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Um mar para voltar a viver.

Dorand2026
Pensamento

Pensamento

AlineTeixeira

Três quilômetros sem ela embaixo e o peito dele já ardia. Quem guardava o sono dele não aparecia em conta nenhuma da viagem, só na falta.

Três quilômetros sem ela embaixo e o peito dele já ardia. Quem guardava o sono dele não aparecia em conta nenhuma da viagem, só na falta.

Conteúdo da publicação

Certo dia, um touro cansado de ser rejeitado partiu para o alto-mar.

Seu barco era simples, feito de madeira escura, sem velas, sem remos de reserva, sem qualquer promessa de retorno. Tinha apenas um par de remos e um touro que já não sabia para onde queria ir.

Seu nome era Amaro.

Ele pretendia remar até esquecer de si mesmo.

Não buscava terras distantes, tesouros ou aventuras. Queria apenas cansar o corpo o suficiente para que a alma, enfim, se calasse.

Depois de muitas horas, Amaro atravessou um túnel de pedras. As paredes eram altas e úmidas, e a água parecia negra como a noite. Sob o barco, sombras compridas acompanhavam seus movimentos.

Amaro olhou para baixo.

— Serão sereias?

Mas não havia canto algum.

Havia apenas o som dos remos entrando na água.

Então alguma coisa bateu contra o barco.

Uma vez.

Duas.

Na terceira, a madeira rachou.

Amaro levantou-se assustado e viu surgir da água uma criatura que jamais havia imaginado existir.

Era uma Hydra.

Mas tinha apenas uma cabeça.

Seus olhos eram antigos, furiosos, e sua boca revelava dentes capazes de partir a madeira do barco como se fosse galho seco.

A criatura atacou.

Amaro remou.

A Hydra perseguiu.

Durante horas, ela golpeou o barco, mergulhou sob ele e tornou a surgir. Amaro não sabia por que aquela criatura queria matá-lo, mas continuou resistindo.

A Hydra carregava uma fúria que vinha de muito longe.

Havia muito tempo, criaturas da superfície haviam matado aquele que ela amava.

Desde então, ela havia abandonado o amor.

Transformara sua tristeza em ódio e se tornara uma destruidora de aventureiros, sobretudo daqueles que atravessavam seus mares por prazer, procurando monstros para matar apenas para contar suas histórias depois.

Mas Amaro não era como os outros.

Quando finalmente alcançou o mar aberto, ergueu os remos e gritou:

— Por que me persegues, criatura? Não vês que procuro o desgaste? Não vou me entregar até maltratar todo o meu corpo!

A Hydra parou.

Pela primeira vez, compreendeu.

Aquele touro não havia entrado no mar para conquistar alguma coisa.

Havia entrado para se perder.

Ela mergulhou.

E, pouco depois, revelou-se sob o barco.

Amaro se debruçou sobre a borda, a amurada e olhou para baixo.

Então percebeu algo que não havia visto antes.

A Hydra era uma criatura feminina.

Ela o observava com olhos enormes, não mais furiosos, mas curiosos.

Amaro, desconcertado, voltou a remar para se afastar.

A Hydra desapareceu.

Por alguns instantes, houve apenas mar.

Então ela ressurgiu diante do pequeno barco.

Ergueu uma de suas garras e tocou a testa de Amaro com um pequeno ponto de luz.

Amaro recuou.

Mas não sentiu dor.

Ouviu uma voz.

Não vinha do ar.

Vinha da água.

— Por que te punes?

Amaro olhou ao redor.

— Quem está falando?

— Eu.

A superfície do mar se abriu lentamente e os olhos da Hydra apareceram.

— Sou rejeitado — respondeu Amaro. — E não consigo me afastar de mim mesmo. Então quero viver em solidão... ou remar até morrer de desgaste.

A Hydra permaneceu em silêncio.

Pela primeira vez em muitos anos, sentiu pena de uma criatura da superfície.

E passou a acompanhá-lo.

Durante toda a jornada, Amaro remava enquanto, abaixo dele, a Hydra nadava.

O barco tinha uma sombra.

Era ela.

Em certos momentos, a voz surgia debaixo da água:

— Amaro.

Ele parava.

Debruçava-se sobre a amurada e olhava para baixo.

A Hydra estava ali.

Separados por aquele espelho de água, os dois permaneciam olhando um para o outro.

— Descanse — dizia ela.

— Não posso.

— Pode.

E então Amaro percebia que seus braços tremiam.

Deitava-se no barco.

Dormia.

A Hydra permanecia abaixo dele, guardando-o.

Quando acordava, Amaro voltava a remar.

E ela continuava seguindo.

Assim, sem perceber, aquela criatura que desejava morrer jamais deixava que ele se destruísse.

Mas Amaro nunca agradecia.

Nunca perguntava por que ela o acompanhava.

Nunca percebeu que, embaixo daquele barco, alguém estava cuidando dele.

Até que a Hydra ficou triste.

Talvez tivesse confundido cuidado com esperança.

Talvez tivesse esperado que Amaro um dia olhasse para ela não como um monstro, mas como alguém.

Então, certa manhã, ela parou.

Ficou para trás.

Amaro continuou remando.

Um quilômetro.

Dois.

Três.

Até que seus braços já não obedeciam.

Seu peito ardia.

A respiração ficou pesada.

E ele caiu sobre os remos.

Foi então que percebeu o silêncio.

Olhou para a água.

Nada.

Olhou para trás.

Nada.

Seu coração apertou.

— Onde está a Hydra?

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

Então sussurrou:

— Pelos deuses... eu a rejeitei?

Pela primeira vez desde que partira, Amaro virou o barco.

Remou lentamente de volta.

Não porque queria morrer.

Não porque queria fugir.

Mas porque queria encontrar alguém.

Chegou ao lugar onde costumava vê-la boiar.

Parou.

E ficou olhando para baixo.

Durante muito tempo, não aconteceu nada.

Até que uma sombra apareceu nas profundezas.

Dois olhos surgiram.

A Hydra ergueu a cabeça.

E sorriu.

Amaro também sorriu.

Nenhum dos dois disse uma palavra.

Separados pelo espelho de água, permaneceram olhando um para o outro.

E alguma coisa dentro deles, silenciosamente, começou a cicatrizar.

Amaro percebeu que não precisava destruir o próprio corpo para fugir da rejeição.

A Hydra percebeu que amar novamente não significava necessariamente perder alguém.

E talvez aquela seja a parte mais estranha daquela história:

isso não é uma história de amor.

Eles eram diferentes demais.

Um precisava do ar.

A outra precisava da água.

O que para um era vida, para o outro poderia ser morte.

Não poderiam simplesmente abandonar suas naturezas para viver juntos.

Não poderiam respirar o mesmo mundo.

Não poderiam tocar-se sem que um deles corresse perigo.

E, ainda assim, amavam-se.

Talvez o amor não seja encontrar alguém que viva exatamente onde vivemos.

Talvez seja encontrar alguém que, mesmo vivendo em outro mundo, faça questão de nadar até a superfície.

Ou de remar até as profundezas.

E assim Amaro nunca mais remou para morrer.

E a Hydra nunca mais matou por ter medo de amar.

Eles continuaram separados pelo espelho da água.

Mas, todas as manhãs, quando Amaro remava, uma sombra surgia sob seu barco.

E todas as noites, quando a Hydra mergulhava nas profundezas, um pequeno barco permanecia acima dela.

Nunca puderam pertencer ao mesmo mundo.

Mas fizeram uma coisa muito mais difícil:

aprenderam a pertencer um ao outro.

Thoughts

  • AlineTeixeira

    Três quilômetros sem ela embaixo e o peito dele já ardia. Quem guardava o sono dele não aparecia em conta nenhuma da viagem, só na falta.

    Permalink
  • oitoemponto

    Tive que largar a leitura bem quando a Hydra ficou para trás, e voltei hoje só pra saber se ele virava o barco.

    Permalink

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