Ser filho do meio que ninguém vê direito é leitura de espera. Tipo parado na porta esperando pedido chegar. Lê igual.
Três beliches
Amar Teodoro era fácil. Fácil, facílimo, e tudo quanto era gente desse mundo afora disso se certificava, pois, tão logo conheciam Téo, já corriam para enfiar em suas mãos um dos controles de…
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Pensamento
Ser filho do meio que ninguém vê direito é leitura de espera. Tipo parado na porta esperando pedido chegar. Lê igual.
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Amar Teodoro era fácil. Fácil, facílimo, e tudo quanto era gente desse mundo afora disso se certificava, pois, tão logo conheciam Téo, já corriam para enfiar em suas mãos um dos controles de videogame, e os convites para o fliperama de Dona Áurea chegavam de imediato, sem a burocracia que atingia os novatos do bairro.
Mas, dentro de casa, naquele bendito e econômico espaço (que não se podia chamar de residência sem que um senso de humor negro se coçasse freneticamente para falar), Téo não sentia sobre si a camaradagem de pertencer a uma família totalmente masculina. Menos família e mais equipe de futebol, nenhum dos homens do seu clã parecia, na maioria das vezes, sequer disposto a açoita-lo de sacanagens fraternais de irmão. Téo poderia gemer da dor de uma fratura de braço ou mesmo perna sem que algum dos rapazes acudisse de imediato. Uma torção testicular, pensava ele, talvez fosse atroz e compreensiva o suficiente para angariar os bilhetes de seus irmãos e seu pai, rumo ao espetáculo do abraço camarada dos homens e do “poxa, essa dor é nosso maior medo, aqui e a qualquer homem deste mundo”. Sentia-se insuficiente, padecendo horrivelmente dessa insuficiência que teima em fermentar dentro de alguns garotos, cravando neles, contraditoriamente, o privilégio de ser invisível a certos tipos mais gritantes de ódio, mas também invisível ao carinho que chega sempre cheio de abraços e esparadrapo. Apenas Guga investia com mais energia contra Téo dentro de casa, despachando apelidos, sacanagenzinhas.
— Téo — disse o pai no café da manhã, a voz impessoal de vendedor comissionado—, os moleques foram hoje cedo comprar umas camisas, tem uma pilha delas em cima do sofá. Daí, quando você quiser, tire lá uma duas ou três. Bem que anda precisando.
A última frase, dita enquanto os olhos do pai desferiam críticas ao jeito “Téo” de vestir-se, não passou em branco aos ouvidos de Guga, que liquidava naquele instante uma tigela de mingau de aveia, que — prometia ele — era mais comida de macho que um punhado de carne vermelha, e coitado daquele que zombasse dessa crença.
— Téo vai poder dançar com uma menina dentro desses camisas, meu pai — escarneceu ele. — Essa finura toda que ele tem está concentrada nos ombros e nas costas, como um todo.
“Realmente assombroso”, pensou Mendez, os olhos discretamente pousados sobre o corpo de Téo. “Essas delicadezas exageradas nas mãos também me irritam para um caramba. Parece mão de menina, dessas levianas, pronta para agarrar nas costas de um motoqueiro. “
Mendez era um sujeito de corpo quadrado o suficiente para não levar desaforo pra casa, com uma largura nos ombros capaz de fazer sumir num abraço uma mulher de 1,60m. Seus reflexos eram previsíveis, como são os de todo homem de sua tribo: bastava um toque medianamente invasivo, 8m impropério dito no calor da coisa, e logo aquele corpo taludo se inflamava, e, como se operado por um comando de botão afundado de videogame, só sabia dar socos. Apreciava as mulheres, e sabia mesmo como manejá-las com menos rudeza que seus amigos de mesma idade, mas isto não lhe punha um certificado honroso o suficiente. Selecionava uma qualquer, guiando-se por critérios diferentes daqueles usados por seus amigos: importava-se menos com a medida do traseiro do que com a eficiência doméstica. A vida plena e repousante dos rapazes de Mendez não durava muito com nenhuma dessas mulheres, que logo caíam em si que haviam sido arregimentadas em vez de escolhidas pelo caminho convencional do amor e do tesão. Viam cedo que serviriam apenas de serviçal a um batalhão briguento de rapazes. Sempre acabavam envergonhadas por haverem se sentido felizes acreditando que Mendez era homem diferentes dos outros, evitando escolher a que tivesse melhor bunda ou seios. Antes ser comprada ou leiloada apenas para cama e satisfação carnal àquela cosa vexatória de estar suada diante de uma panela, ouvindo Guga exigindo o ponto ideal do mingau!
Ao todo, eram seis rapazes. Guga, o mais velho, comia e passeava pela vida como um nobre feudal desmembrado de seus níqueis; o favorito de Mendez nunca precisara barganhar coisa algum de que desejasse, pois o pai acenava-lhe favoravelmente até mesmo ante o apelo por um fruto proibido, como acobertar um caso com uma mulher casada ou rechear sua provisão de chuteiras com selo oficial. Tinha 19 anos e, sendo filho de Mendez com uma mulata de Salvador, comportava-se sob a influência que essa mescla de temperos genéticos geravam; era, não raramente, dado a pequenas bagunças no convívio familiar e a grandes badernas com mulheres.
Havia Baltazar, de dezesseis anos. Rapaz entregue a uma introversão que por vezes, e enganosamente, comparava-se à de Téo. Era, contudo, um silêncio orquestrado por engrenagens de natureza diferente, pontiagudas. Aquele que ousasse fazer com Baltazar as pirraças que Téo engolia placidamente logo atestava, empiricamente, a cruel diferença entre os dois irmãos silenciosos. A despeito dessa divergência crucial, ele, como Téo, era leitor voraz e incansável, sem que o pai soubesse.
Sebastião, o mais semelhante a Mendez em aparência, possuía dezoito, e sabia dar socos tão efetivos quanto os do pai, porém só os dava em real e irrevogável necessidade. Longe dos olhos de Mendez, desfazia num piscar a rudeza para suas mulheres, e era — uma conduta que Mendez desaprovaria — um idólatra do temperamento feminino mais genioso, gostando de amansar leoas com beijos e capaz até mesmo de chorar para que não fosse ferido de abandono.
Timóteo, de apenas treze anos, carregava o título de caçula, mesmo aceitando que em sua família o altar mais enfeitado e em relevo mais íngreme seria sempre o de Guga. Fazia-lhe bem, contudo, receber os presentes de Mendez e Sebastião, nessas ocasiões pontuais em que Timóteo, de embrulho na mão, corria ao quarto e trancava-se, deliciando-se da emoção egoísta de abrir um presente a sós.
E havia, claro, Teodoro. Rapaz de quinze anos, desses filhos surgidos no meio do caminho, quando ninguém mais sucumbe de veneração por mais um bebê. Entretanto, sem que isso fosse jamais suspeitado em sua casa, era ele o filho que mais proporcionava reações fortes em Mendez — todas reprimidas rapidamente, a fim de serem indetectáveis. Era ele filho da única mulher que Mendez amara: uma criatura danada de bonita, turista vinda do sudeste, de orgulhosos cabelos loiros e sempre com ares de ser uma esposa de membro da família real que escapulira por alguns dias. Mendez dedicara um amor que, a qualquer humano, só é possível uma vez; um sentimento ardoroso que levava, ainda hoje, a comparar a mulher com corpos celestes e contornos astronômicos, a fim de torná-la inatingível. E a guerra, sem que as mães dos outros garotos e estes jamais houvessem imaginado, estava sempre perdida para todas elas. Apenas a Mendez cabia a dureza que era ver o rosto de Téo, belo como o de Elizabeth, sem exprimir uma cara de saudade desgarrada. Téo, apesar de ter herdado do pai os cabelos negros, era notavelmente idêntico à mãe.
Olhar para Teodoro era mergulhar numa via láctea que apagara todas as luzes.
Thoughts
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PermalinkAquela parte de Teodoro pensando que uma torção testicular seria suficiente pra ganhar abraço do pai, aquilo me deixou completamente fria.
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PermalinkQue acontece depois com ele? Você vai contar mais sobre como tudo que o pai sente acaba caindo em cima do Teodoro?
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PermalinkAquele amor que o pai tem pela mãe do Teodoro é assustador demais. Tipo de obsessão que acaba virando veneno pra quem tá perto. Como você faz um filho seu pagar por amar alguém que já foi.
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PermalinkSer filho do meio que ninguém vê direito é leitura de espera. Tipo parado na porta esperando pedido chegar. Lê igual.
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PermalinkQuando você escreve sobre alguém invisível pra carinho, você tira de algo que sentiu ou só vem da imaginação? Porque lê como verdade vivida.
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PermalinkEsse menino está carregando uma tristeza que todo mundo vê mas ninguém vê mesmo. Conheço histórias assim aqui do outro lado da cadeira.
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PermalinkVocê pensou muito nessa dinâmica toda antes de escrever, ou ela veio de uma vez? Porque tem uma lógica inteira ali no jeito como tudo encaixa.
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PermalinkTeodoro invisível até pra própria dor. Isso.
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