manter amizade com quem eu amo
é uma ideia genial,
tipo deixar um ex-alcoólatra
trabalhando num bar
e chamar isso de equilíbrio emocional.
Eu digo que superei,
que agora tá tudo bem,
aí o garoto manda um “KKKKKK”
e eu já tô escolhendo os nomes
dos nossos filhos também.
Que ódio, sinceramente,
que falta de amor-próprio,
eu querendo ser madura
e meu coração agindo
como um adolescente sem pódio.
Porque eu sou amiga, sim,
sou parceira, sou legal,
mas basta um “tá acordada?”
que eu esqueço todo o mal.
Eu dou conselho amoroso,
finjo até maturidade,
mas se ele fala “tô com saudade”,
meu cérebro pede demissão
e meu coração perde a dignidade.
E o pior é que eu quero que seja feliz,
juro, não é falsidade.
só queria que a felicidade dele
não me desse vontade
de cometer um pequeno crime contra a minha sanidade.
Porque ele me conta de quem gosta,
e eu escuto com atenção,
dou conselhos, faço piada,
enquanto meu espírito abandona o corpo
e minha alma abre uma reclamação.
“vai atrás de quem te faz bem”,
Eu digo, toda consciente,
enquanto penso: “MEU DEUS,
EU TÔ AQUI, SEU DESGRAÇADO,
MAS VAMOS RESPEITAR O LIVRE-ARBÍTRIO DA GENTE.”
E não, eu não quero prender,
nem exigir reciprocidade,
eu só queria que meu coração
entendesse a diferença
entre amor e disponibilidade.
Porque ser amiga de quem se ama
é um esporte radical:
você entra querendo paz
e sai fazendo análise
de cada vírgula no final.
“ele demorou pra responder,
será que tá ocupado?”
Cinco minutos depois:
“deve estar vivendo uma vida linda
enquanto eu apodreço sentada.”
E quando fala de outra pessoa,
eu viro um poço de compreensão:
“amigo, você merece o mundo!”
meu coração: “E EU MEREÇO INTERNAÇÃO
NUMA CLÍNICA DE DESILUSÃO.”
Mas eu fico, fazer o quê?
também gosto da companhia.
entre sentir saudade em silêncio
e perder as conversas do dia,
eu escolho ficar por perto
e fingir que isso não me desmonta todo dia.
Talvez isso seja amor,
talvez seja falta de juízo,
talvez eu precise de terapia,
de férias, de um exorcismo
ou simplesmente aprender
a não confundir carinho com compromisso.
Porque eu posso amar uma pessoa
sem cobrar que me ame também (Eu acho).
só não sabia que ser amiga
de quem já foi meu mundo
dava tanto trabalho pra alguém.
E, se um dia eu superar,
vou comemorar com champanhe,
fazer uma festa, soltar fogos,
escrever um livro de autoajuda
e cobrar ingresso de quem me acompanha.
Mas, por enquanto, seguimos:
eu, a amizade e a paixão,
três pessoas nessa relação
e só duas têm consciência
de que existe uma relação.
Porque superar é um processo,
e eu sou péssima em matemática:
se ele me dá um pouquinho de carinho,
minha esperança multiplica
e minha dignidade subtrai.
amém.
boa noite.
não me mandem mensagem dele
que eu tô tentando melhorar.
L.M
Poema altoral