Ergui muralhas ao meu redor como quem tenta impedir o mundo de entrar — mas, sem perceber, também impedi que alguém chegasse até mim. Fechei as cortinas para esconder minhas sombras e tranquei as portas para que ninguém ouvisse o barulho das coisas desabando aqui dentro.
Com o tempo, aprendi a parecer inteiro. A sorrir quando esperavam um sorriso, a dizer “está tudo bem” sem acreditar em nenhuma palavra. Por fora, virei pedra; por dentro, sou um lugar abandonado, cheio de lembranças cobertas de pó e perguntas que continuam sem resposta.
Não me escondo porque não queira ser encontrado. Eu só tenho medo. Medo de abrir uma fresta e deixar alguém entrar, de me acostumar com sua presença e, um dia, ter de assistir à sua partida. Então construí muros cada vez mais altos, como se a distância pudesse me proteger da dor — mesmo que ela também me afastasse de tudo o que eu queria sentir.
As vezes, no silêncio, ainda imagino como seria se alguém percebesse as rachaduras sem tentar consertá-las à força. Alguém que não confundisse meu isolamento com falta de carinho, nem meu silêncio com indiferença. Alguém que simplesmente ficasse do outro lado, sem exigir que eu abrisse a porta antes de estar pronto.
Por isso, apesar de tudo, deixo uma fresta entre as cortinas. Quase nada — um fio de luz atravessando a escuridão. Talvez seja esperança. Talvez seja só o último pedaço de mim que ainda não desistiu de ser encontrado.