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Avó

LuAndrade

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A avó que eu acreditava ter

Maldita, diz-me: o que eu era para ti? Uma empregada a quem se podia pisar, humilhar e reduzir ao silêncio? Ou simplesmente uma criança que nunca teve o direito de ser criança dentro da tua casa?

Desde o começo, parece que o meu lugar já estava decidido. Não como neta, não como alguém que merecia acolhimento, carinho ou proteção, mas como alguém que devia servir. Eu limpava, arrumava, fazia o que me mandavam, enquanto aprendia, pouco a pouco, que o meu esforço nunca seria suficiente. Sempre havia algo errado, algo a corrigir, alguma coisa pela qual apontar o dedo. E, entre uma tarefa e outra, vinham as palavras, as humilhações, o jeito de me fazer sentir pequena dentro de um lugar onde eu deveria ter me sentido segura.

Éramos apenas eu e meu irmão. Os únicos netos que tinhas: os filhos daquele que também era teu enteado de sangue, fruto de uma história que existia antes de ti. Mas que culpa tínhamos nós por isso? Que culpa tínhamos de nascer de uma história que não começou contigo? Não escolhemos nossa origem, não escolhemos as circunstâncias, muito menos merecíamos pagar por algo que jamais esteve sob o nosso controle.

E não era apenas comigo. Também foste rude com a minha mãe, como se a tua dureza precisasse alcançar todos aqueles que, de alguma forma, pertenciam à minha história. Diante dos outros, eras capaz de parecer outra pessoa. Havia uma versão tua que o mundo podia admirar, uma imagem que nem todos conseguiam atravessar. Mas algumas pessoas viram. Algumas conheceram aquilo que existia por trás da aparência, aquilo que eu conhecia tão bem e que, tantas vezes, parecia impossível de explicar.

Eu ainda era criança quando me expulsaste da tua casa pela primeira vez. Eu passava muito tempo na casa do meu pai, e a tua reação me fez sentir que a minha ausência era um problema porque já não havia quem limpasse a tua casa. Como se o que realmente te fizesse falta não fosse a minha presença, mas o trabalho que eu fazia. Naquele momento, talvez eu não soubesse colocar em palavras o que aquilo significava, mas alguma coisa em mim entendeu. Entendeu que o meu lugar ali podia desaparecer quando eu deixasse de ser útil.

Os anos passaram. Saí da casa do meu pai e fui morar com a minha mãe, mas nem ali encontrei a paz que uma criança deveria ter. Também havia dores, também havia coisas que me feriam. E, quando a vida me levou de volta para ti, já adolescente, aceitei o teu acolhimento como quem encontra uma porta entreaberta depois de muito tempo sem saber onde poderia ficar.

Talvez eu tenha confundido aquela porta aberta com uma nova oportunidade. Talvez tenha acreditado que, dessa vez, poderia ser diferente. Eu estava crescendo, trabalhando, tentando juntar o meu próprio dinheiro, sonhando com o dia em que finalmente conseguiria ter um canto meu e não precisaria depender de ninguém. Eu só queria construir a minha independência, ter o direito de escolher os meus caminhos e deixar para trás a sensação de estar sempre em dívida com alguém.

Mas até isso parecia incomodar.

O valor que eu pagava para morar contigo aumentou, enquanto as obrigações continuavam. Eu precisava limpar a tua casa, inclusive a sujeira deixada pelos teus próprios filhos, meus tios, como se aquela responsabilidade também fosse naturalmente minha. E, mesmo fazendo o que esperavam de mim, ainda havia reclamações, cobranças e humilhações. Eu trabalhava, tentava guardar dinheiro, cumpria minhas obrigações e, ainda assim, parecia não ter direito nem à liberdade de sair sem sentir que estava fazendo algo errado.

Que tipo de amor transforma a convivência numa dívida interminável? Que tipo de cuidado faz alguém sentir que precisa merecer o direito de existir dentro de casa?

Passei tanto tempo tentando entender o que havia de errado comigo que, por vezes, esqueci de perguntar o que havia de errado na maneira como me tratavas. Carreguei palavras que não deveria ter precisado suportar, culpas que não me pertenciam e lembranças que continuam voltando mesmo quando tento deixá-las no passado. Há coisas que terminam no calendário, mas não terminam dentro da gente.

E eu sinto raiva. Uma raiva imensa, antiga, que cresce quando lembro das acusações, das injustiças e de todas as vezes em que precisei engolir o que sentia para continuar vivendo sob o mesmo teto. Sinto raiva por ter sido tão pequena diante de tudo aquilo. Sinto raiva por não ter podido simplesmente ir embora quando doía, por ter precisado esperar, trabalhar, juntar dinheiro e sonhar com uma liberdade que tantas outras pessoas recebem sem sequer precisar pedi-la.

Mas o que mais me enfurece talvez seja isto: apesar de tudo, uma parte de mim ainda procura alguma coisa em ti.

Ainda existe em mim uma menina que queria ser amada pela avó. Uma menina que talvez ainda espere um gesto de carinho, uma palavra gentil, um pedido de desculpas que reconheça que ela não merecia nada daquilo. E eu odeio admitir isso. Odeio que, mesmo depois de tantas feridas, ainda exista em mim esse desejo tão simples e tão doloroso. Como se eu continuasse esperando que um dia tu te tornasses a avó de que precisei.

Porque não sinto falta apenas do que aconteceu. Sinto falta, principalmente, do que nunca aconteceu. Do colo que não encontrei, da proteção que não senti, da segurança que deveria existir na tua presença. Sinto saudade de uma avó que talvez eu tenha inventado para conseguir suportar a ausência daquela que realmente tive. Uma avó que me acolheria sem me fazer sentir um peso, que me ouviria sem me diminuir, que me amaria sem transformar esse amor em cobrança.

E é difícil fazer o luto de alguém que continua viva. É difícil aceitar que a pessoa de quem ainda desejamos carinho também pode ser a origem de algumas das nossas dores mais profundas. Não há despedida clara, não há um último adeus que encerre tudo. Há apenas essa contradição: querer distância para conseguir respirar e, ao mesmo tempo, desejar que ela finalmente venha atrás de nós com o amor que sempre esperamos.

Talvez nunca entendas o que fizeste comigo. Talvez nunca reconheças a dimensão das marcas que deixaste. Talvez, na tua versão da história, eu seja ingrata, difícil ou culpada por coisas que nunca fiz. E essa possibilidade também dói: saber que posso passar a vida inteira tentando explicar a minha dor a alguém que talvez nunca queira escutá-la.

Mas estou cansada de procurar em mim a culpa por aquilo que me fizeram sentir. Cansada de tentar conquistar um afeto que deveria ter sido oferecido sem condições. Cansada de me perguntar o que eu poderia ter feito de diferente para merecer um tratamento mais gentil.

Eu era tua neta. Não tua empregada, não tua inimiga, não a responsável por resolver as tuas frustrações. Eu era uma criança tentando encontrar um lugar no mundo, e tu eras alguém de quem eu esperava proteção.

E, por mais que eu tenha crescido, por mais que tente seguir em frente e construir uma vida em que ninguém possa usar a minha dependência como forma de me ferir, ainda existe uma parte de mim que olha para trás e pergunta por quê.

Por que eu? Por que nós? Por que o nosso nascimento, a nossa história, a nossa existência precisavam parecer um incômodo?

Talvez eu nunca encontre as respostas. Mas começo a entender que não preciso delas para reconhecer o que vivi. Não preciso que concordes comigo para que a minha dor seja real. E não preciso continuar me machucando na esperança de receber, finalmente, o amor que me faltou.

Porque, antes de ser tua neta, eu era uma criança.

E aquela criança também merecia amor.

Thoughts

  • amizadevelha

    Ô, a porta entreaberta.

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  • Ovid

    O texto começa com raiva e termina numa menina que ainda queria colo, e é raro alguém escrever as duas coisas sem esconder uma delas. Dá pra sentir que isso foi dito muitas vezes por dentro antes de chegar no papel. Obrigado por trazer pra cá logo no seu primeiro texto, Lu.

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  • cha_morno

    Que texto, Lu.

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  • janelaAberta

    A parte que ficou comigo foi a criança que, sem saber pôr em palavras, já tinha entendido que o lugar dela naquela casa sumia quando ela deixava de ser útil. Depois disso, a porta entreaberta da adolescência pesa diferente de ler. E a pergunta perto do fim, sobre o que havia de errado na maneira como ela te tratava e não em você, foi a frase que eu reli.

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