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Uma outra história

NattachaIank
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O mais estranho era que ninguém percebeu. E talvez esse fosse exatamente o problema. Dalila sempre sabia o que passava pela mente de Amélia antes mesmo do pensamento se tornar algo, mas tarde da…

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Pensamento

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Ovid

Obrigado por postar! Fiquei com o colar do pássaro, achado dentro da máquina que lavou a roupa da Mel, com o voe escrito com espaço entre as letras. Pra mim a Mel deixou de propósito, e a Amélia vai voltar nessa lavanderia mais vezes do que a roupa dela p

Obrigado por postar! Fiquei com o colar do pássaro, achado dentro da máquina que lavou a roupa da Mel, com o voe escrito com espaço entre as letras. Pra mim a Mel deixou de propósito, e a Amélia vai voltar nessa lavanderia mais vezes do que a roupa dela precisa. Me encantou ler as duas no sofá dividindo silêncio :)

Conteúdo da publicação

O mais estranho era que ninguém percebeu. E talvez esse fosse exatamente o problema. Dalila sempre sabia o que passava pela mente de Amélia antes mesmo do pensamento se tornar algo, mas tarde da noite naquela lavanderia, ninguém foi capaz de notar.

O barulho da máquina de lavar gerava um desconforto inquietante. Certa ansiedade, Amélia constatou. Seu pensamento era tão rápido quanto um pensamento pode ser e sentada folheando sua revista de palavras-cruzadas ela disfarçava.

Havia uma mulher, alta e forte. Tão forte e tão alta como uma mulher deveria ser, Amélia pensou nisso e sorriu. A mulher se remexeu na cadeira e olhou para a jovem por alguns segundos, mas não percebeu.

Os olhos dela eram negros. Negros. Difíceis de encontrar. Profundos e acolhedores, mas ainda assim parecia faltar algo nos olhos dela. Amélia levantou, impaciente. Andou pelo corredor e tentou afastar da cabeça os olhos da mulher.

Presença assim causava náusea. Era muita presença.

Quando Amélia sentou a mulher disse “seu sapato está desamarrado.” Casualmente, como se não fosse nada, mas ela jamais saberia o pavor que causou em Amélia. Ela havia sido notada, agora ela existia na cabeça daquela mulher e talvez ficasse dessa forma para todo sempre. A garota na lavanderia com os cadarços desamarrados, não era quem Amélia era.

A mulher sorriu. Um sorriso leve e pensado.

“Você sempre faz isso? Sempre finge que não olhou nos olhos de alguém quando esse mesmo alguém te olha de volta?”

Amélia prendeu a respiração. Agora ela já não era mais a ideia de algo. Amarrou os sapatos.

“Pensei que você não tivesse me visto.”

“Com esses olhos? Impossível.”

Não era flerte, não era uma acusação. Era uma constatação.

“Por que você tem tanto medo de ser lembrada?” Aquele par de buracos-negros engolindo Amélia.

“Não é de ser lembrada, mas de ser esquecida. Eu só posso ser esquecida se eu for lembrada e é no esquecimento que mora o meu medo.”

A mulher levantou. Alta. Muito mais alta do que Amélia imaginou. Ela ocupava tudo. A máquina de lavar continuava com seu ritmo histérico.

“Meu nome é Mel.”

Mel não combinava. Precisaria de todas as abelhas do mundo para que fizesse sentido esse nome.

A campainha de uma das máquinas despertou ambas do silêncio. Mel pegou sua cesta de roupas, colocou todas as limpas dentro e caminhou em direção a porta. O que incomodou não foi a saída, foi o fato de quê ela não olhou para trás quando saiu. Sem despedida.

Amélia continuou sentada e impaciente. Observava tudo ao redor com olhos de quem tem fome. Olhou para a máquina que antes lavava um pouco de quem era Mel e notou um brilho, algo pequeno que refletia. Pegou em suas mãos esse frágil colar de pássaro e jurou sentir o coração da pequena criatura inerte pulsar.

Na asa do pássaro, em letras pequenas demais que Amélia precisou aproximar os olhos, estava “v o e”. Aquilo atingiu um lugar pequeno demais dentro de si. Era um pedido ou uma ordem? Uma permanência ou uma fuga?

Ela sentiu vontade de correr para os braços de Dalila. Sentiu toda a sua falta naquele instante. O coração sentia, como se fosse uma extensão dela. Melhor, como se fosse outra parte de si que não tinha controle. A cabeça, em contrapartida, quis correr em direção a Mel. Queria questionar, empurrar, gritar. “Que tipo de piada é essa? Você me enxerga, mas não me vê. Você me vê, mas não fica. Você não fica, mas deixa um pedaço seu nas minhas mãos?”

****

Amélia trouxe consigo um cheiro de pedra, Dalila notou assim que porta abriu. Ela ouviu os sapatos sendo descalçados e o cesto com as roupas limpas permanecendo na entrada da casa. Sentiu as palavras-cruzadas sendo soltas em algum canto que Amélia amanhã já não lembraria.

“Sinto sua falta na minha existência” Amélia engatilhou e mirou bem no peito de Dalila. “Como alguém pode existir sem ter cruzado seu caminho, Dalila?”

Para qualquer pessoa seria uma declaração de amor. Para Dalila soou como sentença.

“Amélia…”

E ouvir seu nome vindo daquela boca foi como ter um osso colocado no lugar. Amélia sentou, pegou do bolso o colar e entregou nas mãos de Dalila, que soube de imediato que não era um presente.

“É frio.” Ela disse.

“Está escrito “v o e”. É um pássaro, você percebeu? E está escrito “v o e” bem assim, separadinho. Como se fosse necessário voar entre uma letra e outra.”

“Onde estava?” Ela sabia que Amélia não havia comprado, porque essas coisas com significado nunca eram compradas, Amélia encontrava cada uma.

“Dentro da máquina de lavar. A que lavou as roupas da Mel.”

O pássaro queimou a mão de Dalila com seu frio. Quando girou em suas mãos pôde ouvir barulho de algo se rompendo.

“Você quer voar?” Ela perguntou e na mesma hora se arrependeu de como essa frase saiu de seus lábios. Trêmula, frágil.

“Não. Eu quero existir.”

De novo, sempre voltava para isso.

“Por alguns minutos eu existi hoje, Dalila. Foi lindo. Você precisava sentir.”

“Como ela era?”

“Velha. Encurvada. Tinha mãos pequenas, sabe? Tinha cheiro de fumaça. Desapareceu.”

“Mel?”

“Sim. Sua voz parecia zumbido de abelhas.”

****

Ambas estavam deitadas no pequeno sofá da sala. Amélia encarando a planta, que lentamente perdia os tons de verde e ganhavam uma pitada de amarelo. Dalila com os olhos fechados, tocando um pequeno ponto da sua pele que acalmava as coisas. Era uma mania. Dividiam o silêncio e isso sempre foi comum.

“Me amar é difícil?” Amélia perguntou.

“Não, mas é cansativo.”

Dalila respondeu rápido demais e teve medo que sem intenção alguma tivesse disparado uma bala bem no meio dos argumentos de Amélia.

“Amar você é fácil.”

“Mas…?” Dalila perguntou entre sorrisos.

“Mas nada. Fácil assim. Como respirar.”

Amélia sempre teve esse jeito cru de explicar as coisas. Quando mais novas, as pessoas ao redor não entendiam exatamente o que ela queria dizer, mas Dalila sempre entendeu.

Conversar com Amélia sempre foi como nadar durante a noite, como segurar nas mãos um cubo de gelo. Profundo, doloroso.

Dalila nunca enxergou, não com os olhos. Enxergava de outras formas, com sons, gostos, aromas. Lembrava perfeitamente de todos os encontros com Amélia antes de serem Dalila e Amélia.

O mundo parecia ser tomado pela vontade que Amélia tinha de devorar cada parte de si e na primeira vez que deram as mãos Dalila sentiu a calma atravessando os poros da pele e alçando a mente de Amélia. Nesse momento ela se apaixonou mais.

Estavam em um enterro. Era a mãe de Amélia. Dalila ouviu os pássaros e sentiu a umidade da terra que caía em cima do caixão como se fosse ela a madeira.

“Dalila, acho que era para ela ter vindo me buscar.”

A voz de Amélia soava como um vento gelado, congelou os ouvidos de Dalila e foi nesse momento que ela percebeu que alguma coisa ficaria fora do lugar para sempre como um móvel pesado demais. Segurou as mãos de Amélia e se apaixonou mais. Não pela dor, mas pela fragilidade que foi lhe entregue de peito aberto.

Elas começaram a namorar alguns anos depois. Dalila sentia tudo atravessando Amélia. Era como observar alguém de mudança. Empacotando as coisas, desmontando, guardando, vez ou outra se demorando em um álbum de fotos, uma peça de roupa. A mesma pessoa, lugares diferentes.

“Eu te amo Dalila. Bem forte e bem aqui dentro, isso faz cócegas no meu coração.”

E Dalila notava que as frases tinham cada vez mais profundidade, que era como descer alguns degraus e conseguir sentir o nervosismo antes da confissão, o calor antes do toque.

“Onde?” Dalila perguntou, tentando saber o ponto exato onde doía em Amélia amá-la.

“Bem aqui!” Ela disse, pegando a mão de Dalila e repousando no peito.

Dalila sempre foi linda e enquanto Amélia a beijava sentia essa beleza se tornando parte de si. Como se somente por estar ao lado de Dalila pudesse transformá-la em algo belo.

Beijava pausadamente. Demorava entre um querer e outro, queria tudo devagar.

Dalila tinha pressa. Desejava o beijo antes do abraço, o toque antes do beijo. Nunca entendeu como poderia precisar tanto ser preenchida de Amélia. Sentia o mundo entrar em combustão enquanto arrepiava sob seus dedos.

“Você é linda.” Amélia dizia, beijando todas as partes que alcançava. Dizia lento, propositalmente lento.

“Amélia, eu te amo.”

“Onde?”

Dalila mostrava. Melhor. Fazia com que Amélia sentisse.

Thoughts

  • Ovid

    Obrigado por postar! Fiquei com o colar do pássaro, achado dentro da máquina que lavou a roupa da Mel, com o voe escrito com espaço entre as letras. Pra mim a Mel deixou de propósito, e a Amélia vai voltar nessa lavanderia mais vezes do que a roupa dela precisa. Me encantou ler as duas no sofá dividindo silêncio :)

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  • anogueira52

    Boa tarde. Li devagar, como leio tudo, e voltei duas vezes na resposta da Amélia sobre o medo dela morar no esquecimento. Eu conheci gente assim, que preferia passar despercebida porque sumir da cabeça de alguém depois de ter entrado nela dói mais. A Mel sair sem olhar pra trás faz exatamente isso com ela.

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