Uma casinha pequenina
UMA PEQUENA CASINHA
UMA PEQUENA CASINHA
S. Mário Silva Souza
CONTO LITERÁRIO • MEMÓRIAS
1ª edição artesanal | Setembro de 2026
UMA PEQUENA CASINHA
Ficha técnica
Autor: S. Mário Silva Souza
Gênero: Conto literário / Memórias
Edição: 1ª edição — setembro de 2026
Projeto: Edição artesanal de leitura
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UMA PEQUENA CASINHA
Sumário
Prefácio: Onde as casas não caem
Capítulo 1: A Pequena Casinha
Capítulo 2: O Retorno
Capítulo 3: Os Pais
Capítulo 4: A Riqueza que Não Tínhamos
Capítulo 5: A Irmã
Capítulo 6: O Boizinho do Chorinho Torto
Capítulo 7: O Velório
Capítulo 8: A Cruzinha
Capítulo 9: A Pequena Casinha Se Tornou Grande Demais
Capítulo 10: O Luto
Capítulo 11: O Menino Cresceu
Capítulo 12: A Estrada
Capítulo 13: A Casa
Posfácio: O que permanece
Epílogo do leitor
UMA PEQUENA CASINHA
Onde as casas não caem
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Há livros que não nos pedem para serem lidos, mas para serem habitados. Uma Pequena Casinha é um deles. S. Mário não escreve sobre uma casa de paredes e telhas, escreve sobre a casa que carregamos dentro — aquela que não desaba porque não foi feita de tijolo, mas de vozes, de cheiros, de um café coado num pano velho.
O que torna esta história universal é justamente sua escala mínima. Todos tivemos, em algum ponto, uma mesa pequena demais para tantos. Um pai que falava pouco e dizia tudo com as mãos rachadas. Uma mãe que amava tirando o melhor pedaço do próprio prato. E quase todos guardamos, sem saber onde, um luto por alguém que partiu cedo demais para aprender nosso nome inteiro.
A força deste conto está na sua recusa ao grandioso. Não há aqui grandes feitos, apenas pequenos gestos que, vistos de longe, revelam-se gigantes. É um livro sobre aprender que partir não é esquecer, e que voltar não é encontrar a casa como a deixamos, mas encontrar a casa como ela ficou em nós. Que você, leitor, feche estas páginas com a sensação de ter acendido, por um instante, a luz da sua própria casinha.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 1
A Pequena Casinha
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O balanço — duas cordas, uma tábua e o mundo inteiro indo e voltando.
A vida passa e as memórias ficam. Talvez essa seja a única forma de permanência que nos foi concedida.
A pequena casinha estava abandonada havia tantos anos que parecia ter aprendido a viver sem ninguém. Permanecia de pé no mesmo pedaço de terra, silenciosa, cercada pelo mato, como quem ainda esperava por pessoas que já não sabiam o caminho de volta.
Quem passava pela estrada via apenas uma casa velha. Paredes gastas. Pintura descascada. Telhas cansadas. Uma janela que já não fechava direito. Mas quem havia vivido ali via outra coisa.
Via a mesa de madeira, pequena demais para tantos, onde todos se sentavam apertados. Via o café passando pelo coador de pano. Via a fumaça subindo do fogão a lenha. O rádio chiando no canto da sala. A janela rangendo quando o vento entrava. Os pratos sendo lavados enquanto alguém contava uma história. As coisas pequenas.
Naquele tempo, pareciam pequenas mesmo. Hoje, seriam tudo.
A voz de mamãe chamando para a mesa. O barulho da porta quando papai chegava. Os passos no corredor. O cheiro da comida. Uma risada vindo do quintal. O simples fato de saber que havia alguém ali.
Eu jamais imaginava que sentiria falta até da voz de minha mãe — daquela voz que tantas vezes me irritava quando chamava meu nome apenas para mandar que eu fizesse alguma coisa. Hoje, daria tudo para ouvi-la novamente. Até a bronca teria outro som. Até meu nome, pronunciado por ela, seria uma forma de felicidade.
E havia Laurinha. Seu choro era tão baixinho que, ainda assim, atravessava a noite e me acordava. Às vezes eu reclamava. Não sabia que um dia sentiria falta daquele pequeno choro. Hoje, fecharia os olhos apenas para ouvi-lo outra vez.
Queria lembrar de seu rosto sorrindo. Mas algumas lembranças chegam incompletas. Talvez porque a vida também seja feita daquilo que não conseguimos guardar.
As crianças cresceram. Depois saíram. Cada uma levou consigo um pedaço daquela casa. Ninguém percebeu. Foram embora levando roupas, sonhos, medos e fotografias. Levaram o futuro nos olhos. E deixaram para trás aquilo que acreditavam poder encontrar novamente. Mas o tempo não devolve os lugares da mesma maneira.
A pintura desapareceu. As telhas começaram a ceder. A janela perdeu uma das folhas. O mato tomou o caminho. A chuva entrou por onde antes entrava o sol. E a casa envelheceu.
O tempo também entrou. Passou pelos cômodos vazios. Sentou-se à mesa. Deitou-se sobre os móveis. Levou quase tudo. Quase.
Porque algumas coisas não obedecem ao tempo. Quem encosta a mão naquela porta ainda pode ouvir a cozinha. Mamãe está ali. Papai chega cansado. Uma criança corre pelo quintal. O rádio continua chiando. A panela ferve. Por alguns segundos, a casa deixa de ser ruína. Volta a ser lar.
No fundo do quintal, a árvore antiga continua de pé. Foi ali que houve um balanço. Duas cordas. Uma tábua. E uma criança que acreditava que o mundo inteiro cabia naquele movimento de ir e voltar.
— Só mais um pouco!
— Já chega!
— Só mais um pouco!
Talvez a infância seja justamente isso: uma coisa que termina enquanto a gente ainda está pedindo mais um pouco. Mais um domingo. Mais uma tarde. Mais uma conversa. Mais uma noite com todos à mesa. Mais uma vez a voz da mãe. Mais uma vez o pai chegando pela porta. Mais uma vez a casa cheia. Mais uma vez Laurinha.
Depois crescemos. E passamos o resto da vida tentando voltar para lugares onde já não podemos morar. O tempo muda o lugar das coisas. A memória, não. Ela abre portas que já não existem. Acende luzes em quartos vazios. Devolve passos aos corredores. Devolve vozes a pessoas que o silêncio levou.
Talvez seja por isso que algumas casas nunca fiquem completamente abandonadas. Enquanto houver alguém capaz de lembrar, haverá uma pequena luz acesa dentro delas.
A pequena casinha não existe mais como antes. Mas existe. Existe toda vez que alguém fecha os olhos e volta para casa.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 2
O Retorno
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Numa tarde de agosto, alguém voltou.
O carro parou diante da estrada de terra. O homem permaneceu alguns minutos com as mãos sobre o volante. A casa parecia menor. Ou talvez fosse ele que tivesse crescido demais.
Desceu. O portão rangeu. O mesmo rangido. Caminhou devagar pelo quintal. A árvore ainda estava lá. O balanço, não.
Parou diante da porta. Colocou a mão sobre a madeira. Ficou assim por alguns segundos. Depois abriu.
Poeira. Uma cadeira caída. A mesa encostada na parede. Um relógio parado. O relógio de mamãe. Ela dizia que estava sempre atrasado. Papai dizia que estava certo.
— Então o mundo é que está errado — ele costumava responder.
Sorriu. Havia muito tempo que não sorria daquele jeito. Na parede estavam as marcas feitas a lápis. Alturas. Idades. Anos. Passou o dedo sobre uma delas. Seis anos. Lembrou-se de mamãe encostando a mão sobre sua cabeça.
— Está crescendo.
Ele não gostava quando ela dizia aquilo. Queria continuar pequeno. Naquele dia, não sabia que passaria a vida tentando voltar para aquele tamanho.
Abriu uma gaveta. Encontrou uma caixa de papelão. Fotografias. Cartas. Um pequeno pedaço de fita. E, entre as fotografias, uma frase escrita pela mãe:
“Quando você voltar, procure aquilo que ainda está aqui.”
Sentou-se no chão. A casa estava vazia. Mas ele não estava sozinho.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 3
Os Pais
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Durante muito tempo, ele acreditou que pai e mãe sempre tinham existido. Como se tivessem nascido já dentro daquela casa.
Papai falava pouco. Acordava antes do sol. Saía para trabalhar quando o céu ainda estava escuro. Voltava com as mãos rachadas.
Mamãe falava mais. Falava enquanto cozinhava. Falava enquanto varria. Falava enquanto esperava.
— Menino, vem comer!
— Já vou, mamãe!
— Esse “já vou” nunca chega!
Ele chegava. Sempre chegava.
Papai quase nunca dizia que estava cansado. Sentava-se à mesa. Mamãe colocava comida em seu prato. Às vezes tirava o melhor pedaço do próprio prato e colocava no dele. Papai fingia não perceber. Era assim que se amavam. Sem grandes palavras.
Uma noite, ouvi os dois conversando.
— Será que vai dar?
— Vai.
— E se não der?
Papai ficou calado. Depois respondeu:
— A gente faz dar.
Mamãe riu baixinho. Aquela risada ficou na casa durante muitos anos.
Um dia, já adulto, compreendi que seus pais também tinham sido jovens. Tinham sonhos. Tinham medos. Tinham planos que nunca contaram a ninguém. Mas ele só os conhecera como pai e mãe.
Talvez seja esse um dos mistérios do tempo: só descobrimos que nossos pais eram pessoas quando já não podemos perguntar quem eles foram.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 4
A Riqueza que Não Tínhamos
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A pequena casinha não tinha luxo. Não tinha celeiro grande. Não tinha gado. Papai trabalhava na terra dos outros.
Durante dois anos trabalhou para o Coronel José de Julião. Um homem de muitas terras.
Um dia, papai voltou mais cedo. Colocou a enxada contra a parede. Mamãe olhou para ele.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não volto mais.
— Por quê?
Papai olhou para as próprias mãos.
— Lá a gente trabalha para ficar devendo. — Fez uma pausa. — Aqui a gente trabalha para ficar de pé.
Na pequena casinha havia pouco. Milho. Feijão. Alguns ovos. Lenha. Mas havia uma mesa. E, ao redor dela, sempre cabia mais alguém.
Certa vez, o Coronel passou a cavalo. Parou diante da casa. Olhou para papai.
— Você trabalha tanto e continua com tão pouco.
Papai apoiou a enxada no chão.
— Coronel, lá eu tinha mais e era menos. — Olhou para a casa. — Aqui eu tenho menos e sou mais.
O Coronel foi embora. Papai voltou ao trabalho.
Anos depois, ele morreu. Não deixou dinheiro. Deixou a casa. E deixou gente. Muita gente apareceu no enterro. Alguns vieram de longe. Outros vieram a pé. Trouxeram flores. Trouxeram café. Trouxeram histórias.
Naquele dia, compreendi que há riquezas que não cabem em escritura.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 5
A Irmã
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Laurinha era pequena. Tão pequena que cabia inteira no braço de mamãe. Chegou fraca. Chorava baixinho. À noite, seu choro atravessava a casa e me acordava.
— Mamãe...
— O que foi?
— Laurinha está chorando.
Mamãe levantava. Pegava minha irmã no colo. Sentava na cadeira de balanço. E cantava. Baixinho.
Papai entrava na ponta dos pés. Colocava a mão sobre a cabeça dela. Ficava olhando.
Eu gostava de ficar perto. Às vezes, Laurinha abria os olhos e me procurava. Eu chegava mais perto do berço.
— Sou eu.
Ela não podia responder. Mas mexia os braços. Eu achava que entendia. Talvez entendesse mesmo.
Certa tarde, sentei ao lado dela. Ela estava acordada. Fiquei olhando para suas mãos pequenas. Segurei um de seus dedos. Ela fechou a mão. Eu ri.
— Você é forte.
Mamãe, que estava perto do fogão, olhou para nós.
— Ela é sua irmã.
— Eu sei.
— Então cuide dela.
Olhei para Laurinha.
— Vou cuidar.
Eu não sabia que teria tão pouco tempo para cumprir aquela promessa.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 6
O Boizinho do Chorinho Torto
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O boizinho do chorinho torto — pequeno, torto, do jeito que foi feito. Nosso.
Eu queria dar um presente para Laurinha. Mas não tinha dinheiro. Então fiz um boizinho de barro.
Peguei terra no fundo do quintal. Misturei com água. Amassei até ficar firme. Fiz o corpo. Depois as pernas. Os chifres ficaram tortos. Uma perna ficou maior que a outra. O focinho também não ficou direito. Olhei para ele e achei feio. Mesmo assim, gostei. Era meu. E seria dela.
Levei o boizinho para Laurinha. Ela estava no colo de mamãe. Coloquei o brinquedo perto dela. Laurinha olhou. Ficou alguns segundos em silêncio. Depois sorriu. Um sorriso pequeno. Mas sorriu. Mexeu as mãos. Esticou os dedos na direção do boizinho. Aproximei um pouco mais. Ela tentou alcançá-lo. Não conseguiu.
Mamãe sorriu.
— Gostou do presente?
Laurinha olhou para ela. Depois para mim. E sorriu novamente. Fiquei orgulhoso. Naquele momento, o boizinho deixou de ser apenas um pedaço de barro. Era um presente. Era meu jeito de dizer que eu gostava dela.
Coloquei-o perto de seu berço. Todos os dias eu passava por ali e olhava. Às vezes Laurinha também olhava. Ela nunca chegou a brincar com ele. Não teve tempo.
Uma tarde, peguei o boizinho e levei para mamãe.
— Guarda para ela.
Mamãe passou a mão sobre o pequeno animal de barro.
— Vou guardar.
Colocou-o sobre a cômoda. Fiquei olhando.
— Ele ficou torto.
Mamãe sorriu.
— Ficou bonito assim.
— Mas as pernas estão tortas.
— É porque foi você que fez.
Voltei a olhar para o boizinho. Não parecia mais feio. Parecia nosso.
Laurinha ficou doente. Depois piorou. Uma noite, o choro parou. Foi o silêncio que me acordou. Procurei o boizinho. Ainda estava sobre a cômoda. Olhei para ele. Não sabia que seria a última coisa que Laurinha receberia de mim.
Mais tarde, mamãe colocou o boizinho junto dela. Eu perguntei:
— Por que vai levar?
Mamãe respondeu:
— Porque é dela.
Fiquei olhando.
— Mas ela nem brincou.
Mamãe apertou os lábios.
— Ela gostou.
O boizinho foi com Laurinha. Pequeno. Torto. Do jeito que eu havia feito. E foi assim que um pedaço de barro ficou guardando uma parte da minha infância.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 7
O Velório
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No dia seguinte, o mestre Zé migué fez um pequeno caixão. Com as mesmas mãos que haviam feito o berço. Mamãe vestiu Laurinha de branco. E colocou o boizinho de barro junto dela.
— Para ela não ir sozinha. Foi tudo o que disse.
Dois candeeiros iluminavam o pequeno caixão. Papai havia enchido os dois até a boca. Não queria que Laurinha ficasse no escuro.
Mestre Zé Migué fizera o caixão. Não cobrou.
— Depois você me ajuda na cerca.
Dona Dezinha trouxe café. Dona Virgínia segurava a mão de mamãe.
— Deus sabe o que faz.
Mamãe olhou para ela.
— Eu sei. — Respirou. — Só queria que Ele tivesse me contado antes.
Dona Virgínia apertou sua mão. Papai ficou na porta. Olhando para a estrada. Eu fiquei junto ao caixão. O boizinho estava ali.
Sentia que alguma coisa dentro de mim tinha quebrado. Não sabia o nome. Anos depois descobriria. Era a infância.
Quando amanheceu, papai apagou os candeeiros. O querosene havia acabado. Pegou o pequeno caixão. Leve demais para um pai. Pesado demais para um homem. Caminhamos até o local do sepultamento.
A cruzinha foi feita naquele mesmo dia. Papai a colocou torta. Tentou endireitar. Não conseguiu. Deixou assim.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 8
A Cruzinha
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Perguntei:
— Ela vai ficar sem ar?
Dona Ana se abaixou.
— Não, meu filho.
— E se ela acordar?
Ela me abraçou. Não respondeu.
Papai trouxe a cruzinha. Duas madeiras pregadas. Escreveu o nome dela. LAURINHA. Depois desenhou um pequeno boi.
— Para ela saber que é dela.
Na volta, perguntei:
— Mamãe, Laurinha vai ficar sozinha?
— Não.
— Como?
Ela segurou minha mão.
— Cruzinha é endereço.
— Endereço?
— É para Deus saber onde ela mora agora. — Fez uma pausa. — E para a gente saber onde ir quando tiver saudade.
Muitos anos depois, voltei. A cruzinha ainda estava lá. Torta. Desbotada. Quase escondida pelo mato. Passei a mão sobre o nome. Laurinha. Uma vida tão pequena. Uma ausência tão grande.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 9
A Pequena Casinha Se Tornou Grande Demais
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Depois de Laurinha, a casa mudou. Ninguém mexeu nas paredes. Ninguém mudou os móveis. Mas tudo parecia diferente. O berço desapareceu. O quarto ficou vazio. Mamãe continuava entrando ali. Às vezes, permanecia alguns minutos. Depois saía.
Papai voltou a trabalhar. Trabalhava mais. Falava menos.
Uma tarde, encontrei-o sentado na varanda.
— Papai.
Ele não respondeu.
— O senhor está triste?
Ele demorou.
— Estou.
Foi a primeira vez que disse. Sentei ao lado dele.
— O meu mundo está vazio.
Olhei para a estrada. Não soube o que dizer.
Naquela noite, percebi que a casa não tinha aumentado. Nós é que tínhamos diminuído. Quando alguém parte, os cômodos parecem maiores. A mesa parece comprida. A cadeira parece distante. A casa fica cheia de lugares onde alguém deveria estar. Gente ocupa um canto da mesa. Ausência ocupa a mesa inteira.
Mamãe, um dia, colocou uma cadeira onde ficara o berço. Fiquei olhando.
— Por quê?
Ela respondeu:
— Para a casa não esquecer que aqui já houve vida. Foi tudo.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 10
O Luto
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O luto ficou conosco. Não fazia barulho. Estava no prato que mamãe colocava a menos. Na cadeira que ninguém ocupava. No silêncio depois do jantar.
Às vezes, de madrugada, mamãe acordava chamando:
— Laurinha...
Depois lembrava. E ficava em silêncio.
Papai começou a guardar pequenas coisas. Uma fita. Um pedaço de tecido. A lembrança do boizinho. Uma fotografia. Não falava sobre isso. Guardava.
Um dia, trouxe do quintal um punhado de terra. Colocou sobre a mesa. Mamãe olhou.
— O que é?
— Terra de lá.
Ela pegou uma xícara quebrada. Colocou a terra dentro.
— Agora ela está aqui também.
Sentamos os três. Ninguém falou. O café esfriou.
Naquela noite, mamãe cantou. A cadeira de balanço se moveu. O colo estava vazio. Mas a canção continuou.
Talvez o luto seja isso: continuar fazendo aquilo que se fazia para alguém que já não está. O café. A comida. A canção. A espera. E, pouco a pouco, aprender a continuar. Sem deixar de amar.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 11
O Menino Cresceu
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O tempo levou minha infância sem que eu percebesse. O balanço desapareceu. Os brinquedos desapareceram. Algumas roupas foram doadas. As marcas na parede começaram a envelhecer. Eu cresci.
Aos dezessete anos, comecei a falar em partir. Uma manhã, disse a papai:
— Quero ir embora.
Ele continuou afiando o facão.
— Há quanto tempo pensa nisso?
— Faz tempo.
— E por que não foi?
— Tive medo.
Ele parou. Olhou para mim.
— Filho não é passarinho para pai abrir ou fechar gaiola.
Fiquei calado.
— Eu quero que você fique. — Olhou para ele. — Mas não vou prender.
Apontou para a estrada.
— Essa estrada não é sua inimiga. Depois apontou para a casa. — E essa casa não é sua prisão.
Sentou-se. Ficou olhando para as mãos.
— Eu achei que teria tempo para Laurinha crescer.
Não respondi.
— Achei que teria tempo para você também.
Aquelas palavras ficaram em mim.
Antes de eu partir, papai me entregou uma fotografia. Era Laurinha.
— Leva.
— Para quê?
— Para lembrar.
— Eu já lembro.
Ele sorriu triste.
— Um dia você pode esquecer o rosto.
Olhei para a fotografia.
— Eu já esqueci um pouco.
Papai colocou a mão sobre meu ombro.
— Então leve.
— Para não esquecer?
— Para, quando esquecer, lembrar de lembrar.
Foi assim que papai me deixou partir. Não me deu dinheiro. Não me deu conselhos. Deu-me uma lembrança.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 12
A Estrada
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Parti numa manhã fria. Mamãe acordou cedo. Preparou comida para a viagem. Papai conferiu minha mala. Depois conferiu outra vez.
Mamãe me abraçou.
— Quando chegar, mande notícia.
— Mando.
— Quando puder.
— Mando.
Ela apertou meu rosto entre as mãos.
— Não esquece da gente.
Papai estava atrás dela. Não disse nada. Entrei no carro. A pequena casinha ficou diante de mim. A árvore. A varanda. A janela. A porta. E, ao longe, a pequena cruzinha.
Comecei a estrada. Não olhei para trás imediatamente. Quando olhei, a casa já parecia pequena. Muito pequena. Mas alguma coisa permanecia grande. A lembrança.
Foi então que compreendi: partir não é deixar um lugar. É descobrir quanto dele conseguimos levar.
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UMA PEQUENA CASINHA
CAPÍTULO 13
A Casa
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Voltei muitos anos depois. A estrada parecia diferente. Ou talvez fosse eu. A pequena casinha estava mais velha. O mato havia tomado parte do quintal. A janela desaparecera. O telhado estava cansado. A porta permanecia. A árvore também.
Caminhei até o fundo do quintal. Foi então que vi. Parei. Não havia apenas uma cruzinha. Havia três.
A primeira era pequena. Torta. Quase escondida pelo mato. Aproximei-me. LAURINHA. Passei os dedos sobre a madeira. Fiquei alguns segundos em silêncio. Então olhei para a segunda. Era maior. A madeira estava escura. O nome ainda podia ser lido. PAPAI. Não precisei perguntar quando. Nem como. Fiquei olhando. Depois fui até a terceira. Era mais alta. O tempo havia apagado parte da tinta. Mas eu conhecia aquela letra. MAMÃE.
Sentei no chão. Três cruzes. Três nomes. E, entre elas, toda a minha infância. O vento passou pela árvore. As folhas se moveram. Por um instante, ouvi o balanço. Dua