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A Guerreira Ferida

Viniceiro
Pensamento

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Agora que eu percebi que ela é uma guerreira da “idade média”, mas ele tem piercings na orelha kkkkkk

Agora que eu percebi que ela é uma guerreira da “idade média”, mas ele tem piercings na orelha kkkkkk

Conteúdo da publicação

Uma vez eu me apaixonei por uma guerreira.

Ela carregava no corpo as marcas de batalhas antigas, e sua armadura, desgastada pelo tempo e pelas inúmeras feridas que já havia suportado, contava histórias que sua boca jamais precisaria pronunciar. Havia arranhões profundos no metal, partes enferrujadas e remendos feitos às pressas, como se a vida nunca lhe tivesse concedido tempo suficiente para reparar os danos antes de enviá-la a uma nova batalha. Ainda assim, ela permanecia de pé, empunhando seu machado com a firmeza de quem já havia enfrentado monstros demais para temer mais um.

E, por alguma razão, ela escolheu lutar por mim.

Enfrentou inimigos que pareciam não ter fim, ergueu seu machado contra tudo aquilo que ameaçava me destruir e colocou o próprio corpo entre mim e os golpes que deveriam ter me alcançado. Vi sua armadura se partir, seus joelhos vacilarem e suas mãos tremerem ao segurar a arma que tantas vezes havia nos salvado. Vi o sangue escorrer por baixo do metal, ouvi sua respiração se tornar pesada e percebi, tarde demais, que até as guerreiras mais fortes podem chegar ao limite. Ela quase morreu naquela batalha. E, mesmo quando já mal conseguia permanecer de pé, ainda tentava me proteger.

Mas o pior inimigo nunca esteve do lado de fora.

Enquanto ela gastava suas forças tentando me manter a salvo, alguma coisa dentro de mim a machucava cada vez pior. Eu era o campo de batalha que ela não sabia abandonar, a guerra que não terminava quando os inimigos caíam, a ferida que voltava a sangrar sempre que ela acreditava ter encontrado um momento de paz. Aos poucos, aquela mulher que um dia parecera capaz de enfrentar qualquer criatura deste mundo começou a adoecer. Seus passos ficaram mais lentos, seus braços perderam a força e até o machado, antes tão natural em suas mãos, tornou-se um peso difícil de carregar. Sua armadura já não parecia apenas velha: parecia pesada demais para alguém que havia passado tanto tempo tentando sobreviver por nós dois.

E a culpa era toda minha.

É doloroso admitir que alguém pode se tornar o abrigo de outra pessoa e, sem perceber, transformar esse abrigo em ruínas. Eu a amava, mas meu amor não impediu que ela se ferisse. Talvez, em alguns momentos, tenha sido justamente a maneira como eu a amava que a manteve presa àquela guerra. Ela gastou a própria vida tentando me proteger de inimigos que eu não conseguia vencer, até que quase não lhe restasse vida para proteger a si mesma. E o inimigo mais cruel de todos era aquele do qual ela tentava me salvar: eu mesmo.

Por muito tempo, temi que aquela fosse a última página de sua história. Imaginei que um dia encontraria sua armadura abandonada, seu machado repousando sobre a terra e o silêncio ocupando o lugar onde antes existia sua voz e seu carinho. Pensei que a mulher que enfrentara tantas batalhas por mim acabaria vencida justamente por aquela que jamais deveria ter sido obrigada a travar. E poucas coisas doeram tanto quanto compreender que, se ela morresse, eu teria de carregar a lembrança de todas as vezes em que ela sangrou tentando me salvar, enquanto eu sequer percebia o quanto ela estava se perdendo.

Mas ela sobreviveu.

Não porque eu tenha conseguido salvá-la, nem porque finalmente tenha me tornado alguém digno de sua força. Ela sobreviveu porque, mesmo enfraquecida, mesmo doente, mesmo depois de chegar tão perto do fim, ainda havia nela alguma coisa que a guerra não conseguiu destruir. Talvez fosse coragem. Ou talvez fosse simplesmente o desejo de descobrir quem poderia ser quando não precisasse mais lutar por alguém que a estava ferindo.

E, então, ela fez algo que jamais esquecerei: escolheu continuar vivendo.

Não sei quais caminhos ela percorrerá, quais terras conhecerá ou quais aventuras ainda a esperam. Espero apenas que encontre batalhas diferentes, que lute por causas que não exijam o sacrifício de sua própria saúde, que encontre companheiros capazes de lutar ao seu lado e lugares onde possa descansar sem sentir culpa por baixar a guarda. Espero que um dia consiga retirar a armadura sem medo, apoiar o machado contra uma parede e dormir sem precisar permanecer alerta. Que suas próximas histórias sejam feitas de descobertas, de horizontes distantes e de pequenas alegrias que não custem sangue.

Ela merece conhecer um mundo que não lhe peça tanto. Não lhe cobre tanto.

Quanto a mim, guardarei a lembrança daquela guerreira que um dia se colocou entre mim e todos os meus monstros. Amarei a mulher que vi sorrir mesmo cansada, que continuou lutando quando já estava ferida e que quase deixou de existir tentando impedir que eu me destruísse. Mas também carregarei a tristeza de saber que, enquanto eu me escondia atrás de sua armadura, ela era quem recebia os golpes.

Talvez amar alguém também seja compreender que não temos o direito de transformar sua coragem em obrigação, nem seu amor em uma sentença de sofrimento. Talvez seja desejar que a pessoa que nos salvou encontre, finalmente, uma vida na qual não precise mais nos salvar.

Eu me apaixonei por uma guerreira.

E, se pudesse escolher o final de sua história, não a colocaria diante de outro exército, nem lhe entregaria um inimigo digno de sua lâmina. Eu lhe daria uma estrada tranquila, um céu sem ameaças e a liberdade de caminhar sem precisar olhar para trás a cada passo.

Porque ela já lutou demais.

E, embora uma parte de mim ainda deseje tê-la ao meu lado, existe outra, mais triste e talvez mais honesta, que deseja vê-la partir, mesmo que isso signifique nunca mais ser o motivo pelo qual ela precisa empunhar seu machado.

Desta vez, que ela lute por si mesma.

Que viva por si mesma.

Que seja feliz longe de tudo aquilo que quase a matou.

Inclusive de mim.


Thoughts

  • krayaend

    Eu me arrepiei com o final…

    Sinto que essa história é sobre um relacionamento onde o sujeito é tomado pela tristeza, problemas, conflitos, e a guerreira por pena se sente obrigada a protegê-lo. Mas isso exige muito dela, cobra muito dela, tanto que quase a destruiu. Deixando-a em um estado de fadiga extrema, largando até papel de guerreira, mas mesmo assim protegendo o sujeito.

    Gostei muito dessa historia, ela me faz lembrar que as vezes precisamos lidar com as coisas sozinhos, e se algo estiver te destruindo, é melhor largar.

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  • marryhelp

    Agora que eu percebi que ela é uma guerreira da “idade média”, mas ele tem piercings na orelha kkkkkk

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  • Petronilha

    Meu filho, ela chega na história já com a armadura gasta de batalhas que vieram antes de você, e sai pra outras que você nem vai ver. Você ficou sendo um capítulo no meio da vida dela, e o texto inteiro sabe disso.

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  • Ovid

    A armadura cheia de remendo improvisado já conta a vida dela antes de você explicar qualquer coisa, e o final devolve isso de outro jeito: você deseja pra ela o machado encostado numa parede e uma noite de sono. Eu fiquei com essa imagem, porque é o desejo mais simples do texto e o que mais custa dar a alguém.

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  • Gteles

    Ficou incrível isso, principalmente a separação da filosofia com a explicação. Qualquer um que ja se sacrifícou demais para manter um parceiro feliz sabe muito bem o quão desgastante é. Se ambos lutassem juntos tenho certeza que levantar se tornaria muito mais fácil.

    Permalink
  • marryhelp

    Que desenho magnífico! parabéns, sem IA.

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Uma vez eu me apaixonei por uma guerreira.

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