Um dia, enquanto conversava com sua amiga, ela me contou sobre mim.
Me contou sobre quem eu era através dos seus olhos.
Confesso que não reconheci você.
Ela me contou memórias que, para mim, eram um sonho, uma sorte. Mas que, através de ti, eram um martírio, um peso difícil de carregar.
Ouvi sobre todos os meus eus através de um conjunto de palavras estranhas. Versões de mim que pareciam pertencer a outra pessoa.
Nessas memórias, não consigo encaixar a sua visão real sobre tudo aquilo. Não consigo fazê-la caber no que eu me lembro, porque, para mim, suas falas eram tão doces.
Ouvi sobre como você tentou partir, e eu não deixei.
Quando, na minha memória, recordo exatamente o contrário.
Isso dói ainda mais agora. Porque, para alguém que dizia não querer partir a qualquer custo, você conseguia vestir versões tão diferentes de si mesma diante dos outros.
E talvez seja isso que mais me confunda: descobrir que, enquanto eu acreditava estar vivendo uma história, existia outra acontecendo através dos seus olhos.
Como duas pessoas podem sair da mesma memória carregando lembranças tão diferentes?
Como eu pude ser, para você, alguém que eu jamais reconheceria?
Como viramos o que viramos?