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A minha pior saudade

AllyneMaia
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A minha pior saudade

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folhaSolta

Égua, as três deitadas na cama tomando açaí no frio ficou comigo a noite toda. A Fabi já leu essa carta?

Égua, as três deitadas na cama tomando açaí no frio ficou comigo a noite toda. A Fabi já leu essa carta?

Conteúdo da publicação

A minha pior saudade

Oi, mãe. Tudo bem aí?

Às vezes eu fico imaginando como é o céu. Será que ele é bonito como aquele jardim que a senhora sempre falava? Será que tem árvores, flores, aquele verde que a senhora tanto amava? Será que aí a senhora consegue enxergar tudo aquilo que aqui na Terra os seus olhos já não conseguiam mais ver?

Já vai fazer quase cinco anos que a senhora se foi, mãe.

Quase cinco anos.

E ainda existem madrugadas em que eu acordo e, por alguns segundos, parece que consigo ouvir as suas orações. É estranho como a saudade funciona. O tempo passa, a vida continua, tantas coisas mudam, mas existem ausências que parecem continuar exatamente no mesmo lugar.

A senhora iria se orgulhar da gente.

Acredita que eu voltei para o ministério de teatro?

Eu lembro de como a senhora gostava de assistir às peças. Era praticamente o único dia em que a senhora fazia questão de sentar lá na frente, só para conseguir nos ver de pertinho. E hoje eu penso que talvez a senhora nem imaginasse o quanto aqueles momentos ficariam guardados dentro de mim.

E a senhora nem vai acreditar: a Fabi também entrou para a companhia.

Agora nós estamos chiques, mãe. Somos uma companhia de teatro.

Queria tanto que a senhora tivesse conhecido a nossa liderança. Eles cuidam da gente com tanto carinho. Um mês depois que a senhora partiu, eles vieram me chamar para voltar para o teatro. E acho que, de alguma forma, foi ali que encontramos um pouquinho de força para continuar.

Talvez não tenha suprido a sua ausência — porque ninguém conseguiria —, mas ajudou a preencher alguns daqueles espaços que ficaram vazios.

E a senhora precisava ver o quanto a Fabi cresceu espiritualmente.

Ela ajuda em tudo. Quando os líderes precisam de alguma coisa, eles sabem que podem contar com a gente. Acho que estamos tentando viver aquilo que a senhora sempre ensinou: quando formos fazer algo para Deus, devemos fazer com excelência.

Eu prometi que cuidaria dela.

Mas, mãe... preciso confessar uma coisa.

Na verdade, muitas vezes foi ela quem cuidou de mim.

A senhora sempre soube que ela era mais forte do que eu.

E olha só... ainda não nos casamos.

A Fabi, como sempre, se arrisca mais. Eu continuo pensando mil vezes antes de fazer qualquer coisa. A senhora sabe como eu fiquei depois de tantas decepções. Talvez parte de mim ainda tenha medo de se entregar, de confiar, de abrir o coração.

A senhora sempre dizia que a Fabi se abria mais com a senhora.

Hoje eu entendo isso.

E, se pudesse voltar no tempo, eu teria me aberto mais também.

Teria sentado mais vezes ao seu lado.

Teria contado mais sobre os meus problemas.

Teria falado mais sobre aquilo que doía.

Teria perguntado mais sobre a sua vida.

Teria ouvido mais uma vez aquelas histórias que a senhora já tinha contado milhares de vezes, mas que, mesmo assim, sempre conseguiam nos fazer rir.

Eu queria ter tido mais conversas com a senhora, mãe.

Mais abraços.

Mais domingos.

Mais tardes.

Mais momentos que, naquela época, pareciam tão comuns e que hoje eu daria qualquer coisa para viver novamente.

E a senhora acredita que a Fabi herdou mesmo as suas mãos de fada na cozinha?

Ela ficou igualzinha à senhora.

Toda vez que alguém fala que está com vontade de comer alguma coisa, ela vai lá e faz.

A senhora precisava provar os bolos que ela está fazendo agora.

O de chocolate...

O pessoal do meu trabalho é apaixonado por aquele bolo.

E os de massa branca recheados?

Mãe, pensa numa delícia.

Tenho certeza de que a senhora ia gostar.

E nós ainda continuamos fazendo nossas loucuras de tomar açaí no frio.

Lembra daquele dia?

Estava frio, chovendo, e nós três fomos ao mercado. Cada uma comprou um pote de um litro. Depois chegamos em casa, deitamos na sua cama e ficamos as três tomando açaí.

Depois ficamos tremendo de frio.

Hoje eu penso naquela cena e dói.

Dói porque era tão simples.

Não tinha nada extraordinário acontecendo.

Era só nós três, uma cama, um pote de açaí e uma tarde qualquer.

Mas é justamente dessas coisas pequenas que eu sinto mais falta.

A saudade não sente falta somente dos grandes acontecimentos.

Ela sente falta do jeito como a senhora chamava a gente.

Do seu cheiro.

Do seu abraço.

Da sua voz.

Da senhora sentada na varanda.

Da senhora na cozinha.

Da senhora contando uma história pela décima vez.

Da senhora rindo.

Da senhora orando.

Da senhora simplesmente estando ali.

E talvez essa seja a parte mais difícil da saudade: saber que aquilo que parecia tão comum era, na verdade, um presente.

Mãe, eu ainda não consigo acreditar que aquele dia chegou.

O dia em que eu te levei para o hospital e não consegui te trazer de volta para casa.

Acho que uma parte de mim ficou naquele caminho.

Porque naquele dia eu conheci um vazio que eu nunca tinha sentido antes.

Até hoje, às vezes, eu seguro o choro.

Faço de conta que estou bem.

Continuo trabalhando.

Continuo vivendo.

Continuo sorrindo.

Mas existem momentos em que eu me tranco no banheiro e choro escondida.

Choro porque queria ouvir sua voz.

Choro porque queria um abraço.

Choro porque queria simplesmente chegar em casa e saber que a senhora estava lá.

Quando um relacionamento não dava certo, eu queria a senhora.

Quando eu perdia um emprego, eu queria a senhora.

Quando alguma coisa dava errado, eu queria ouvir a senhora dizer que tudo ficaria bem.

E hoje eu percebo que não era exatamente a resposta que eu procurava.

Era a segurança de saber que eu não estava sozinha.

A senhora era esse lugar para mim.

Meu lugar de voltar.

E talvez por isso a sua ausência doa tanto.

Porque eu perdi alguém que era casa.

Eu sei que muitas vezes a senhora se sentia um peso para nós depois que perdeu a visão.

Mas, mãe, eu queria que a senhora pudesse ter enxergado com os nossos olhos naquele momento.

Nós nunca fomos obrigadas a cuidar da senhora.

Nós amávamos cuidar da senhora.

Eu lembro de ver a senhora sentada na varanda, chorando porque queria voltar a enxergar o verde da floresta, o arco-íris, as coisas bonitas que seus olhos já tinham visto tantas vezes.

E quantas vezes eu quis te dar os meus olhos.

Queria arrancá-los de mim e colocar nos seus, só para a senhora poder enxergar novamente.

Eu não podia.

E talvez uma das maiores dores daquela época tenha sido justamente essa: amar tanto alguém e não poder tirar dela aquilo que estava doendo.

Mas a senhora continuava.

Mesmo cansada.

Mesmo sofrendo.

Mesmo tendo motivos para chorar.

A senhora encontrava forças para sorrir.

E hoje eu me pergunto tantas vezes:

Como a senhora conseguia?

Como conseguia enfrentar uma luta e ainda encontrar um jeito de cuidar da gente?

Talvez seja por isso que, quando a vida fica difícil, eu penso na senhora.

Porque a senhora me ensinou, mesmo sem perceber, que força não é nunca chorar.

Força também é continuar depois de chorar.

Nós ainda não realizamos todos os sonhos.

Estamos caminhando.

Devagar, às vezes tropeçando, às vezes sem saber exatamente para onde ir.

Mas estamos tentando.

Já conseguimos pintar a casa.

E ainda sonhamos com aqueles detalhes que a senhora também sonhava.

O tio continua vindo nos visitar.

Aquele irmão com quem a senhora quase nunca brigava, aquele que estava sempre por perto.

Ele e a tia nos tratam como filhas.

E a senhora ficaria tão feliz em saber que eles realmente se firmaram na igreja.

Foram batizados.

Vieram para a Shekinah este ano.

Gostaram.

E sabe aquela Bíblia vermelhinha que era sua?

Nós demos para ele.

A senhora precisava ter visto como ele se emocionou quando recebeu.

Talvez, de alguma maneira, um pedacinho da senhora continue passando por nós.

Nas nossas escolhas.

Nas nossas histórias.

Na nossa fé.

Naquilo que aprendemos com a senhora.

E é por isso que eu sei que a senhora não faz falta somente para mim e para a Fabi.

A senhora faz falta para os seus irmãos.

Para quem conviveu com a senhora.

Para quem recebeu alguma coisa sua.

E, mãe, eu sei que hoje estamos firmes por causa de muitas das suas orações.

Porque teve dia em que nós pensamos em desistir.

Teve dia em que a vida pesou.

Teve dia em que a saudade quase nos fez parar.

Mas nós lembramos da senhora.

E continuamos.

Talvez essa seja uma das maiores formas de dizer que o seu amor não morreu.

Porque ele continua vivendo em nós.

Mãe, eu não sei como é o céu.

Ainda não sei se ele parece aquele jardim que a senhora imaginava.

Mas gosto de pensar que sim.

Gosto de imaginar que a senhora finalmente consegue enxergar tudo.

Que vê o verde.

Que vê o arco-íris.

Que não sente mais dor.

Que está descansando.

E que, de alguma maneira que eu ainda não consigo compreender, sabe de tudo o que aconteceu por aqui.

Sabe que nós estamos tentando.

Sabe que sentimos sua falta.

Sabe que ainda falamos da senhora.

Sabe que ainda rimos das suas histórias.

Sabe que ainda tomamos açaí no frio.

Sabe que a Fabi cozinha como a senhora.

Sabe que eu ainda penso mil vezes antes de me arriscar.

E talvez saiba também quantas vezes eu chorei escondida porque a saudade apertou.

Eu queria poder conversar com a senhora mais uma vez.

Só mais uma.

Nem precisaria ser uma conversa importante.

Eu contaria sobre o teatro.

Sobre a Fabi.

Sobre os bolos.

Sobre a casa.

Sobre os nossos sonhos.

Sobre as coisas que deram errado.

Sobre as coisas que deram certo.

E, no final, provavelmente só pediria um abraço.

Um daqueles abraços que faziam o mundo parecer um pouco menos pesado.

Hoje eu entendo que algumas pessoas partem, mas nunca deixam completamente a nossa vida.

Elas ficam nas pequenas coisas.

Nas lembranças.

Nos ensinamentos.

Nas histórias que contamos.

Nas receitas.

Nas músicas.

Nas orações.

Nos lugares.

Nos gestos.

E ficam principalmente dentro de nós.

A sua ausência é a minha pior saudade, mãe.

Mas também é uma das maiores provas de que eu fui profundamente amada.

Porque só dói tanto perder alguém quando essa pessoa ocupou um lugar enorme dentro da nossa história.

Eu não me arrependo do tempo que tivemos.

Pelo contrário.

Eu agradeço.

Porque nós vivemos.

Nós rimos.

Nós brigamos.

Nós fizemos loucuras.

Nós tomamos açaí no frio.

Nós assistimos às peças.

Nós sentamos no sofá.

Nós abraçamos.

Nós cuidamos.

Nós amamos.

E, mesmo que eu quisesse milhares de dias a mais, eu sei que tivemos momentos que muita gente nunca terá a oportunidade de viver.

Então, mãe, hoje eu só queria te dizer:

Eu sinto sua falta.

Todos os dias, de alguma forma.

Mas estou tentando continuar.

Estou tentando ser forte.

Estou tentando viver os sonhos que ainda ficaram pelo caminho.

Estou tentando cuidar da Fabi.

Estou tentando cuidar de mim.

E, principalmente, estou tentando carregar comigo tudo aquilo que a senhora ensinou.

Obrigada por ter sido minha mãe.

Obrigada pelos abraços.

Pelas orações.

Pelas histórias repetidas.

Pela comida.

Pelas broncas.

Pelas risadas.

Pelo amor.

Pela força.

E por ter me ensinado que, mesmo quando a vida parece impossível, ainda podemos escolher continuar.

Eu te amo, mãe.

E talvez essa seja a parte mais difícil de dizer:

Eu queria que a senhora estivesse aqui.

Mas também existe uma parte de mim que encontra paz em saber que, depois de tudo o que a senhora enfrentou, finalmente pode descansar.

Então descanse.

Sem preocupações.

Sem dor.

Sem medo.

E, se aí no céu existir mesmo aquele jardim que a senhora tanto imaginava, aproveite cada pedacinho dele.

Olhe o verde por mim.

Olhe o arco-íris.

E, se puder, guarde um abraço.

Porque eu ainda tenho muitos anos de saudade para atravessar.

E eu sei que um dia, quando Deus permitir, nós vamos nos encontrar novamente.

Até lá, eu vou continuar vivendo.

Por mim.

Pela Fabi.

Pelos sonhos que ainda temos.

E também pela senhora.

Porque enquanto eu estiver aqui, uma parte da senhora continuará viva em mim.

Te amo, mãe.

Para sempre.

Com amor,

sua filha.

Thoughts

  • KayoAlves

    Nem sei o que dizer...

    Permalink
  • Ovid

    Agradecer até pelas broncas e pelas histórias repetidas, numa carta tão cheia de saudade, diz muito da casa que vocês tiveram. Aposto que a Fabi, lendo isso, vai lembrar de outras histórias que ficaram de fora, e que essa carta ainda vai continuar nas conversas de vocês duas. Obrigado por dividir a sua mãe com a gente.

    Permalink
  • folhaSolta

    Égua, as três deitadas na cama tomando açaí no frio ficou comigo a noite toda. A Fabi já leu essa carta?

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