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Uso de celulares em sala de aula

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Uso de celulares em sala de aula: limites, impactos na atenção e benefícios pedagógicos

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LarissaAmaral

Falar de Lei nº 15.100 como "equilibrada" é fácil quando a pessoa tem internet em casa. Eu aprendo a aula gravada no celular à noite, depois que os filhos dormem. Proibir durante a aula, tudo bem, mas pra quem o aparelho é a única porta de acesso, é um je

Falar de Lei nº 15.100 como "equilibrada" é fácil quando a pessoa tem internet em casa. Eu aprendo a aula gravada no celular à noite, depois que os filhos dormem. Proibir durante a aula, tudo bem, mas pra quem o aparelho é a única porta de acesso, é um jeito de empurrar gente como eu pra fora.

Conteúdo da publicação

Uso de celulares em sala de aula: limites, impactos na atenção e benefícios pedagógicos

Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal

O celular chegou à escola antes mesmo de a escola conseguir decidir, com clareza, qual lugar ele deveria ocupar dentro dela. Hoje, o aparelho está presente no cotidiano de praticamente todos os estudantes e pode ser, simultaneamente, ferramenta pedagógica, fonte de informação, instrumento de inclusão e poderoso elemento de distração. Por isso, discutir sua presença em sala de aula exige fugir de dois extremos: a ideia de que o celular é necessariamente um inimigo da educação e a crença de que toda tecnologia, por si só, representa inovação pedagógica.

No Brasil, essa discussão ganhou contornos legais com a Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso, pelos estudantes, de aparelhos eletrônicos pessoais durante as aulas, recreios e intervalos na educação básica. A própria legislação, entretanto, permite o uso para fins pedagógicos ou didáticos, mediante orientação dos profissionais da educação, além de prever exceções relacionadas à acessibilidade, inclusão, saúde e direitos fundamentais.

A questão, portanto, não é simplesmente perguntar: “celular pode ou não pode?” A pergunta mais importante é: “quando, por que e para quê o celular deve ser utilizado na escola?”

O impacto sobre a atenção

Um dos principais argumentos para restringir o celular em sala de aula está relacionado à atenção. O estudante pode estar fisicamente sentado diante do professor, mas mentalmente estar em outro lugar: respondendo mensagens, verificando notificações, navegando pelas redes sociais, assistindo a vídeos ou acompanhando conversas.

O Ministério da Educação informa que 80% dos estudantes brasileiros afirmaram que o celular prejudica sua concentração em sala de aula, especialmente em Matemática, segundo dados do PISA Brasil 2022.

A UNESCO também chama atenção para esse problema. Em seu Global Education Monitoring Report 2023, destaca que a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem, mas seu uso inadequado ou excessivo pode produzir distração e comprometer o processo educativo. O relatório aponta que pesquisas internacionais encontraram relação negativa entre determinados níveis de uso de TIC e desempenho escolar, além de registrar que a própria proximidade de um dispositivo móvel pode funcionar como elemento de distração.

Como afirma a UNESCO:

“Student use of technology in classrooms and at home can be distracting, disrupting learning.”

Em tradução livre: o uso da tecnologia pelos estudantes na sala de aula e em casa pode ser uma fonte de distração e interromper a aprendizagem.

Isso nos leva a uma constatação importante: atenção é um recurso pedagógico limitado. Se o professor disputa permanentemente a atenção do estudante com notificações, vídeos curtos, jogos e redes sociais, a aula pode perder espaço para estímulos muito mais rápidos e instantâneos.

O celular também pode ser ferramenta pedagógica

Entretanto, transformar o celular em vilão absoluto seria igualmente equivocado. O aparelho pode ampliar o acesso ao conhecimento, permitir pesquisas rápidas, utilização de dicionários, calculadoras, mapas, aplicativos educacionais, produção audiovisual, registros fotográficos, podcasts, formulários, plataformas de aprendizagem e diferentes recursos de acessibilidade.

O próprio Ministério da Educação afirma que a regulamentação não representa uma proibição absoluta, pois a legislação admite o uso pedagógico, desde que autorizado e mediado pelos profissionais da educação.

Nesse sentido, o celular pode ser utilizado para uma atividade de pesquisa, uma experiência de aprendizagem baseada em problemas, uma produção de vídeo, uma consulta a fontes históricas, uma atividade de leitura ou até mesmo para desenvolver competências relacionadas à cidadania digital.

A Resolução do Conselho Nacional de Educação reforça essa perspectiva ao definir o uso pedagógico como aquele realizado com intencionalidade pedagógica clara, planejamento e orientação de profissional da educação.

Portanto, não basta permitir que o aluno utilize o celular; é necessário saber o que ele fará com o aparelho e qual aprendizagem se pretende alcançar.

Vantagens do uso pedagógico

Entre as principais vantagens do uso planejado do celular na educação, podemos destacar:

* Acesso rápido à informação:o estudante pode consultar diferentes fontes e ampliar seus conhecimentos.

* Interatividade: aplicativos, quizzes e plataformas digitais podem tornar determinadas atividades mais dinâmicas.

* inclusão e acessibilidade: dispositivos podem auxiliar estudantes que necessitam de tecnologias assistivas.

* Produção de conhecimento:o celular pode ser utilizado para fotografar, filmar, gravar entrevistas, produzir podcasts e elaborar trabalhos.

* Desenvolvimento da competência digital:a escola pode ensinar o estudante não apenas a utilizar tecnologia, mas a utilizá-la de maneira crítica, ética e responsável.

* Personalização da aprendizagem: determinados recursos permitem atividades diferenciadas conforme as necessidades dos estudantes.

* Integração com outras linguagens: texto, áudio, vídeo, imagem e recursos interativos podem ser combinados em uma mesma proposta pedagógica.

A UNESCO reconhece que tecnologias digitais podem favorecer determinadas aprendizagens quando adequadamente integradas à pedagogia. O relatório cita, por exemplo, evidências de que jogos digitais podem produzir resultados positivos em determinadas áreas da aprendizagem matemática.

Desvantagens e riscos

Por outro lado, o uso indiscriminado apresenta riscos que não podem ser ignorados.

O primeiro é a distração. Uma atividade pedagógica pode ser interrompida por uma simples notificação. O segundo é a fragmentação da atenção, pois o estudante pode alternar constantemente entre aula, mensagens, vídeos e redes sociais.

Também existem problemas relacionados à dependência tecnológica, exposição excessiva às telas, cyberbullying, acesso a conteúdos inadequados, redução da interação presencial e dificuldades de autorregulação.

A UNESCO alerta que os benefícios da tecnologia podem desaparecer quando ela é utilizada excessivamente ou sem professores preparados para integrá-la adequadamente ao processo pedagógico.

Há ainda uma questão fundamental: o celular não substitui o professor. Uma tela pode disponibilizar milhares de informações, mas informação não é sinônimo de conhecimento. É o professor quem ajuda o estudante a selecionar, contextualizar, questionar, comparar e transformar informação em aprendizagem.

O problema não está apenas no aparelho, mas na ausência de limites

É necessário reconhecer que parte do problema não está no celular em si, mas na falta de limites, regras e intencionalidade.

Um estudante que utiliza o aparelho para pesquisar determinado conteúdo, produzir um vídeo educativo ou participar de uma atividade orientada está fazendo uso muito diferente daquele que passa a aula inteira em redes sociais.

Por isso, uma regra escolar inteligente não precisa ser construída sobre a lógica de “tecnologia é ruim”, mas sobre a compreensão de que cada recurso possui um lugar, um momento e uma finalidade.

A Lei nº 15.100/2025 justamente estabelece essa diferenciação: restringe o uso durante aulas, recreios e intervalos, mas preserva situações de uso pedagógico e outras exceções necessárias.

A escola, portanto, precisa ensinar também aquilo que muitas vezes parece óbvio, mas não é: saber desligar o celular também é uma competência digital.

Professor versus celular: uma disputa que não deveria existir

Outro aspecto merece atenção. Não é razoável colocar sobre o professor a responsabilidade de competir, sozinho, com toda a indústria da atenção que existe por trás das redes sociais.

O professor prepara sua aula para ensinar. As plataformas digitais, por sua vez, são frequentemente desenvolvidas para manter o usuário conectado pelo maior tempo possível. São objetivos diferentes.

Nesse cenário, exigir que o professor simplesmente “controle” dezenas de celulares durante uma aula pode transformar um problema educacional coletivo em responsabilidade individual do docente.

A escola precisa de regras institucionais claras, participação das famílias, formação dos professores, orientação aos estudantes e mecanismos educativos de acompanhamento.

A própria regulamentação brasileira determina que redes de ensino e escolas desenvolvam estratégias relacionadas à saúde mental e aos efeitos do uso imoderado das telas, incluindo ações de prevenção e acolhimento.

Proibir tudo resolve?

Não necessariamente.

A proibição pode ser importante em determinados momentos para recuperar a atenção, fortalecer a convivência presencial e reduzir distrações. Entretanto, simplesmente retirar o aparelho da mão do estudante não garante, automaticamente, aprendizagem de qualidade.

A UNESCO é bastante clara ao defender que a tecnologia precisa estar subordinada às necessidades educacionais, e não o contrário. O relatório recomenda avaliar se determinada tecnologia é apropriada, equitativa, baseada em evidências e sustentável antes de incorporá-la ao processo educativo.

Assim, o desafio contemporâneo da escola não é apenas proibir ou liberar. É educar para o uso consciente da tecnologia.

Família e escola precisam falar a mesma língua

A educação para o uso responsável do celular não pode começar e terminar no portão da escola.

Se a família permite que o estudante passe horas conectado durante a noite, utiliza o aparelho durante as refeições, não estabelece limites e depois exige que a escola consiga manter sua concentração durante cinco horas de aula, existe uma contradição que precisa ser enfrentada.

A formação de hábitos exige coerência entre família e escola.

A criança e o adolescente precisam aprender que existem momentos para estudar, brincar, conversar, descansar, utilizar tecnologia e conviver presencialmente.

Nesse sentido, limitar o celular não significa ser contra a tecnologia. Significa reconhecer que crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo capacidade de autorregulação e precisam de adultos que estabeleçam referências.

O celular deve servir à aprendizagem, e não a aprendizagem servir ao celular

Talvez esse seja o ponto central de toda essa discussão.

Quando o professor planeja uma atividade e escolhe o celular porque ele melhora determinada experiência de aprendizagem, temos tecnologia a serviço da educação.

Quando o celular entra na sala apenas porque o estudante não consegue ficar alguns minutos sem consultá-lo, temos a educação submetida à tecnologia.

A diferença parece pequena, mas é enorme.

Como sintetiza a UNESCO:

"No single device will improve learning everywhere for everyone.”

Ou seja, nenhum dispositivo, sozinho, será capaz de melhorar a aprendizagem em todos os lugares e para todos os estudantes. A tecnologia precisa ser escolhida conforme o contexto, os objetivos pedagógicos e as necessidades dos alunos.

Conclusão

O debate sobre celulares nas escolas não deveria ser reduzido à oposição entre “professores que querem proibir” e “alunos que querem usar”. A discussão é muito mais profunda.

Precisamos perguntar que estudante queremos formar: alguém incapaz de permanecer alguns minutos sem consultar uma tela ou alguém capaz de utilizar a tecnologia quando ela for necessária e deixá-la de lado quando ela atrapalhar?

O celular pode ser biblioteca, laboratório, câmera, gravador, calculadora, mapa, dicionário e ferramenta de produção de conhecimento. Mas também pode ser distração, fuga, dependência e obstáculo à aprendizagem.

Tudo depende do contexto, da finalidade, da mediação e dos limites.

A escola do século XXI não pode simplesmente ignorar a tecnologia, mas também não pode se render a ela. Precisa ensinar o estudante a dominá-la, e não ser dominado por ela.

Em última análise, a pergunta mais importante não é “o aluno pode usar o celular?”. É outra:

“O uso desse celular está ajudando o aluno a aprender ou está impedindo que ele aprenda?”

Quando a resposta for a primeira, a tecnologia tem lugar na escola. Quando for a segunda, estabelecer limites deixa de ser repressão e passa a ser ato pedagógico.

Referências bibliográficas

BRASIL. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025.Dispõe sobre a utilização, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica. Brasília, DF.

BRASIL. Decreto nº 12.385, de 18 de fevereiro de 2025. Regulamenta a Lei nº 15.100/2025. Brasília, DF.

BRASIL. Ministério da Educação. Uso de celulares nas escolas. Brasília, DF, 2025.

BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CEB nº 2, de 21 de março de 2025. Diretrizes sobre o uso de dispositivos digitais nas escolas. Brasília, DF.

UNESCO. Global Education Monitoring Report 2023: Technology in education – A tool on whose terms?Paris: UNESCO, 2023.

UNESCO. Recommendations – Technology in education. Global Education Monitoring Report, 2023.

Thoughts

  • bolsaAtrasada

    Tem uns pontos que a discussão não toca. Um: estudante que mora com três pessoas num quarto não tem lugar pra estudar senão no celular. Dois: quem não tem computador em casa, o celular é tudo que tem. Três: essa lei presume que estudante sai da escola e vai pra casa com recurso. Falar de proibição sem falar de acesso é conversa de quem nunca precisou contar moeda pra almoçar.

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  • anota_e_reza

    Transcrevo aula inteira porque não fico com nada quando o professor fala rápido. Depois estudo e faz sentido. Sem telefone não ia. Mas o problema não é o celular, é que ninguém me ensinou a reter.

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  • TalitaMoreira

    A lei diz "uso pedagógico mediante orientação do profissional". Mas quem define isso? Cada professor decide à sua maneira ou é centralizado? Porque se é caos, resolve diferente.

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  • Rogerio

    Na logística, treinávamos tudo no papel até uns quinze anos atrás. Depois passei a ensinar gente nova através de vídeo, aplicativo, manual no celular. O resultado: quem consegue usar a ferramenta sem virar escravo dela aprende mais rápido. Saber quando desligar e quando ligar virou tão importante quanto qualquer conteúdo que professor passa. Não tenho certeza se escola ensina isso.

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  • LarissaAmaral

    Falar de Lei nº 15.100 como "equilibrada" é fácil quando a pessoa tem internet em casa. Eu aprendo a aula gravada no celular à noite, depois que os filhos dormem. Proibir durante a aula, tudo bem, mas pra quem o aparelho é a única porta de acesso, é um jeito de empurrar gente como eu pra fora.

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  • JUBIRILDO

    Irônico que estou em aula vaga, lendo um texto sobre celulares, através de um e ainda concordando com a proposta. O problema, é que nossa sociedade, a humanidade no caso, está sendo explorada por um sistema que se fortalece através da falta de atenção. Quanto menos foco, melhor. Lutar contra isso, é lutar contra o mundo atual. E isso não é tão simples assim. Concordo em fugir dos extremos. Mas convenhamos que na sociedade brasileira o problema não é apenas o uso dos celulares. De tudo que aprendemos na escola, pouca coisa tem um uso real na vida do brasileiro médio. O nosso meio de aprendizado escolar, se resume em memorização, e não em uso constante. Isso trás uma falsa sensação de conhecimento. Logo após, a matéria é subsistituida por outra, sendo esquecido completamente o conhecimento "obtido". Os únicos que florescem realmente no meio escolar, são alunos que tem contato com o conhecimento por fora do meio escolar. Através de pesquisas na internet e em livros. As pessoas precisam de sentindo para aprenderem e seguirem ideais. Quando o sistema escolar não entrega conhecimento realmente aplicável, perspectiva de vida real após a escola e não apenas um mero diploma sem significado. Todavia, entendo seu ponto e concordo com ele. Devemos para de matar a educação e o conhecimento antes de lutar contra todo esse sistema.

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  • Iracema

    Trinta e dois anos de sala de aula me ensinaram que o problema não é o objeto. É o que a gente faz com a atenção dentro daquela porta. Passei quarenta anos vendo a concentração mudar: primeiro rádio ao fundo, depois TV na casa do aluno, agora o celular. A forma como a gente pensa mudou mesmo. Quando eu alfabetizava criança, ela memorizava por repetição. Hoje memoriza por conexão e busca. Se o professor insiste em competir com isso em vez de ensinar para isso, a lei resolve muito pouco.

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