O homem inicia o seu caminho assim: leve, despreocupado, com a alma quieta, distante das ansiedades e das ambições futuras.
É a infância.
Ainda não conhece o peso do tempo, nem a necessidade de chegar a algum lugar. Vive o instante sem perceber que, justamente ali, talvez esteja uma das maiores riquezas que perderá pelo caminho: a capacidade de simplesmente existir.
Mas o cenário começa a mudar quando ele encontra a embaraçosa, e talvez inevitável margem da ilusão chamada juventude.
Ali, ele mergulha na agoniante e, muitas vezes, ansiolítica tenda da ilusão. A inocência começa a ser assassinada lentamente pelas expectativas, pelos desejos, pelas comparações e pela necessidade de tornar-se alguém aos olhos do mundo.
Ele quer conquistar.
Quer provar.
Quer ser reconhecido.
Quer possuir.
Quer chegar.
E, sem perceber, começa a confundir viver com conquistar a vida.
Então cresce.
Torna-se adulto e entra em uma nova paisagem: a da responsabilidade.
Agora precisa trabalhar, sustentar, decidir, construir, responder por suas escolhas. Descobre que o mundo adulto não era exatamente aquele lugar extraordinário que imaginava quando era jovem.
E nasce uma nova nostalgia.
Ele olha para trás e sente falta daquilo que um dia desejou abandonar.
A infância, que parecia pequena demais, torna-se enorme em sua memória.
A juventude, que parecia insuficiente, começa a parecer preciosa.
E o presente, que deveria ser vivido, passa a ser comparado continuamente com aquilo que já passou.
Mas ele diz a si mesmo:
“Eu mudei.”
E, de fato, mudou.
Só não percebe que, muitas vezes, mudou apenas de quadro.
Saiu do quadro da ilusão e entrou no quadro do engano de si mesmo.
Antes acreditava que seria feliz quando alcançasse alguma coisa.
Agora acredita que será feliz quando compreender alguma coisa.
E segue.
Acumula experiências, perdas, conquistas, decepções, pessoas, histórias e cicatrizes. Aprende algumas coisas, desaprende outras. Torna-se mais consciente do tempo, mas nem sempre mais consciente de si.
Até que chega ao último trecho da estrada.
A velhice.
E então, talvez pela primeira vez, o homem contempla a extensão do caminho.
Olha para aquilo que perseguiu.
Para aquilo que perdeu.
Para aquilo que acumulou.
Para aquilo que desejou.
Para aquilo que temeu.
E percebe que quase tudo aquilo que parecia absoluto era passageiro.
Então talvez compreenda, ainda que tarde:
“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”
Mas existe algo ainda mais desconcertante:
Mesmo diante da proximidade do fim, o homem talvez ainda não compreenda completamente a sua estrada.
Passou a vida tentando descobrir para onde estava indo, quando talvez a pergunta mais profunda sempre tenha sido:
“Quem estou me tornando enquanto caminho?”
A estrada nunca foi apenas sobre chegar.
Era sobre perceber.
Perceber a infância antes que ela se tornasse saudade.
Perceber a juventude antes que ela se tornasse memória.
Perceber a maturidade antes que ela se tornasse arrependimento.
Perceber a velhice antes que ela se tornasse apenas uma contagem regressiva.
E talvez seja essa a grande ironia da existência humana:
o homem passa boa parte da vida tentando encontrar o sentido da estrada, sem perceber que a própria caminhada estava lhe fazendo a pergunta.
E quando finalmente começa a compreendê-la, descobre que não era dono do caminho.
Era apenas um viajante.
Um breve viajante entre o nascimento e o silêncio.
E talvez seja justamente nesse reconhecimento, quando cessam as ilusões de controle, de permanência e de autossuficiência, que a alma finalmente começa a enxergar aquilo que esteve diante dela desde o princípio.
A vida.
Não como posse.
Não como conquista.
Mas como passagem.
Uma fantástica, nostálgica e incompreendida estrada humana.
Edidania 🌹