A estrada aqui anda numa fila só: infância, juventude, adulto, velhice. Discordo um pouco dessa ordem. Adolescente de quinze já sente saudade dos nove, adulto de quarenta já sente falta dos trinta. Meu palpite é que o homem do texto muda de quadro várias vezes por década, e a velhice é só a vez em que ele percebe.
A fantástica estrada nostálgica e incompreendida da vida humana
O homem inicia o seu caminho assim: leve, despreocupado, com a alma quieta, distante das ansiedades e das ambições futuras.
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A estrada aqui anda numa fila só: infância, juventude, adulto, velhice. Discordo um pouco dessa ordem. Adolescente de quinze já sente saudade dos nove, adulto de quarenta já sente falta dos trinta. Meu palpite é que o homem do texto muda de quadro várias
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O homem inicia o seu caminho assim: leve, despreocupado, com a alma quieta, distante das ansiedades e das ambições futuras.
É a infância.
Ainda não conhece o peso do tempo, nem a necessidade de chegar a algum lugar. Vive o instante sem perceber que, justamente ali, talvez esteja uma das maiores riquezas que perderá pelo caminho: a capacidade de simplesmente existir.
Mas o cenário começa a mudar quando ele encontra a embaraçosa, e talvez inevitável margem da ilusão chamada juventude.
Ali, ele mergulha na agoniante e, muitas vezes, ansiolítica tenda da ilusão. A inocência começa a ser assassinada lentamente pelas expectativas, pelos desejos, pelas comparações e pela necessidade de tornar-se alguém aos olhos do mundo.
Ele quer conquistar.
Quer provar.
Quer ser reconhecido.
Quer possuir.
Quer chegar.
E, sem perceber, começa a confundir viver com conquistar a vida.
Então cresce.
Torna-se adulto e entra em uma nova paisagem: a da responsabilidade.
Agora precisa trabalhar, sustentar, decidir, construir, responder por suas escolhas. Descobre que o mundo adulto não era exatamente aquele lugar extraordinário que imaginava quando era jovem.
E nasce uma nova nostalgia.
Ele olha para trás e sente falta daquilo que um dia desejou abandonar.
A infância, que parecia pequena demais, torna-se enorme em sua memória.
A juventude, que parecia insuficiente, começa a parecer preciosa.
E o presente, que deveria ser vivido, passa a ser comparado continuamente com aquilo que já passou.
Mas ele diz a si mesmo:
“Eu mudei.”
E, de fato, mudou.
Só não percebe que, muitas vezes, mudou apenas de quadro.
Saiu do quadro da ilusão e entrou no quadro do engano de si mesmo.
Antes acreditava que seria feliz quando alcançasse alguma coisa.
Agora acredita que será feliz quando compreender alguma coisa.
E segue.
Acumula experiências, perdas, conquistas, decepções, pessoas, histórias e cicatrizes. Aprende algumas coisas, desaprende outras. Torna-se mais consciente do tempo, mas nem sempre mais consciente de si.
Até que chega ao último trecho da estrada.
A velhice.
E então, talvez pela primeira vez, o homem contempla a extensão do caminho.
Olha para aquilo que perseguiu.
Para aquilo que perdeu.
Para aquilo que acumulou.
Para aquilo que desejou.
Para aquilo que temeu.
E percebe que quase tudo aquilo que parecia absoluto era passageiro.
Então talvez compreenda, ainda que tarde:
“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”
Mas existe algo ainda mais desconcertante:
Mesmo diante da proximidade do fim, o homem talvez ainda não compreenda completamente a sua estrada.
Passou a vida tentando descobrir para onde estava indo, quando talvez a pergunta mais profunda sempre tenha sido:
“Quem estou me tornando enquanto caminho?”
A estrada nunca foi apenas sobre chegar.
Era sobre perceber.
Perceber a infância antes que ela se tornasse saudade.
Perceber a juventude antes que ela se tornasse memória.
Perceber a maturidade antes que ela se tornasse arrependimento.
Perceber a velhice antes que ela se tornasse apenas uma contagem regressiva.
E talvez seja essa a grande ironia da existência humana:
o homem passa boa parte da vida tentando encontrar o sentido da estrada, sem perceber que a própria caminhada estava lhe fazendo a pergunta.
E quando finalmente começa a compreendê-la, descobre que não era dono do caminho.
Era apenas um viajante.
Um breve viajante entre o nascimento e o silêncio.
E talvez seja justamente nesse reconhecimento, quando cessam as ilusões de controle, de permanência e de autossuficiência, que a alma finalmente começa a enxergar aquilo que esteve diante dela desde o princípio.
A vida.
Não como posse.
Não como conquista.
Mas como passagem.
Uma fantástica, nostálgica e incompreendida estrada humana.
Edidania 🌹
Thoughts
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PermalinkÓ, aquele Quer repetido.
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PermalinkA lista dos cinco Quer no meio da juventude me fez pensar que essa fase raramente se enxerga enquanto está nela, só depois, quando já virou um verbo no passado. Aposto que esse texto vai soar bem diferente pra cada idade que ler, e que quem tem vinte vai discordar da velhice inteira. Obrigado por trazer essa estrada pra cá, Edidania :)
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PermalinkA estrada aqui anda numa fila só: infância, juventude, adulto, velhice. Discordo um pouco dessa ordem. Adolescente de quinze já sente saudade dos nove, adulto de quarenta já sente falta dos trinta. Meu palpite é que o homem do texto muda de quadro várias vezes por década, e a velhice é só a vez em que ele percebe.
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