Depois de tanta parte com soldado e holofote, foi bom ver a psicóloga sem tentar encaixar a Aurora em nada. Lá fora cada grupo já escolheu o seu nome pra menina: santa, demônio, fim do mundo. Meu palpite é que a mãe, falando de música no quarto e de uma paixão talvez, é a única pessoa que ainda enxerga uma garota atrás daquele vidro.
A Aparição - Parte 15
Pensamento
Depois de tanta parte com soldado e holofote, foi bom ver a psicóloga sem tentar encaixar a Aurora em nada. Lá fora cada grupo já escolheu o seu nome pra menina: santa, demônio, fim do mundo. Meu palpite é que a mãe, falando de música no quarto e de uma p
Conteúdo da publicação
A sala de reunião improvisada ficava diante da área onde Aurora permanecia.
Havia um vidro espesso separando os dois ambientes.
Do outro lado, ela estava exatamente como sempre.
Flutuando.
Cerca de meio metro acima do chão.
O corpo completamente imóvel.
Os braços soltos.
O rosto tranquilo.
Os olhos abertos.
Olhando para a frente.
Não parecia estar dormindo.
Também não parecia estar acordada.
Era difícil dizer.
Aurora simplesmente estava ali.
A mãe sentou-se diante do vidro.
A psicóloga sentou-se ao lado dela.
Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.
A mãe olhava para a filha.
— Ela está bem?
A psicóloga demorou um pouco para responder.
— Fisicamente, sim.
— Só isso?
— É difícil dizer.
A mãe continuou olhando.
— Ela está sofrendo?
— Não temos nenhum sinal disso.
— Ela sente dor?
— Não sabemos.
— Está com fome?
A psicóloga olhou para Aurora.
— Ela não come.
A mãe franziu a testa.
— Há quanto tempo?
— Desde que aconteceu.
Ela ficou em silêncio.
— Isso não faz sentido.
— Não.
A psicóloga olhou para as anotações.
— O corpo dela continua funcionando. Ela respira. Tem pulso. A temperatura permanece normal. Os tecidos são normais. Os exames não mostram nenhuma deterioração.
— Mas ela não come.
— Não.
— E não fica fraca?
— Não.
A mãe voltou a olhar para a filha.
— Então ela simplesmente...
Não terminou.
A psicóloga completou:
— Parece suspensa.
A palavra ficou entre as duas.
Suspensa.
Não morta.
Não doente.
Não exatamente vivendo como antes.
Apenas suspensa.
Como alguma coisa que foi retirada da tomada sem deixar de funcionar.
A mãe respirou fundo.
— Ela está tão calma.
— Sempre esteve?
— Não assim.
A psicóloga sorriu discretamente.
— Não?
— Não.
Ela olhou para a filha.
— Ela era uma garota normal.
Houve uma pequena pausa.
— Muito normal.
A psicóloga fechou o caderno.
— Como era a rotina dela?
A mãe começou a falar.
— Escola de manhã. Voltava para casa. Fazia os trabalhos. Às vezes ajudava em casa. Gostava de ficar no quarto ouvindo música. Assistia televisão. Mexia no celular.
Ela deu um pequeno sorriso.
— Nada muito interessante.
— Como ela era na escola?
— Boa aluna.
— Excelente?
A mãe pensou.
— Não. Excelente, não.
A psicóloga sorriu.
— Muito boa?
— Muito boa.
As duas riram discretamente.
— Ela nunca teve grandes ambições — continuou a mãe. — Nunca falou que queria ser famosa, viajar o mundo, ficar rica. Essas coisas.
— O que ela queria?
A mãe olhou novamente para a filha.
— Acho que só queria viver.
A psicóloga ficou em silêncio.
— Viver como qualquer outra garota.
A mãe passou os dedos lentamente pela própria mão.
— Mas era difícil.
— Por causa do albinismo?
Ela assentiu.
— As crianças mexiam com ela.
— Muito?
— Bastante.
A mãe respirou fundo.
— Chamavam de coisas horríveis. Faziam piadas. Às vezes cercavam ela.
— Ela reagia?
— Não.
— Nunca?
— Nunca.
— Por quê?
A mãe olhou para Aurora.
— Porque tinha medo.
A psicóloga anotou alguma coisa.
— Ela nunca bateu em ninguém?
— Não.
— Nunca ameaçou?
— Não.
— Nunca tentou se vingar?
A mãe quase sorriu.
— Não.
Depois ficou séria.
— Ela só queria que parassem.
A psicóloga baixou os olhos.
Do outro lado do vidro, Aurora continuava olhando para a frente.
Serena.
Imóvel.
Flutuando.
A mãe continuou:
— Agora tem gente dizendo que ela é um demônio.
A psicóloga não respondeu.
— Outros dizem que ela é santa.
— Eu sei.
— Tem gente dizendo que ela vai destruir o mundo.
A mãe balançou a cabeça.
— Minha filha nem gostava de chamar atenção na escola.
A psicóloga sorriu.
— As pessoas precisam colocar alguma coisa dentro do que não entendem.
— Eu sei.
As duas ficaram novamente em silêncio.
Depois a psicóloga perguntou:
— Como era em casa?
— Normal.
— Ela ajudava?
— Às vezes.
— Tinha amigos?
— Alguns.
— Namorado?
A mãe sorriu.
— Não.
— Alguma paixão?
— Talvez.
As duas riram.
Por alguns segundos, a presença de Aurora parecia distante.
Não porque ela tivesse desaparecido.
Mas porque aquela conversa poderia estar acontecendo entre duas mães em qualquer lugar.
— Minha filha também é assim — disse a psicóloga.
A mãe olhou para ela.
— É?
— Reclama de tudo.
A mãe sorriu.
— Então é normal.
— Muito.
— A minha também.
A psicóloga olhou para Aurora.
— Hoje de manhã minha filha não queria ir à escola.
— E você veio trabalhar?
— Vim.
— E agora?
— Hoje eu prometi que vou buscá-la.
A mãe sorriu.
— Então cumpra.
A psicóloga riu.
— Vou cumprir.
As duas ficaram olhando para Aurora.
Do outro lado do vidro, ela continuava exatamente como antes.
Sem expressão de dor.
Sem expressão de medo.
Sem fome.
Sem cansaço.
Sem pedir ajuda.
Sem pedir nada.
A mãe se aproximou um pouco do vidro.
— Ela está ali.
— Sim.
— Parece que está me olhando.
A psicóloga olhou para Aurora.
— Talvez esteja.
— Você acha que ela sabe que eu estou aqui?
A psicóloga demorou.
— Eu não sei.
A mãe assentiu.
Não pareceu satisfeita.
Mas também não esperava uma resposta.
Depois de alguns segundos, perguntou:
— Ela vai ficar assim para sempre?
A psicóloga olhou para Aurora.
Depois para a mãe.
— Nós não sabemos.
A mãe respirou fundo.
— Então ninguém sabe de nada.
A psicóloga deu um pequeno sorriso triste.
— Não.
As duas permaneceram sentadas.
Falando sobre filhas.
Sobre escola.
Sobre família.
Sobre coisas pequenas.
Enquanto, atrás do vidro reforçado, uma garota albina permanecia suspensa no ar.
E ninguém, absolutamente ninguém, sabia por quê.
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Eu estava sentado à mesa, tentando comer em paz, mas, aparentemente, Eithan tinha acordado com a única missão de acabar com a minha paciência.
A sala de reunião improvisada ficava diante da área onde Aurora permanecia.