Hoje fiquei ansioso enquanto você não chegava, mais uma vez. Eu olhei para você e, em questão de segundos, percebi que você não estava bem. O brilho forçado no olhar, o cansaço pesado nos ombros, o tom de voz vazio. Infelizmente eu conheço os seus descompassos melhor do que gostaria de admitir. Bastou um minuto de conversa fútil para eu ler todas as suas entrelinhas.
O meu primeiro instinto foi o de sempre: esticar os braços para segurar o seu mundo antes que ele desabasse. É aí que mora a crueldade desse processo. Como é difícil deixar ir quem a gente ainda tem vontade de proteger. É uma luta violenta entre a razão, que me lembra de tudo o que você me fez passar, e esse hábito maldito de me preocupar com o seu bem-estar. Ver você vulnerável reabriu aquela velha gaveta da responsabilidade que eu achei que já tinha trancado. Tive que morder a língua para não perguntar o que estava acontecendo, tive que amarrar meus braços para não estendê-los à você. Dói muito aceitar que, por mais que eu veja o seu naufrágio, o salva-vidas não é mais o meu peito. Eu preciso me lembrar, a cada segundo, de que salvar você significaria me afogar outra vez, porque não sou eu o porto que você escolheu.
Não sei porque isso ainda dói tanto em mim.