O que me pegou foi a palavra caindo igual pedra, e logo depois você emendar que não era o nome dela. Essa virada de negar o nome antes de negar o resto é a parte que ninguém inventa. Trinta anos ouvindo hóspede me ensinou a reconhecer quando um texto sabe de onde está falando, e esse sabe. Fiquei foi curiosa se ela já existia antes do texto ou se nasceu aqui mesmo, escrevendo.
A Mulher que Renasceu
Pensamento
O que me pegou foi a palavra caindo igual pedra, e logo depois você emendar que não era o nome dela. Essa virada de negar o nome antes de negar o resto é a parte que ninguém inventa. Trinta anos ouvindo hóspede me ensinou a reconhecer quando um texto sabe
Conteúdo da publicação
Ela deu o corpo,
o tempo,
os sonhos,
as noites e os dias.
Deu carinho quando recebeu silêncio,
deu colo quando recebeu distância,
deu amor quando já não sabia
se ainda era amada.
E ele, em vez de cuidar,
feriu.
Não com as mãos,
mas com palavras afiadas,
com desprezo,
com manipulações,
com aquele veneno invisível
que vai fazendo uma mulher
duvidar de si mesma.
Ela foi traída
e ainda carregou a culpa da traição.
Foi humilhada
e ouviu que exagerava.
Foi diminuída
até quase acreditar
que era pequena.
E um dia ele a chamou de CADELA.
A palavra caiu sobre ela
como uma pedra.
Mas não era o nome dela.
Ela não era cadela.
Não era objeto.
Não era propriedade.
Não era aquilo que ele dizia
quando queria destruir
o pouco de autoestima
que ainda lhe restava.
Ela era mulher.
Aquela que amou demais,
que perdoou demais,
que esperou demais.
Até compreender
que perdoar o outro
não significava
continuar abandonando a si mesma.
Então ela chorou.
Chorou tudo o que havia engolido,
todas as noites em silêncio,
todas as palavras que não respondeu,
todos os abraços que recebeu
quando só queria fugir.
E depois levantou.
Não voltou a ser quem era.
Renasceu.
Juntou os pedaços
e descobriu que alguns deles
podiam formar algo ainda mais forte.
Cortou as correntes invisíveis.
Devolveu a ele as palavras
que nunca lhe pertenceram.
E diante do espelho,
pela primeira vez em muito tempo,
olhou para si mesma sem pedir
a aprovação de ninguém.
— Eu não sou aquilo que você chamou de mim.
Sou a mulher que sobreviveu
àquilo que você tentou fazer comigo.
Sou a voz que você tentou calar.
Sou a chama que você tentou apagar.
Sou a pele que cicatrizou
sem precisar esquecer as feridas.
E se um dia você perguntar
quem é aquela mulher
que caminhou para longe
sem olhar para trás,
não diga que ela perdeu você.
Diga a verdade:
ela finalmente se encontrou.
Porque algumas mulheres
não terminam quando são destruídas.
Elas terminam de nascer.
E ela nasceu novamente —
mais livre,
mais inteira,
mais feroz,
mais dona de si.
Não para provar que era melhor que ele.
Mas para nunca mais precisar
provar seu valor a ninguém.
Ela não era a cadela
que ele tentou enxergar.
Era a mulher
que ele nunca foi capaz
de merecer.
E agora,
ela caminha.
Sem pedir licença.
Sem carregar culpa.
Sem baixar os olhos.
Renasceu.
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Ela deu o corpo, o tempo, os sonhos, as noites e os dias.