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A menina que nunca deu trabalho

infinitoefim

Conteúdo da publicação

Eu sempre me senti diferente.

Era a quietinha da primeira carteira,

a das notas boas, a menina comportada,

a que quase sempre era escolhida para os grupos

não por quem era,

mas pelo que podia entregar no final da jornada.

E eu nem sabia.

Achava que pertencer era aquilo:

ser útil, ser boa, não incomodar,

ter sempre alguma coisa bonita para oferecer

e nunca dar motivos para alguém reclamar.

Minha avó dizia, com certo orgulho,

que eu nunca dei trabalho.

E talvez eu tenha feito dessa frase

um dos meus maiores retratos:

a menina que não pedia muito,

que não fazia barulho,

que aprendia a guardar o choro

para não preocupar quem amava.

Fui crescendo assim,

colecionando elogios por ser tão madura,

enquanto alguma parte de mim

ainda queria correr sem rumo,

rir até doer a barriga,

fazer uma besteira e depois contar,

viver histórias que não precisassem terminar

com a certeza de ter feito tudo certo.

Mas o tempo passou.

E agora, nos meus dezenove para vinte anos,

eu olho para trás e me pergunto

quantas versões de mim ficaram esperando

por uma coragem que nunca chegou.

Vejo gente da minha idade vivendo,

saindo, errando,

fazendo escolhas duvidosas numa sexta-feira

e descobrindo como se consertar no sábado.

Gente que se perde um pouco

para aprender o caminho de volta.

E eu?

Eu ainda penso duas vezes,

gosto dos lugares tranquilos,

das conversas sem pressa,

dos cantinhos onde o silêncio

não precisa ser preenchido.

Às vezes me pergunto

se gosto mesmo de tanta calma

ou se apenas aprendi a não fazer barulho.

Se sou assim porque é da minha alma

ou porque passei a vida inteira

tentando não dar trabalho aos meus pais.

Será que fui uma menina tranquila

ou apenas uma menina que entendeu cedo demais

que ser fácil de cuidar

era uma maneira bonita de ser amada?

Não sei.

Talvez as duas coisas sejam verdade.

Talvez eu tenha nascido com o coração sereno,

mas também tenha deixado de viver certas coisas

por medo de decepcionar

quem só queria me ver acertar.

E dói pensar nisso,

não porque eu queira apagar quem fui,

mas porque, às vezes,

sinto saudade de uma adolescência

que mal me lembro de ter vivido.

Saudade de uma menina

que ainda nem sabia do que gostava,

porque estava ocupada demais

sendo aquilo que todos esperavam dela.

Mas acho que ainda dá tempo.

Acho que não perdi o direito de viver

só por demorar para começar.

Não preciso compensar os anos com excessos,

nem aprender a ser inconsequente

só para provar que também sei aproveitar.

Eu posso sair,

dançar até cansar,

se apaixonar sem ter todas as respostas,

rir alto, mudar de ideia,

errar em coisas pequenas

e descobrir que o mundo não acaba

quando eu deixa de ser perfeita.

Posso continuar gostando da paz

e, ainda assim, conhecer o inesperado.

Posso ser prudente sem ser prisioneira,

ser responsável sem carregar o mundo,

ser uma boa filha

sem passar a vida tentando merecer esse título.

Porque existe uma diferença

entre nunca dar trabalho

e nunca se permitir viver.

E eu quero aprender essa diferença.

Quero que a mulher que sou hoje

pegue a mão daquela menina comportada

e a leve para conhecer o mundo.

Sem pressa, sem culpa,

sem precisar provar nada a ninguém.

Quero que ela descubra

que não precisa ser a melhor aluna,

a amiga mais útil,

a filha mais fácil,

a pessoa que sempre entende tudo.

Às vezes, ela também posso não saber.

Posso precisar de colo,

Posso mudar de planos,

posso simplesmente existir

sem transformar cada gesto em motivo de orgulho.

Afinal, eu também sou feita de vontades,

de sonhos que ainda não contei,

de lugares que nunca visitei,

de versões minhas que ainda não conheci.

E, se passei boa parte da vida

tentando ser motivo de tranquilidade,

agora quero aprender a ser

motivo de alegria para mim mesma.

Não quero deixar de ser quem sou.

Só não quero continuar confundindo

ser uma boa menina

com passar despercebida pela própria vida.

Ainda estou nos meus dezenove anos.

Ainda há domingos para virar lembranças,

estradas para percorrer,

amores para descobrir,

risadas para dar sem olhar o relógio.

Ainda há tanta vida

esperando que eu abra a porta.

E, desta vez,

não quero entrar nela pedindo licença

por ser quem sou.

Quero entrar de mãos dadas comigo,

com juízo, é claro porque também não sou doida, né?

mas com o coração um pouco mais livre,

a coragem um pouco mais acesa

e a certeza de que não preciso fazer tudo certo

para merecer viver coisas bonitas.

Porque talvez eu sempre tenha sido diferente.

E talvez nunca tenha havido nada de errado nisso.

Talvez eu só tenha passado tempo demais

tentando caber na vida que esperavam de mim,

quando a minha própria vida,

silenciosa e paciente,

esperava apenas que eu chegasse.

E agora eu cheguei.

Ainda sou a menina da primeira carteira,

a neta que nunca deu trabalho,

a filha que sempre quis fazer tudo direito.

Mas também sou a mulher

que está aprendendo a escolher a si mesma.

E, pela primeira vez,

não quero apenas crescer.

Quero viver.

Thoughts

  • Matterix

    parabéns pelo poema, eu amei de verdade. Eu sei como é, a vida é tão diferente e muda a cada momento, há coisas que nós queremos e que não, mas nós temos que aguentar todos esses momentos, sejam eles bons ou ruins. Viver não significa fazer tudo o que quer, mas aproveitar cada trecho que a vida te dá! Se torne a mulher que você quer se tornar, mas com juízo tá? kkak

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