Fiquei preso numa coisa prática: está tudo marcado aqui, a voz baixa no princípio, o beat a parar na ponte. Leio e ouço, sem música nenhuma. Chegaste a gravar isto?
A MÁSCARA QUE MATA
[Intro – voz baixa, quase ofegante, com som de respiração forçada]
In groups
Pensamento
Fiquei preso numa coisa prática: está tudo marcado aqui, a voz baixa no princípio, o beat a parar na ponte. Leio e ouço, sem música nenhuma. Chegaste a gravar isto?
Conteúdo da publicação
[Intro – voz baixa, quase ofegante, com som de respiração forçada]
É…
Eu copio, eu colo, eu finjo…
Pra não ser o estranho da festa.
Mas essa máscara tá me sufocando, inferno.
Autista disfarçado… até quando?
[Verse 1 – o copy and paste, as motivações]
Desde moleque eu vi o script, “seja igual ou se esconda”
Copio tom de voz, imito sorriso, digo o “tudo bem, irmão, me conta”
Assimilação forçada, entro na roda, falo do futebol que detesto
Compensação no talo, antes do rolê no espelho eu ensaio e converso
Motivação? Invalidação! Medo puro, rejeição é bala no peito
Bullying na escola, “esquisito” no trabalho, “não contrata o sujeito”
Escondo o hiperfoco, eu finjo que adoro um papo furado
Stimming no banheiro, colapso segurado, “eu tô de boa, caralho”
Mulher autista vira camaleão, repertório infinito de disfarce
Eu, homem, faço menos… mas ainda faço, pra não levar porrada na face
[Chorus – agressivo, voz rasgada, camadas de eco]
Máscara que mata, disfarce incandescente
Eu finjo ser gente, mas por dentro eu tô em chamas
Ressaca social, jet lag da alma, esgotamento no talo
Perdi quem eu era, virei personagem, caralho
Eu não sou normal, sou autista, desgraça
Mas pra eu existir no inferno o mundo cobra taxa
Desmascarar é a saída, soltar o stim, soltar o grito
Máscara no chão… e eu vivo de verdade, finito!
[Verse 2 – os comportamentos, o custo]
Sorriso performático, olho forçado, “olha pra mim quando eu falo”
Eu rio da piada que não entendi, finjo que tô por dentro do papo
Supressão de stim, mão quieta, pé parado no chão
Mas por dentro é terremoto, sobrecarga, explosão
Camuflagem de interesse, calo o sempre, finjo que sou “normal”
Simulação social total, “entendi tudo”, mas tô perdido no final
Custo alto pra caralho: ansiedade no peito, depressão no osso
Perdi a identidade, sou impostor no meu próprio corpo
Isolamento paradoxal, cercado de gente, sozinho comigo mesmo
Porque ninguém conhece o eu de verdade, só a máscara que eu ofereço
[Bridge – mais lento, spoken word, beat quase parando, voz rachando]
E se eu te disser que eu não aguento mais isso?
Que o “copia e cola” virou prisão, que o disfarce virou vício?
Psicoeducação, adaptação, stim livre no espaço seguro
Honrar o hiperfoco, pedir ajuda sem medo do escuro
DSM-5 sabe: masking mascara o diagnóstico, atrasa o alívio
Eu sou Nível 1, mas o esgotamento é Nível 10, meu amigo
Desmascarar não é fraqueza, é revolução nas ruas
Eu sou autista… e foda-se quem não aguenta a minha verdade crua
[Final Chorus – explosão, ad-libs, voz em camadas]
Máscara que mata, disfarce incandescente! (queima!)
Eu finjo ser gente, mas por dentro eu tô em chamas! (chamas!)
Ressaca social, jet lag da alma, esgotamento no talo! (no talo!)
Perdi quem eu era, virei personagem, caralho!
Eu não sou normal, sou autista, desgraça!
Mas pra eu existir no inferno o mundo cobra taxa!
Desmascarar é a saída, soltar o stim, soltar o grito!
Máscara no chão… e eu vivo de verdade, finito!
[Outro – voz ecoando, beat sumindo, com som de respiração livre]
Eu sou autista.
Eu sou real.
Eu sou livre.
E foda-se a máscara.
Modo hard… desativado.
Eu sou eu mesmo… desgraça.
Thoughts
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PermalinkTirar a máscara aparece aqui como saída e eu não tenho tanta certeza. Quem tira paga também, a conta só muda de lugar. O próprio texto parece saber disso, porque põe o espaço seguro antes do grito solto.
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PermalinkQuem escreveu isto contava os minutos que faltavam para poder sair da sala. Foi o que me ficou do stim feito às escondidas na casa de banho, com a festa a decorrer lá fora.
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PermalinkFiquei preso numa coisa prática: está tudo marcado aqui, a voz baixa no princípio, o beat a parar na ponte. Leio e ouço, sem música nenhuma. Chegaste a gravar isto?
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PermalinkReli hoje cedo, antes de sair, e mudou o que pesa. Na primeira leitura eu fiquei presa no bullying da escola, que é o que grita mais alto. Depois veio o ensaio no espelho antes do rolê, e aquilo me pareceu bem pior, porque é gente adulta se preparando todo dia pra uma coisa que pros outros é simples. Na escola passa. Isso aí não passou.
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PermalinkA sequência inteira está aqui: o menino que viu o script na escola, o rapaz ensaiando no espelho antes de sair, o homem que faz stim no banheiro com a porta fechada. O que falta é o dia em que ele decidiu largar. O texto já começa com a máscara sufocando, então isso aconteceu antes e ficou de fora. Eu chutaria que não foi um dia, foi cansaço somando.
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PermalinkO texto inteiro vai no grito e tem um lugar só onde a voz baixa: quando ele diz que a mulher autista disfarça mais e que ele, homem, faz menos. Ali ele para de acusar o mundo e mede a conta que é dele. Foi nessa hora que eu acreditei em todo o resto, visse.
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PermalinkBom dia. Levei a tarde toda nisso e voltei duas vezes na parte de não ser contratado por ser esquisito. Trabalhei trinta anos em garagem de ônibus e tinha um rapaz lá que era o melhor mecânico do pátio, e ninguém botava ele pra atender freguês porque ele não olhava na cara de ninguém. Eu nunca parei pra pensar no preço que ele pagava por ficar.
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PermalinkRessaca social e jet lag da alma ficaram comigo depois de ler, e o final com o modo hard desativado também. Eu fiquei pensando em quanta gente paga essa conta sozinha no dia seguinte, quando todo mundo já foi embora achando que correu tudo bem. Obrigado por postar isso inteiro!
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