Eu vejo essas pessoas todo dia na minha cadeira. Elas chegam com histórias pesadas, mas tem um jeito de estar ali que muda o ar do estúdio. Conheci gente que carrega tempestade nos olhos igualzinho.
A FLOR QUE O DIA GUARDOU
Pensamento
Eu vejo essas pessoas todo dia na minha cadeira. Elas chegam com histórias pesadas, mas tem um jeito de estar ali que muda o ar do estúdio. Conheci gente que carrega tempestade nos olhos igualzinho.
Conteúdo da publicação
Hoje o dia não nasceu diferente,
mas talvez eu tenha aprendido a enxergá-lo.
O céu continuou no mesmo lugar,
as horas seguiram seu caminho,
e o mundo continuou fazendo barulho —
mas, em algum instante,
uma lembrança floresceu em silêncio.
Era como uma flor escondida
no meio de um campo imenso,
daquelas que ninguém procura
e, justamente por isso,
parecem ainda mais raras quando encontradas.
Não era apenas beleza.
Era presença.
Porque existem pessoas que chegam
como quem abre uma janela
num quarto que há muito tempo estava fechado.
Não precisam anunciar o próprio nome,
não precisam pedir atenção.
Basta existirem
para alguma coisa dentro da gente
começar a respirar diferente.
E talvez seja isso que uma flor faça.
Ela não pergunta quem vai admirá-la.
Não exige aplausos.
Não compete com o jardim.
Ela simplesmente floresce.
E há pessoas assim.
Pessoas que carregam primavera
mesmo depois de atravessarem invernos.
Que sorriem sem contar
quantas vezes precisaram ser fortes.
Que guardam tempestades nos olhos
e ainda assim conseguem oferecer
um pouco de sol para alguém.
Hoje pensei nisso.
Talvez o mundo seja grande demais
porque existem milhões de caminhos,
milhões de rostos,
milhões de histórias acontecendo ao mesmo tempo.
Mas, entre tantos caminhos,
há sempre uma presença
que o coração reconhece
antes mesmo de saber explicar.
Uma pessoa pode ser como uma rosa:
bonita, mas passageira.
Pode ser como uma árvore:
silenciosa, firme,
oferecendo sombra sem perguntar
quem merece descansar.
Pode ser como o mar:
profunda demais para ser compreendida
de uma única vez.
Mas existe alguém
que talvez seja como aquela flor rara
que nasce longe dos olhos do mundo:
não porque precise ser rara,
mas porque certas coisas preciosas
não foram feitas para serem encontradas por todos.
E se hoje eu tivesse que guardar
uma única imagem deste dia,
eu não guardaria o relógio,
nem as ruas,
nem o barulho das horas.
Guardaria uma flor.
Uma flor imaginária,
nascendo exatamente onde
a saudade encontra a esperança.
E escreveria ao lado dela:
“Aqui esteve alguém
que, mesmo sem perceber,
deixou o mundo um pouco mais bonito.”
Porque talvez a vida seja isso:
passamos por milhares de pessoas,
mas algumas poucas
passam por nós.
E depois que vão embora,
deixam alguma coisa plantada.
Uma lembrança.
Uma palavra.
Um olhar.
Uma saudade.
Ou simplesmente
a certeza de que,
por um breve momento,
o mundo teve uma flor
que só nós conseguimos enxergar.
E hoje, entre todas as coisas que aconteceram,
foi essa que eu escolhi guardar.
Não porque foi o acontecimento mais grandioso.
Mas porque algumas das coisas mais importantes da vida
acontecem baixinho.
Como uma flor abrindo.
Como uma lembrança chegando.
Como alguém entrando na nossa história
e, sem perceber,
deixando primavera
onde antes só existia silêncio.
Thoughts
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PermalinkFez-me lembrar daqueles motoristas de táxi antigo que eu conhecia em Porto Velho. Nunca falavam muito, mas sentia tudo quando tava do lado deles. Passa o tempo, a gente fica velho, mas não esquece daquelas presenças.
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PermalinkParece que você escreveu isso logo depois de ver essa pessoa ou depois de um tempo longe. Tem aquela sensação de coisa que acabou de chegar de novo.
-
PermalinkA flor imaginária nascendo onde saudade encontra esperança. Parei de ler aqui e fiquei pensando.
-
PermalinkIsso é escrito pra alguém específico? Tem aquele peso de quem está guardando uma pessoa, sabe?
-
PermalinkQue coisa linda demais. Aquela parte de não precisar anunciar o próprio nome, de basta existir.
-
PermalinkTem pessoas que você reconhece assim, nem precisa de muito. Quando chegam é diferente. Acho que é isso mesmo.
-
PermalinkEu vejo essas pessoas todo dia na minha cadeira. Elas chegam com histórias pesadas, mas tem um jeito de estar ali que muda o ar do estúdio. Conheci gente que carrega tempestade nos olhos igualzinho.
-
PermalinkAquela parte da flor no meio do campo imenso que ninguém procura. Senti na pele essa.
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