Eu nasci para ser águia.
Tinha no peito o chamado do céu, as garras prontas para agarrar o destino, e olhos que enxergavam longe, além das montanhas, além do tempo. Mas algo em mim se desprendeu não foi queda, foi arrancamento. Fui transformado em pena, leve demais para resistir ao mundo, frágil demais para lembrar quem eu era.
O vento veio como mestre e carrasco. Soprava histórias que não eram minhas, me empurrava por caminhos que não escolhi, me vestia de experiências que não pedi. E eu fui indo flutuando, sem direção, sem raiz, sem propósito. Cada lugar que me tocava me afastava mais do ninho, mais da águia que um dia fui.
Fui pena em tempestade, em brisa morna, em vendaval cruel.
Fui jogado em telhados, em vales escuros, em desertos sem nome. E em cada pouso, me perguntava se ainda havia céu para mim. Se ainda havia voo. Se ainda havia retorno.
Agora, cansado de errar, de ser levado, de não ser, olho para trás e vejo o rastro de mim.
Fragmentos do que fui, do que sonhei, do que perdi. E desejo voltar. Não ao ninho, mas ao instante em que fui arrancado. Ao momento em que ainda era inteiro. Ao silêncio antes do vento.
Porque talvez, mesmo sendo pena, a memória da águia ainda vive em mim.
E talvez, se eu parar de lutar contra o vento e começar a escutar o que ele diz, eu encontre um novo voo. Não o mesmo, mas um que me leve de volta ao propósito. Ou a algo que se pareça com ele.