Pentear cabelo crespo de criança que não para quieta pede uma paciência meio dura, e a tia tinha de sobra. Minha mãe fazia igual comigo, puxava e resmungava junto, e só entendi o carinho disso quando passei a pentear os meus filhos. Deve ser por isso que a voz e as mãos ficaram juntas na sua lembrança.
Tia Nega.
Pensamento
Pentear cabelo crespo de criança que não para quieta pede uma paciência meio dura, e a tia tinha de sobra. Minha mãe fazia igual comigo, puxava e resmungava junto, e só entendi o carinho disso quando passei a pentear os meus filhos. Deve ser por isso que
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Desde os meus primeiros passos, Tia Nega estava ali, cuidando de tudo. Se alguma coisa faltasse, ela dava um jeito. Se alguma coisa estivesse fora do lugar, ela ajeitava. Se uma criança estivesse suja, ela limpava. Se alguém estivesse com fome, ela providenciava comida. E, quando ninguém sabia muito bem o que fazer, lá estava ela, com sua presença firme, resolvendo a vida dos outros como se tivesse nascido para isso.
Tia Nega era minha tia-avó, irmã da minha avó, mas, durante toda a minha infância, essa diferença de parentesco pouco significou. Ela funcionou como mãe. Foi uma dessas mulheres que a vida coloca dentro de uma família não apenas como parente, mas como coluna. Eu cresci sabendo que, em algum lugar da casa, Tia Nega estava.
Ela era disposta. Muito disposta. Tinha uma energia que parecia não acabar nunca, embora fumasse como poucas pessoas que conheci. Era fumante de alto nível, daquelas que pareciam ter sempre um cigarro por perto. E, curiosamente, também parecia ter sempre uma vassoura na mão. Cigarrinho entre os dedos, vassoura apoiada no corpo, e lá ia Tia Nega cuidar da casa, das crianças, da família e de qualquer coisa que aparecesse pelo caminho.
Quando chegava a hora de pentear meus cabelos, começava o ritual.
Ela desembaraçava meus fios crespos com aquela paciência bruta que só as mulheres antigas conheciam e, no meio das puxadas, soltava:
— Essa galega sarará!
Eu era loira e tinha os cabelos crespos, combinação que, aos olhos dela, parecia merecer aquele apelido. Era um insulto, mas daqueles que carregavam carinho. Hoje, quando lembro, consigo ouvir a voz dela e quase sentir novamente suas mãos mexendo nos meus cabelos.
Tia Nega nunca foi uma mulher de médicos.
Não me lembro de vê-la procurando consulta, fazendo exames ou falando sobre prevenção. Diziam que tinha medo. Talvez tivesse mesmo. Talvez tivesse medo de descobrir alguma coisa que não pudesse controlar. E, para uma mulher acostumada a resolver tudo com as próprias mãos, talvez fosse difícil aceitar que havia coisas que não podiam ser varridas, cuidadas ou remendadas.
Ela morava na zona rural, mas passava a semana na casa da irmã, minha avó. Vinha cuidar de todos nós e, de certo modo, aquela casa também se tornou sua. Ela deixava para trás a vida do campo e passava os dias entre crianças, tarefas, comida, limpeza e afazeres. Voltava para sua casa, mas sempre acabava retornando para a casa da família.
Tia Nega era aquilo que no Nordeste chamamos de "moça velha".
Nunca conheceu um homem. Nunca se casou. Era virgem. Não teve filhos.
Mas talvez maternidade nunca tenha sido apenas uma questão de gerar alguém.
Porque Tia Nega foi mãe de muita gente.
Foi mãe para meus tios. Foi mãe para mim. Cuidou de pessoas que não tinham saído de seu ventre, mas que haviam entrado definitivamente em seu coração. Sua vida não teve filhos registrados em certidão, mas teve crianças que aprenderam a chamá-la quando precisavam de cuidado.
E talvez tenha sido justamente por cuidar tanto dos outros que tenha aprendido a não cuidar de si.
Na velhice, apareceu uma mancha em seu braço.
No começo, talvez parecesse apenas uma marca. Depois, começou a crescer.
As pessoas perceberam. Ela também.
Mas Tia Nega tinha medo de médico.
E não foi.
A mancha cresceu.
Ela sentia dor, mas continuava insistindo que não iria procurar ajuda. Talvez acreditasse que aquilo passaria. Talvez tivesse medo de ouvir uma sentença. Talvez simplesmente não soubesse que, naquela altura, ainda poderia existir uma possibilidade de tratamento.
Era câncer de pele.
E o câncer, silenciosamente, foi tomando aquilo que ela havia passado a vida inteira oferecendo aos outros: sua força.
Tia Nega não fez tratamento. Sentiu dor. Resistiu. Não quis ir ao médico.
E morreu sem nunca saber se poderia ter escapado daquele câncer.
Essa é talvez a parte mais dolorosa da lembrança: não saber.
Não saber se haveria outro caminho. Não saber se um diagnóstico mais cedo teria mudado sua história. Não saber se aquela mulher que passou a vida inteira cuidando de tanta gente poderia ter sido cuidada por alguém.
Hoje, quando penso nela, não penso apenas na doença.
Penso na vassoura.
No cigarro.
Nas mãos puxando meus cabelos.
Na voz me chamando de "galega sarará".
Penso na mulher que não teve filhos, mas foi mãe.
Na mulher que não procurava médicos, mas cuidava de todo mundo.
Na mulher que saiu da zona rural para passar a semana cuidando da família.
E penso que algumas pessoas continuam existindo mesmo depois de morrer, não porque venceram a morte, mas porque deixaram suas pequenas marcas nas pessoas que amaram.
Tia Nega deixou muitas.
E, entre todas elas, ficou uma menina loira de cabelos crespos que ainda consegue ouvir sua voz.
Sinto sua falta, Tia Nega.
Thoughts
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PermalinkMulher de cigarro numa mão e vassoura na outra eu conheço de muita casa por aí. Chega, arruma, bota comida pra todo mundo e vai embora sem ninguém perguntar se ela comeu. Rezo por umas assim faz anos e nunca disse isso pra nenhuma delas.
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PermalinkPentear cabelo crespo de criança que não para quieta pede uma paciência meio dura, e a tia tinha de sobra. Minha mãe fazia igual comigo, puxava e resmungava junto, e só entendi o carinho disso quando passei a pentear os meus filhos. Deve ser por isso que a voz e as mãos ficaram juntas na sua lembrança.
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