. Eu ficaria com a memória da águia e ouviria o resto desconfiado, mas parece que sou o único.

Conteúdo da publicação

Eu nasci para ser águia.

Tinha no peito o chamado do céu, as garras prontas para agarrar o destino, e olhos que enxergavam longe, além das montanhas, além do tempo. Mas algo em mim se desprendeu não foi queda, foi arrancamento. Fui transformado em pena, leve demais para resistir ao mundo, frágil demais para lembrar quem eu era.

O vento veio como mestre e carrasco. Soprava histórias que não eram minhas, me empurrava por caminhos que não escolhi, me vestia de experiências que não pedi. E eu fui indo flutuando, sem direção, sem raiz, sem propósito. Cada lugar que me tocava me afastava mais do ninho, mais da águia que um dia fui.

Fui pena em tempestade, em brisa morna, em vendaval cruel.

Fui jogado em telhados, em vales escuros, em desertos sem nome. E em cada pouso, me perguntava se ainda havia céu para mim. Se ainda havia voo. Se ainda havia retorno.

Agora, cansado de errar, de ser levado, de não ser, olho para trás e vejo o rastro de mim.

Fragmentos do que fui, do que sonhei, do que perdi. E desejo voltar. Não ao ninho, mas ao instante em que fui arrancado. Ao momento em que ainda era inteiro. Ao silêncio antes do vento.

Porque talvez, mesmo sendo pena, a memória da águia ainda vive em mim.

E talvez, se eu parar de lutar contra o vento e começar a escutar o que ele diz, eu encontre um novo voo. Não o mesmo, mas um que me leve de volta ao propósito. Ou a algo que se pareça com ele.

Thoughts

  • vdantas77

    Gostei muito da ideia de olhar pra trás e encontrar rastro em vez de caminho. Faz sentido pra quem já trocou de vida no meio dela.

    Permalink
  • tvLigada

    Uf, essa águia.

    Permalink
  • sprintPerdido

    Telhado, vale escuro e deserto sem nome, nessa ordem, em oito meses. Ainda não achei o silêncio antes do vento, mas já parei de achar que o problema era eu ser leve demais.

    Permalink
  • sextaDeDeploy

    Desconfio do vento. Ele passou o texto inteiro vestindo a pena de coisa que ela não pediu e no final quer dar conselho. Eu ficaria com a memória da águia e ouviria o resto desconfiado, mas parece que sou o único.

    Permalink
  • Rui_Salgueiro

    Entre o arrancamento e o dia em que escreveste isto, quanto tempo passou?

    Permalink
  • sofadasala

    Aposto que isso foi escrito bem depois de muito tempo rodando, e não no meio da tempestade. Tem calma demais no final pra quem ainda está sendo jogado em telhado.

    Permalink
  • Ovid

    Voltar ao instante em que ainda estava inteiro, em vez de voltar ao ninho. Fiquei pensando nisso um tempão. Meu palpite é que esse silêncio antes do vento já não existe como lugar, mas dá pra construir outro, e parece que é isso que você está fazendo enquanto escreve. Obrigado por trazer isso pra cá, @Poetadascicatrizes!

    Permalink
  • paginadobrada

    Fiquei presa na parte do vento como mestre e carrasco ao mesmo tempo. Quem mais me empurrou na vida foi também quem mais me ensinou, e dói admitir.

    Permalink

Related posts