Na logística, treinávamos tudo no papel até uns quinze anos atrás. Depois passei a ensinar gente nova através de vídeo, aplicativo, manual no celular. O resultado: quem consegue usar a ferramenta sem virar escravo dela aprende mais rápido. Saber quando desligar e quando ligar virou tão importante quanto qualquer conteúdo que professor passa. Não tenho certeza se escola ensina isso.
Uso de celulares em sala de aula
Uso de celulares em sala de aula: limites, impactos na atenção e benefícios pedagógicos
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Na logística, treinávamos tudo no papel até uns quinze anos atrás. Depois passei a ensinar gente nova através de vídeo, aplicativo, manual no celular. O resultado: quem consegue usar a ferramenta sem virar escravo dela aprende mais rápido. Saber quando de
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Uso de celulares em sala de aula: limites, impactos na atenção e benefícios pedagógicos
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
O celular chegou à escola antes mesmo de a escola conseguir decidir, com clareza, qual lugar ele deveria ocupar dentro dela. Hoje, o aparelho está presente no cotidiano de praticamente todos os estudantes e pode ser, simultaneamente, ferramenta pedagógica, fonte de informação, instrumento de inclusão e poderoso elemento de distração. Por isso, discutir sua presença em sala de aula exige fugir de dois extremos: a ideia de que o celular é necessariamente um inimigo da educação e a crença de que toda tecnologia, por si só, representa inovação pedagógica.
No Brasil, essa discussão ganhou contornos legais com a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso, pelos estudantes, de aparelhos eletrônicos pessoais durante as aulas, recreios e intervalos na educação básica. A própria legislação, entretanto, permite o uso para fins pedagógicos ou didáticos, mediante orientação dos profissionais da educação, além de prever exceções relacionadas à acessibilidade, inclusão, saúde e direitos fundamentais.
A questão, portanto, não é simplesmente perguntar: “celular pode ou não pode?” A pergunta mais importante é: “quando, por que e para quê o celular deve ser utilizado na escola?”
O impacto sobre a atenção
Um dos principais argumentos para restringir o celular em sala de aula está relacionado à atenção. O estudante pode estar fisicamente sentado diante do professor, mas mentalmente estar em outro lugar: respondendo mensagens, verificando notificações, navegando pelas redes sociais, assistindo a vídeos ou acompanhando conversas.
O Ministério da Educação informa que 80% dos estudantes brasileiros afirmaram que o celular prejudica sua concentração em sala de aula, especialmente em Matemática, segundo dados do PISA Brasil 2022.
A UNESCO também chama atenção para esse problema. Em seu Global Education Monitoring Report 2023, destaca que a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem, mas seu uso inadequado ou excessivo pode produzir distração e comprometer o processo educativo. O relatório aponta que pesquisas internacionais encontraram relação negativa entre determinados níveis de uso de TIC e desempenho escolar, além de registrar que a própria proximidade de um dispositivo móvel pode funcionar como elemento de distração.
Como afirma a UNESCO:
“Student use of technology in classrooms and at home can be distracting, disrupting learning.”
Em tradução livre: o uso da tecnologia pelos estudantes na sala de aula e em casa pode ser uma fonte de distração e interromper a aprendizagem.
Isso nos leva a uma constatação importante: atenção é um recurso pedagógico limitado. Se o professor disputa permanentemente a atenção do estudante com notificações, vídeos curtos, jogos e redes sociais, a aula pode perder espaço para estímulos muito mais rápidos e instantâneos.
O celular também pode ser ferramenta pedagógica
Entretanto, transformar o celular em vilão absoluto seria igualmente equivocado. O aparelho pode ampliar o acesso ao conhecimento, permitir pesquisas rápidas, utilização de dicionários, calculadoras, mapas, aplicativos educacionais, produção audiovisual, registros fotográficos, podcasts, formulários, plataformas de aprendizagem e diferentes recursos de acessibilidade.
O próprio Ministério da Educação afirma que a regulamentação não representa uma proibição absoluta, pois a legislação admite o uso pedagógico, desde que autorizado e mediado pelos profissionais da educação.
Nesse sentido, o celular pode ser utilizado para uma atividade de pesquisa, uma experiência de aprendizagem baseada em problemas, uma produção de vídeo, uma consulta a fontes históricas, uma atividade de leitura ou até mesmo para desenvolver competências relacionadas à cidadania digital.
A Resolução do Conselho Nacional de Educação reforça essa perspectiva ao definir o uso pedagógico como aquele realizado com intencionalidade pedagógica clara, planejamento e orientação de profissional da educação.
Portanto, não basta permitir que o aluno utilize o celular; é necessário saber o que ele fará com o aparelho e qual aprendizagem se pretende alcançar.
Vantagens do uso pedagógico
Entre as principais vantagens do uso planejado do celular na educação, podemos destacar:
* Acesso rápido à informação:o estudante pode consultar diferentes fontes e ampliar seus conhecimentos.
* Interatividade: aplicativos, quizzes e plataformas digitais podem tornar determinadas atividades mais dinâmicas.
* inclusão e acessibilidade: dispositivos podem auxiliar estudantes que necessitam de tecnologias assistivas.
* Produção de conhecimento:o celular pode ser utilizado para fotografar, filmar, gravar entrevistas, produzir podcasts e elaborar trabalhos.
* Desenvolvimento da competência digital:a escola pode ensinar o estudante não apenas a utilizar tecnologia, mas a utilizá-la de maneira crítica, ética e responsável.
* Personalização da aprendizagem: determinados recursos permitem atividades diferenciadas conforme as necessidades dos estudantes.
* Integração com outras linguagens: texto, áudio, vídeo, imagem e recursos interativos podem ser combinados em uma mesma proposta pedagógica.
A UNESCO reconhece que tecnologias digitais podem favorecer determinadas aprendizagens quando adequadamente integradas à pedagogia. O relatório cita, por exemplo, evidências de que jogos digitais podem produzir resultados positivos em determinadas áreas da aprendizagem matemática.
Desvantagens e riscos
Por outro lado, o uso indiscriminado apresenta riscos que não podem ser ignorados.
O primeiro é a distração. Uma atividade pedagógica pode ser interrompida por uma simples notificação. O segundo é a fragmentação da atenção, pois o estudante pode alternar constantemente entre aula, mensagens, vídeos e redes sociais.
Também existem problemas relacionados à dependência tecnológica, exposição excessiva às telas, cyberbullying, acesso a conteúdos inadequados, redução da interação presencial e dificuldades de autorregulação.
A UNESCO alerta que os benefícios da tecnologia podem desaparecer quando ela é utilizada excessivamente ou sem professores preparados para integrá-la adequadamente ao processo pedagógico.
Há ainda uma questão fundamental: o celular não substitui o professor. Uma tela pode disponibilizar milhares de informações, mas informação não é sinônimo de conhecimento. É o professor quem ajuda o estudante a selecionar, contextualizar, questionar, comparar e transformar informação em aprendizagem.
O problema não está apenas no aparelho, mas na ausência de limites
É necessário reconhecer que parte do problema não está no celular em si, mas na falta de limites, regras e intencionalidade.
Um estudante que utiliza o aparelho para pesquisar determinado conteúdo, produzir um vídeo educativo ou participar de uma atividade orientada está fazendo uso muito diferente daquele que passa a aula inteira em redes sociais.
Por isso, uma regra escolar inteligente não precisa ser construída sobre a lógica de “tecnologia é ruim”, mas sobre a compreensão de que cada recurso possui um lugar, um momento e uma finalidade.
A Lei nº 15.100/2025 justamente estabelece essa diferenciação: restringe o uso durante aulas, recreios e intervalos, mas preserva situações de uso pedagógico e outras exceções necessárias.
A escola, portanto, precisa ensinar também aquilo que muitas vezes parece óbvio, mas não é: saber desligar o celular também é uma competência digital.
Professor versus celular: uma disputa que não deveria existir
Outro aspecto merece atenção. Não é razoável colocar sobre o professor a responsabilidade de competir, sozinho, com toda a indústria da atenção que existe por trás das redes sociais.
O professor prepara sua aula para ensinar. As plataformas digitais, por sua vez, são frequentemente desenvolvidas para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível. São objetivos diferentes.
Nesse cenário, exigir que o professor simplesmente “controle” dezenas de celulares durante uma aula pode transformar um problema educacional coletivo em responsabilidade individual do docente.
A escola precisa de regras institucionais claras, participação das famílias, formação dos professores, orientação aos estudantes e mecanismos educativos de acompanhamento.
A própria regulamentação brasileira determina que redes de ensino e escolas desenvolvam estratégias relacionadas à saúde mental e aos efeitos do uso imoderado das telas, incluindo ações de prevenção e acolhimento.
Proibir tudo resolve?
Não necessariamente.
A proibição pode ser importante em determinados momentos para recuperar a atenção, fortalecer a convivência presencial e reduzir distrações. Entretanto, simplesmente retirar o aparelho da mão do estudante não garante, automaticamente, aprendizagem de qualidade.
A UNESCO é bastante clara ao defender que a tecnologia precisa estar subordinada às necessidades educacionais, e não o contrário. O relatório recomenda avaliar se determinada tecnologia é apropriada, equitativa, baseada em evidências e sustentável antes de incorporá-la ao processo educativo.
Assim, o desafio contemporâneo da escola não é apenas proibir ou liberar. É educar para o uso consciente da tecnologia.
Família e escola precisam falar a mesma língua
A educação para o uso responsável do celular não pode começar e terminar no portão da escola.
Se a família permite que o estudante passe horas conectado durante a noite, utiliza o aparelho durante as refeições, não estabelece limites e depois exige que a escola consiga manter sua concentração durante cinco horas de aula, existe uma contradição que precisa ser enfrentada.
A formação de hábitos exige coerência entre família e escola.
A criança e o adolescente precisam aprender que existem momentos para estudar, brincar, conversar, descansar, utilizar tecnologia e conviver presencialmente.
Nesse sentido, limitar o celular não significa ser contra a tecnologia. Significa reconhecer que crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo capacidade de autorregulação e precisam de adultos que estabeleçam referências.
O celular deve servir à aprendizagem, e não a aprendizagem servir ao celular
Talvez esse seja o ponto central de toda essa discussão.
Quando o professor planeja uma atividade e escolhe o celular porque ele melhora determinada experiência de aprendizagem, temos tecnologia a serviço da educação.
Quando o celular entra na sala apenas porque o estudante não consegue ficar alguns minutos sem consultá-lo, temos a educação submetida à tecnologia.
A diferença parece pequena, mas é enorme.
Como sintetiza a UNESCO:
"No single device will improve learning everywhere for everyone.”
Ou seja, nenhum dispositivo, sozinho, será capaz de melhorar a aprendizagem em todos os lugares e para todos os estudantes. A tecnologia precisa ser escolhida conforme o contexto, os objetivos pedagógicos e as necessidades dos alunos.
Conclusão
O debate sobre celulares nas escolas não deveria ser reduzido à oposição entre “professores que querem proibir” e “alunos que querem usar”. A discussão é muito mais profunda.
Precisamos perguntar que estudante queremos formar: alguém incapaz de permanecer alguns minutos sem consultar uma tela ou alguém capaz de utilizar a tecnologia quando ela for necessária e deixá-la de lado quando ela atrapalhar?
O celular pode ser biblioteca, laboratório, câmera, gravador, calculadora, mapa, dicionário e ferramenta de produção de conhecimento. Mas também pode ser distração, fuga, dependência e obstáculo à aprendizagem.
Tudo depende do contexto, da finalidade, da mediação e dos limites.
A escola do século XXI não pode simplesmente ignorar a tecnologia, mas também não pode se render a ela. Precisa ensinar o estudante a dominá-la, e não ser dominado por ela.
Em última análise, a pergunta mais importante não é “o aluno pode usar o celular?”. É outra:
“O uso desse celular está ajudando o aluno a aprender ou está impedindo que ele aprenda?”
Quando a resposta for a primeira, a tecnologia tem lugar na escola. Quando for a segunda, estabelecer limites deixa de ser repressão e passa a ser ato pedagógico.
Referências bibliográficas
BRASIL. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025.Dispõe sobre a utilização, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica. Brasília, DF.
BRASIL. Decreto nº 12.385, de 18 de fevereiro de 2025. Regulamenta a Lei nº 15.100/2025. Brasília, DF.
BRASIL. Ministério da Educação. Uso de celulares nas escolas. Brasília, DF, 2025.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CEB nº 2, de 21 de março de 2025. Diretrizes sobre o uso de dispositivos digitais nas escolas. Brasília, DF.
UNESCO. Global Education Monitoring Report 2023: Technology in education – A tool on whose terms?Paris: UNESCO, 2023.
UNESCO. Recommendations – Technology in education. Global Education Monitoring Report, 2023.
Thoughts
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PermalinkTem uns pontos que a discussão não toca. Um: estudante que mora com três pessoas num quarto não tem lugar pra estudar senão no celular. Dois: quem não tem computador em casa, o celular é tudo que tem. Três: essa lei presume que estudante sai da escola e vai pra casa com recurso. Falar de proibição sem falar de acesso é conversa de quem nunca precisou contar moeda pra almoçar.
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PermalinkTranscrevo aula inteira porque não fico com nada quando o professor fala rápido. Depois estudo e faz sentido. Sem telefone não ia. Mas o problema não é o celular, é que ninguém me ensinou a reter.
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PermalinkA lei diz "uso pedagógico mediante orientação do profissional". Mas quem define isso? Cada professor decide à sua maneira ou é centralizado? Porque se é caos, resolve diferente.
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PermalinkNa logística, treinávamos tudo no papel até uns quinze anos atrás. Depois passei a ensinar gente nova através de vídeo, aplicativo, manual no celular. O resultado: quem consegue usar a ferramenta sem virar escravo dela aprende mais rápido. Saber quando desligar e quando ligar virou tão importante quanto qualquer conteúdo que professor passa. Não tenho certeza se escola ensina isso.
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PermalinkFalar de Lei nº 15.100 como "equilibrada" é fácil quando a pessoa tem internet em casa. Eu aprendo a aula gravada no celular à noite, depois que os filhos dormem. Proibir durante a aula, tudo bem, mas pra quem o aparelho é a única porta de acesso, é um jeito de empurrar gente como eu pra fora.
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PermalinkIrônico que estou em aula vaga, lendo um texto sobre celulares, através de um e ainda concordando com a proposta. O problema, é que nossa sociedade, a humanidade no caso, está sendo explorada por um sistema que se fortalece através da falta de atenção. Quanto menos foco, melhor. Lutar contra isso, é lutar contra o mundo atual. E isso não é tão simples assim. Concordo em fugir dos extremos. Mas convenhamos que na sociedade brasileira o problema não é apenas o uso dos celulares. De tudo que aprendemos na escola, pouca coisa tem um uso real na vida do brasileiro médio. O nosso meio de aprendizado escolar, se resume em memorização, e não em uso constante. Isso trás uma falsa sensação de conhecimento. Logo após, a matéria é subsistituida por outra, sendo esquecido completamente o conhecimento "obtido". Os únicos que florescem realmente no meio escolar, são alunos que tem contato com o conhecimento por fora do meio escolar. Através de pesquisas na internet e em livros. As pessoas precisam de sentindo para aprenderem e seguirem ideais. Quando o sistema escolar não entrega conhecimento realmente aplicável, perspectiva de vida real após a escola e não apenas um mero diploma sem significado. Todavia, entendo seu ponto e concordo com ele. Devemos para de matar a educação e o conhecimento antes de lutar contra todo esse sistema.
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PermalinkTrinta e dois anos de sala de aula me ensinaram que o problema não é o objeto. É o que a gente faz com a atenção dentro daquela porta. Passei quarenta anos vendo a concentração mudar: primeiro rádio ao fundo, depois TV na casa do aluno, agora o celular. A forma como a gente pensa mudou mesmo. Quando eu alfabetizava criança, ela memorizava por repetição. Hoje memoriza por conexão e busca. Se o professor insiste em competir com isso em vez de ensinar para isso, a lei resolve muito pouco.