Mãe,
eu nasci do teu corpo,
mas parece que nasci errado
aos teus olhos.
Você me ensinou a andar,
a falar,
a reconhecer o mundo,
mas quando tentei te contar
quem eu era,
você desviou o olhar.
Como pode ser tão difícil
amar a filha
que ainda sou
quando ela apenas mudou
o nome do amor?
Eu não escolhi
o caminho que fez você chorar.
Não escolhi sentir culpa
por sentir carinho.
Não escolhi esconder meus olhos
quando alguém mexe comigo,
nem aprender a engolir palavras
para não ferir teu coração.
Você diz que é só uma fase,
que um dia passa,
que eu ainda vou conhecer
“a pessoa certa”.
Mas, mãe,
e se a pessoa certa
não tiver o gênero
que você esperava?
E se eu continuar sendo eu
mesmo quando você fechar a porta,
mesmo quando disser que não entende,
mesmo quando rezar
para que eu mude?
Eu não quero que você aceite
uma versão inventada de mim.
Quero que um dia
você olhe para mim
e perceba:
eu não deixei de ser sua filha.
Eu apenas parei
de esconder quem sou.
E talvez esse seja
o meu maior medo:
não que você não compreenda
o meu amor,
mas que, por não compreender,
você esqueça
que antes de qualquer nome,
qualquer gênero,
qualquer pessoa que eu ame,
eu ainda sou
a filha que um dia
você segurou nos braços
e chamou de sua.