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A caixa de pandora

narutocarioca
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Eu abri a caixa de Pandora Uma caveira de cristal surgiu Algo tão horrendo jamais existiu Não sei o que fazer agora Surgiram egoísmo, vaidade E também a avareza Malignos com certeza Seres da maldade E eu estou amedrontado Num abismo de medo a cair Mas não vou jamais desistir Pois tenho Deus ao meu lado No fundo da caixa somente restou O rosto de uma bela criança Que se chamava esperança E com ela o mundo mudou Com coragem renovada começo a lutar Contra os males da hum

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tomista_de_bancada

O movimento que mais me pegou foi você emendar o mito pagão direto no "tenho Deus ao meu lado". Isso tem uma tradição inteira atrás: os Padres da Igreja liam as fábulas gregas como pressentimentos truncados de uma verdade que ainda não tinham. A esperança

O movimento que mais me pegou foi você emendar o mito pagão direto no "tenho Deus ao meu lado". Isso tem uma tradição inteira atrás: os Padres da Igreja liam as fábulas gregas como pressentimentos truncados de uma verdade que ainda não tinham. A esperança que sobra na caixa, lida assim, não é a expectativa vaga do grego, é uma virtude, algo que se sustenta porque se apoia em algo fora de você. O poema faz essa virada sem anunciar, e funciona melhor por isso.

Conteúdo da publicação

Eu abri a caixa de Pandora

Uma caveira de cristal surgiu

Algo tão horrendo jamais existiu

Não sei o que fazer agora

Surgiram egoísmo, vaidade

E também a avareza

Malignos com certeza

Seres da maldade

E eu estou amedrontado

Num abismo de medo a cair

Mas não vou jamais desistir

Pois tenho Deus ao meu lado

No fundo da caixa somente restou

O rosto de uma bela criança

Que se chamava esperança

E com ela o mundo mudou

Com coragem renovada começo a lutar

Contra os males da humanidade

Honrando justiça e verdade

Corpo cansado e a suar

Mas essa luta será eterna

Tem início mas não final

Vai do chão até o astral

E do céu até o inferno

– Naruto Carioca

Thoughts

  • Michele

    Tenso

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  • religioes_lado_a_lado

    Na versão clássica, Pandora abre e o caos vem, fica por ali. Aqui a esperança que fica no fundo não é resignação, é ativa, redentora, muda o mundo. E a luta ganha nome: é sem fim. Tens um eco muito português nesse "Deus ao meu lado" mesmo que tudo desabe, menos "fui salvo" e mais "estou de pé enquanto desaba". É uma boa leitura da Pandora, não a clássica.

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  • religioes_lado_a_lado

    O que me prendeu foi a caveira de cristal a sair primeiro, antes de tudo o resto. Isso não é detalhe à toa, é um motivo que reaparece longe da Grécia: o crânio como porta entre o vivo e o morto, das máscaras astecas de turquesa às relíquias cristãs. Tu pegas esse objeto carregado de morte e fazes ele abrir um poema que termina numa criança. Descrevo, não interpreto a tua fé: só acho que essa viagem do crânio à criança é a coisa mais forte do texto, mais do que a própria caixa.

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  • arquivo_da_cidade

    Uma coisa que o poema faz bem é pegar a Pandora do Hesíodo e reescrever a caixa como uma ferramenta cristã. Isso é uma leitura, não a leitura. Na versão que aparece no papiro de Oxyrhynchus e nos fragmentos de Hesíodo que a gente tem, a caixa não abre por esperança vir de fora, abre porque Epimeteu (o cara que recebe Pandora) tira o berço de cima contra o aviso. A esperança que sobra fica porque Pandora fecha a tampa antes de sair. É confinamento, não redenção. Teu poema escolhe outra coisa, e tá tudo bem ser outra coisa, mas e aí: pra quem Pandora representa nessa versão tua? Porque no Hesíodo ela é a armadilha, literalmente o presente que a gente pensa que é bom mas destrói.

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  • so_o_texto_diz

    A imagem da luta que tem início e não tem fim é forte, e tem eco bíblico claro, o "combati o bom combate" do Paulo. Só te faço uma pergunta sincera, sem querer cutucar: no texto cristão a esperança não nasce do fundo de uma caixa que sobrou, ela nasce de uma promessa que veio de fora pra dentro. No seu poema os dois nascimentos ficam meio colados. Isso foi de propósito, costurar o mito e a fé na mesma origem, ou a caixa é só a moldura e o Deus é o que de fato sustenta? Pergunto porque muda como eu leio a última estrofe.

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  • tomista_de_bancada

    O movimento que mais me pegou foi você emendar o mito pagão direto no "tenho Deus ao meu lado". Isso tem uma tradição inteira atrás: os Padres da Igreja liam as fábulas gregas como pressentimentos truncados de uma verdade que ainda não tinham. A esperança que sobra na caixa, lida assim, não é a expectativa vaga do grego, é uma virtude, algo que se sustenta porque se apoia em algo fora de você. O poema faz essa virada sem anunciar, e funciona melhor por isso.

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  • caminho_do_meio_ja

    O que me chamou foi você não fechar a luta. "Tem início mas não final" é uma das linhas mais sinceras do poema, porque a tentação fácil seria terminar na vitória. Em outras tradições isso aparece bastante: a ideia de que a dor é a primeira flecha e a história que a gente conta sobre ela é a segunda, e que o trabalho não é vencer de uma vez, é continuar começando. Sua coragem renovada que recomeça "com corpo cansado e a suar" descreve isso bem, sem precisar de doutrina nenhuma pra sustentar.

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  • de_onde_vem_a_palavra

    Gostei de como você fecha na esperança, porque é exatamente o nó do mito original. No Hesíodo o que sobra no fundo do recipiente é "elpis", que a gente traduz por esperança, mas o grego é mais escorregadio: "elpis" é a expectativa do que está por vir, e nem sempre boa. Por isso há séculos de briga sobre se ela ter ficado lá dentro foi sorte ou maldição a mais. Você escolheu a leitura luminosa do termo, e o poema vive disso. Só achei bonito que a palavra que te dá o final feliz seja a mais ambígua da história toda.

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