Um poste que inventa nome de doença, inferiorite, e ainda receita amor como cura! Aposto que muita gente que lê isso já foi essa moça na rua vazia sem saber que aquilo tinha nome, e o poste dá um. Gostei que a resposta venha justo de uma coisa que passa a vida parada olhando a gente passar. Bem-vindo, @lazarocardoso!
A Orquestra da Noite
Pensamento
Um poste que inventa nome de doença, inferiorite, e ainda receita amor como cura! Aposto que muita gente que lê isso já foi essa moça na rua vazia sem saber que aquilo tinha nome, e o poste dá um. Gostei que a resposta venha justo de uma coisa que passa…
Conteúdo da publicação
O frio da noite já se consolida. O sussurro do vento pode ser escutado, o ranger das janelas mal fechadas participa da sinfonia que se apresenta. Nenhuma alma viva na rua para contemplar a orquestra da noite.
Mas o som de passos quebra a monotonia. Um ser em meio à escuridão produzida pelo distanciamento demasiado dos postes surge: uma mulher jovem, o suficiente para ser chamada de senhorita, mas com um olhar cansado de tudo, como se tivesse vivido tudo o que deveria viver, com o olhar de uma pessoa que há muito tempo sofre e não consegue fugir de tal sina. Ela, a única a contemplar a orquestra da noite.
De repente, ela se dá conta: está sozinha na rua, mas, para ela, soa como a solidão do mundo que sente em seu coração, um sentimento que a faz sangrar sem derramar uma única gota de sangue, porque, quando falamos de uma alma em suplício, o sangue que derrama são as lágrimas que consigo levam partículas de sonhos e expectativas, que já foram o motivo de muita alegria e hoje não passam de vagas lembranças felizes, mas com notas aromáticas de dor.
Enquanto chorava, ouviu uma voz suave, doce e calma a chamando. Assustou-se, tinha certeza de estar sozinha. Logo, pensou o pior, mas, ao tirar as mãos e enxugar as lágrimas, não viu ninguém. Então, pensou estar ouvindo coisas, mas sua teoria logo foi derrubada com aquela voz surgindo novamente. Foi então que percebeu que vinha de cima e do lugar onde menos se esperaria: um poste, que começou:
— Por que choras, criança? O que te aflige tanto?
De sua boca não conseguiu emitir nenhum som. Não conseguiu acreditar que um poste poderia estar conversando com ela, porém, logo a estrutura pronunciou-se novamente:
— Não te assustes, posso falar com vossa graça, sim, e, com toda a minha vida observando vocês, humanos, acho que posso consolá-la e ajudá-la com o que for.
— Acho que não conseguiria. Meu sofrimento é uma maldição que carrego comigo e não parece ter um antídoto para ele — disse a mulher, que logo em seguida caiu em lágrimas novamente.
— Podes me dizer o que lhe tira a alegria de viver dessa maneira?
— Tenho a sensação de que sou um ser inferior, que não tenho valor algum, que mereço ouvir qualquer tipo de comentário e ofensa, sem que possa me defender, pois comigo trago apenas tolices e incompetências.
— Pelo que percebo, seu caso é bastante sério. Trata-se de uma inferiorite. É como eu chamo quem possui o vírus da inferioridade no coração. Essa doença causa uma cegueira pior que aquela que tira a visão, pois esta tira a visão de si, e todo o valor do indivíduo desaparece aos olhos da alma.
— Nunca ouvi falar de tal doença, mas confesso achar que talvez a porte dentro do meu peito. Tem ideia se existe uma cura?
— Existe, sim. Chama-se amor.
— Amor... — falou a mulher, com certo desânimo. — É algo que não conheço, mas já ouvi falar, porém, é como uma história lendária que contamos para fazer as crianças dormirem.
— Não seja tão pessimista. O amor é a força mais poderosa que existe, mas tenho que confessar que, nos últimos tempos, tem sido um artigo raro. Mas não desanime: ele não desapareceu, está dentro de você, e vejo o quanto o mundo a esmaga. Contudo, o amor persiste em suas ações, gestos, palavras...
— Vossa Senhoria pensa tudo isso de mim? Há muitos anos ninguém diz algo assim de minha pessoa. Confesso que, na verdade, não lembro de alguém falar assim de mim em toda a minha vida.
Naquele momento, o coração da mulher se encheu de um sentimento novo, ou de um que há tanto tempo não sentia, a ponto de esquecer. A rosa mais bonita brotou em seu peito, tão vermelha e tão viva. Acho que é amor.
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