Esses pontos que ninguém vê mas seguram a costura toda ficaram comigo. Se você ainda não leu Adélia Prado, ela tem esse mesmo jeito de achar o sagrado na cozinha e no pano de prato.
A mulher que costurava memórias
Pensamento
Esses pontos que ninguém vê mas seguram a costura toda ficaram comigo. Se você ainda não leu Adélia Prado, ela tem esse mesmo jeito de achar o sagrado na cozinha e no pano de prato.
Conteúdo da publicação
Havia mulheres que costuravam roupas.
Minha avó costurava memórias.
Talvez ela mesma nunca tivesse percebido isso. Para ela, linha era linha, agulha era agulha, tecido era tecido. Mas, para mim, cada ponto que saía de suas mãos parecia prender alguma coisa ao tempo, como se ela soubesse que certas lembranças precisavam de uma costura bem feita para não se perderem.
Dona Marlene tinha mãos de quem conhecia a paciência.
Mãos que trabalharam muito antes de aprenderem a descansar.
Costureira, doméstica, mulher de casa e de vizinhança, ela tinha o costume de transformar os pequenos acontecimentos em grandes lembranças. Não precisava de festa, viagem ou fotografia bonita. Bastava uma mesa, um café passado e gente por perto.
E quase sempre havia gente por perto.
Ela tinha um avental que parecia fazer parte dela. Nele cabiam migalhas de pão, um pouco de farinha, alguma linha esquecida e, talvez, metade das histórias da vizinhança.
Quando chegava a hora de preparar o café, tudo parecia ganhar outro ritmo.
O café coado perfumava a casa.
O pão feito em casa reunia filhos, netos, sobrinhos e até aqueles que não carregavam o mesmo sangue, mas que ela acolhia como se carregassem.
Porque Dona Marlene tinha esse jeito.
Ela não perguntava muito de onde alguém vinha.
Ela simplesmente abria espaço.
E talvez tenha sido assim que aprendi que família também pode ser construída com presença.
Quando eu era menina, ela me chamava de Ledinha.
E havia uma frase que ficou guardada em algum lugar dentro de mim:
— Calma, guria.
Ela dizia como quem conhecia um segredo que eu ainda não sabia.
Eu queria que as coisas acontecessem depressa.
Queria entender depressa, crescer depressa, resolver depressa.
Ela não.
Ela sabia esperar.
Sabia que algumas coisas precisavam de tempo para encontrar o ponto certo, assim como uma roupa precisava ser medida antes de receber a tesoura.
Foi com ela que aprendi a segurar linha e agulha.
Lembro das minhas pequenas mãos tentando acompanhar as dela.
Eu olhava para seus dedos e parecia impossível que aquele movimento fosse tão simples.
Ela puxava a linha.
Passava a agulha.
Fazia o ponto.
E, de algum jeito, ensinava mais do que costura.
Ensinava paciência.
Ensinava cuidado.
Ensinava que aquilo que se rasga nem sempre precisa ser jogado fora.
Às vezes, precisa apenas de alguém disposto a costurar.
Talvez eu tenha herdado dela mais do que eu imaginava.
A paciência que tantas vezes procurei em mim estava nas mãos dela.
A vontade de juntar pessoas também.
O costume de oferecer café.
A mania de transformar histórias em lembranças.
E talvez até esse meu jeito de escrever.
Porque hoje eu percebo que, enquanto ela costurava tecidos, eu comecei a costurar palavras.
Ela juntava retalhos.
Eu junto versos.
Ela guardava linhas.
Eu guardo histórias.
Ela consertava aquilo que podia ser consertado.
Eu tento fazer o mesmo com aquilo que escrevo.
Dona Marlene também conhecia as histórias da vizinhança.
Sabia quem precisava de uma conversa, quem precisava de um café e quem simplesmente precisava sentar um pouco.
Sua presença ultrapassava as paredes de casa.
Era dessas pessoas que deixam uma espécie de luz acesa na memória dos outros.
Talvez por isso tanta gente tenha alguma lembrança dela.
Uma fala.
Um café.
Um pedaço de pão.
Um conselho.
Um avental.
Uma risada.
Um “calma, guria”.
Coisas pequenas.
Mas são justamente as coisas pequenas que, depois de muitos anos, descobrimos serem enormes.
Minha avó nasceu em 20 de janeiro de 1943.
E atravessou a vida trabalhando, cuidando, criando, costurando e reunindo.
Foi mãe de Fernanda, Eder e Liviane.
Foi avó.
Foi aquela presença que fazia uma casa parecer mais cheia mesmo quando havia pouca gente.
E foi, sem perceber, uma das primeiras mulheres a me ensinar que uma história pode morar nos detalhes.
Hoje, quando penso nela, não lembro apenas da costureira.
Lembro da mulher.
Da mulher que colocava o cigarro de lado quando era hora de fazer alguma coisa.
Da mulher que vestia o avental.
Da mulher que preparava café.
Da mulher que fazia pão para reunir a família.
Da mulher que tinha paciência para ensinar duas meninas a costurar.
Da mulher que dizia “calma, guria” quando o mundo parecia ter pressa demais.
E penso que talvez seja esse o verdadeiro trabalho de quem ama:
deixar pequenos pedaços de si nas pessoas.
Uma frase aqui.
Um gesto ali.
Um ensinamento escondido em uma tarde qualquer.
Um cheiro que atravessa os anos.
Uma receita que ninguém consegue reproduzir exatamente porque o ingrediente que falta não está escrito em lugar nenhum.
É a presença.
É o jeito.
É a memória.
Hoje eu escrevo sobre ela porque algumas pessoas merecem permanecer.
Não apenas em fotografias.
Não apenas em datas.
Mas nas palavras.
Talvez seja essa a minha forma de continuar aquilo que ela começou.
Ela costurava memórias com linha.
Eu costuro as minhas com palavras.
E enquanto escrevo, percebo que algumas lembranças não envelhecem.
Elas apenas mudam de lugar.
Saem da sala.
Do avental.
Da máquina de costura.
Da mesa do café.
E passam a morar dentro da gente.
Minha avó me ensinou que a vida é feita de pontos.
Alguns apertados.
Outros quase invisíveis.
Há pontos que machucam os dedos.
Há outros que deixam o tecido bonito.
E existem aqueles que ninguém percebe, mas que sustentam toda a costura.
Talvez sejam esses os mais importantes.
Os que ficam por dentro.
Os que não aparecem.
Os que seguram tudo.
Foi assim que ela ficou em mim.
Por dentro.
Em cada palavra que escrevo sobre afeto.
Em cada café que preparo pensando em reunir alguém.
Em cada vez que tento ter paciência.
Em cada história que escolho não deixar morrer.
E toda vez que a vida parece correr depressa demais, eu quase consigo ouvi-la novamente:
— Calma, guria.
Então eu paro.
Respiro.
E lembro.
Porque algumas mulheres passam pela nossa vida.
Outras costuram a nossa história.
Dona Marlene fez os dois.
E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos anos, ainda exista uma menina dentro de mim segurando uma agulha, tentando aprender o ponto certo.
Sem saber que, naquela tarde, enquanto aprendia a costurar um pedaço de tecido, estava recebendo da avó o presente que carregaria para o resto da vida:
a capacidade de transformar pequenos momentos em memória.
E memória em amor.
E amor em palavra.
Por isso escrevo.
Para que o tempo não desfaça os pontos.
Para que o café continue quente dentro da lembrança.
Para que o pão continue reunindo gente ao redor da mesa.
Para que o avental continue pendurado em algum lugar da memória.
Para que aquela voz continue dizendo:
“Calma, guria.”
E, principalmente, para que ninguém esqueça da mulher que passou pela vida costurando muito mais do que tecidos.
Ela costurava pessoas.
Costurava histórias.
Costurava afetos.
Costurava a própria família.
E, sem saber, costurou também um pedaço de mim.
Dona Marlene, a mulher que costurava memórias.
Thoughts
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PermalinkEsses pontos que ninguém vê mas seguram a costura toda ficaram comigo. Se você ainda não leu Adélia Prado, ela tem esse mesmo jeito de achar o sagrado na cozinha e no pano de prato.
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PermalinkBah, guria é palavra de casa aqui no sul. Aposto que a Dona Marlene era gaúcha ou tinha um pé por aqui, esse jeito de mandar a gente ter calma sem explicar nada é bem de vó do sul.
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PermalinkUm avental com migalhas, farinha e linha esquecida, e metade das histórias da vizinhança dentro. Me fez pensar que toda família tem uma pessoa assim, que guarda tudo sem anotar nada, e que pouca gente para pra escrever sobre ela. Aposto que muita gente aqui vai lembrar da própria avó lendo isso. Obrigado por compartilhar!
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PermalinkMe emocionei, que também possamos construir legados na memória.
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