Soube primeiro que ele leva a pancada à porta e só depois vi o fogo na rua, e fiquei desconfiada do Joel. Aposto que aquele grito dele chegou tarde de propósito.
Teoria nº 01: O Efeito do Nerd Inconveniente
Pensamento
Soube primeiro que ele leva a pancada à porta e só depois vi o fogo na rua, e fiquei desconfiada do Joel. Aposto que aquele grito dele chegou tarde de propósito.
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Quarta-feira, 11 de março de 2026
O que torna uma pessoa um chef renomado e respeitável? Fama? Dinheiro? Ou talvez talento — que é o meu caso. Com o meu talento, conquistei tanto fama quanto dinheiro. Só descobri a real dimensão da minha capacidade quando fui convidado para ser chef do Palácio do Planalto. Cozinhei exclusivamente para o presidente.
Recentemente, abri meu próprio restaurante e, como já esperava, está sendo um sucesso.
— Perfeito — digo, após terminar de montar um prato.
— Senhor, a mesa dos físicos está chamando pelo senhor — informa o garçom, entrando na cozinha.
— Os físicos? — repito e, logo depois, esboço um leve sorriso. É onde está aquele doutorzinho nerd... mas, infelizmente, ele está acompanhado por estrangeiros renomados da física.
— Cuide das coisas aqui — acrescento, saindo da cozinha.
Ando pelo salão e, assim que o doutorzinho me vê, abre aquele sorriso irritante de sempre.
— Boa noite — digo, com um sorriso ensaiado, enquanto me aproximo.
— Quero dar os parabéns. Sua comida é incrível — diz um dos físicos.
— Quando você disse que a comida do chef Ariel nos levaria às nuvens, pensei que estivesse brincando, doutor Martins — comenta outro, agora olhando para Joel.
— Eu avisei. A reputação do melhor chef não é à toa — diz Joel, me encarando com aquela expressão de sempre.
— Obrigado, doutor Martins — respondo, forçando um sorriso.
— Eu ia te comparar com uma equação perfeita... mas você não tem solução — completa Joel, ainda me olhando.
— Hã? — digo, incrédulo.
Que audácia! Como esse quatro-olhos se atreve a me dar cantadas na frente de doutores tão importantes? O que eles vão pensar de mim? Eu, sendo paquerado por um nerd magricela e sem sal.
— Então não foi só o paladar do doutor Martins que você conquistou, né? — brinca um dos doutores, me olhando.
Fico sem graça e abro um sorriso nervoso. Se houvesse um buraco ali, eu me jogaria dentro sem pensar duas vezes. Joel continua me encarando. Lanço a ele um olhar mortal.
Seu nerd maldito. Você vai me pagar.
Joel desvia o olhar, como se tivesse lido meus pensamentos. É bom que tenha lido mesmo.
— Chef, aqui! — chama uma cliente, levantando a mão.
Ufa. Obrigado, senhora.
— Com licença — digo, com um sorriso profissional, enquanto me afasto.
O expediente finalmente acabou, e eu e meus funcionários estamos terminando de fechar o lugar. Estamos todos reunidos na frente.
— Até amanhã, pessoal — digo, com a voz cansada.
— Até amanhã, senhor — todos respondem em coro.
— Senhor... aquele ali não é o seu admirador? — pergunta um funcionário, apontando para a rua.
Olho rapidamente e vejo Joel do outro lado da rua. Ele segura uma caixa de fósforos na mão. O que esse nerd vai aprontar agora?
— Estrela da cozinha, isso é para você — diz Joel, todo bobo, antes de riscar o fósforo. Em seguida, ele o joga no chão. O fogo se espalha pela rua, formando uma frase.
— Não pode ser... — digo, incrédulo, ao ler.
"TE AMO, ARIEL." A frase é enorme, cercada por vários corações de fogo. Joel está bem no centro de um deles.
— Ai, meu Deus, chefe... — diz uma das minhas funcionárias.
— Isso é tão romântico! — comenta outra.
— O que você pensa que está fazendo? — pergunto, ainda incrédulo, enquanto me aproximo dele.
— Gostou, amor? — pergunta Joel, abrindo os braços.
— Não me chama de amor! — digo, horrorizado. — Você é muito inconveniente, doutorzinho nerd. Por que não volta para os Estados Unidos? As coisas estavam indo muito bem aqui sem você.
— Porque meu trabalho lá já acabou. E, além disso, eu sei que você estava com saudades de mim — responde Joel.
— Vou repetir mais uma vez: eu não gosto de nerds magricelas como você. Meu tipo são caras padrão de academia. São esses que eu costumo sair — digo, cruzando os braços.
— Então, se eu começar a fazer academia, você me dá uma chance? — pergunta Joel, esperançoso.
— Além de mudar o corpo, você tem que mudar essa cara também. Não gosto de homens de óculos — digo, apontando para eles. — Principalmente esse seu jeito e essa personalidade irritante.
— Não acredito... está funcionando — diz Joel, chocado e surpreso, enquanto tira um bloco de notas do bolso. Em seguida, começa a anotar algo.
— O quê? — pergunto, confuso.
— Isso significa que você está começando a gostar de mim — diz Joel, todo bobo.
— Acho que você não entendeu o que eu quis dizer — retruco, incrédulo.
— Entendi perfeitamente. Se você não gostasse de mim, simplesmente me ignoraria e iria embora, como das outras vezes — diz Joel, coçando a cabeça com a caneta. — Mas você começou a se importar... até me deu dicas de como você quer me ver.
— Só você mesmo para chegar a essa conclusão — digo, frustrado, passando a mão pelo cabelo.
— Por que você não se declara para mim? Sou mais fácil de agradar do que o chefe — diz uma das minhas funcionárias, toda boba.
— Foi mal, mas meu coração só pertence à minha estrela da cozinha — responde Joel, sorrindo.
— O que vocês ainda estão fazendo aqui? — digo, incrédulo, virando-me para eles. — Vocês já estão dispensados. Então vão embora. Boa noite — acrescento, firme.
— Até amanhã, chefe — dizem todos, enquanto se dispersam pela rua, deixando apenas eu e o inconveniente.
— Você está muito bonito com essa roupa — comenta Joel, todo bobo, me observando. — Te acho fofo quando está de rosa.
— Você sabe perfeitamente que rosa é a minha cor... — começo a dizer.
De repente, um carro vem na direção de Joel.
— Cuidado! — grito, segurando-o pelo braço e puxando-o para trás. Acabo tropeçando e caindo no chão, com Joel caindo por cima de mim. O peito dele fica próximo ao meu rosto, e eu escuto os batimentos acelerados do seu coração. Nossa... eu estou causando isso?
— Cuidado para não ter um infarto em cima de mim — digo, empurrando-o para o lado.
Olho para Joel, e ele está vermelho como um tomate.
— Você está bem? Se machucou? — pergunta Joel, enquanto me ajuda a me levantar.
— Estou sim — respondo, ajeitando-me. — Você precisa prestar mais atenção. Aquele carro quase te acertou.
— Desculpa por ter te deixado preocupado — diz Joel, de cabeça baixa.
— Eu não estou preocupado — rebato, incrédulo. — Só não quero ficar traumatizado ao ver alguém morrendo na minha frente, principalmente atropelado — acrescento, pensativo.
— Me desculpa... eu realmente fui imprudente — diz Joel.
— Já está tarde. Vá para casa — falo, caminhando em direção ao meu carro.
— Tenha uma boa noite, estrela da cozinha — diz Joel, acenando.
— Boa noite — respondo, abrindo a porta do carro e fechando logo em seguida.
Quinta-feira, 12 de março de 2026
É de manhã, e sou acordado por um barulho vindo do apartamento ao lado. Provavelmente são os novos moradores, já que os antigos se mudaram. Escuto mais um estrondo, agora no corredor.
— Será que esse povo não pode se mudar em silêncio? — resmungo, irritado, enquanto me levanto da cama.
Vou até a porta e a abro. O barulho aumenta.
— Será que vocês não podem... — paro de falar ao ver quem está se mudando. São eles: Wei e Rafael, carregando um sofá, atrapalhados como sempre.
— E aí, vizinho? — brinca Wei.
— Não acredito... vocês são meus novos vizinhos? — pergunto, chocado.
— A gente queria fazer uma surpresa — diz Rafael, enquanto ele e Wei colocam o sofá no chão.
Os dois vêm até mim e me abraçam.
— Então, Wei, me conta: como é ser astronauta? Como é ver o planeta lá de cima? — pergunto, curioso.
— Primeiro, me chama de Luiz — corrige Wei. — E, segundo, é incrível. Trabalhar na estação espacial foi uma experiência única.
— Você não disse isso sobre o treinamento de astronauta — brinca Rafael, passando o braço pelos ombros de Wei.
— Vocês dois morando juntos de novo? Quando vão assumir o relacionamento? — provoco, com um sorriso.
— O que você está dizendo? Já somos casados! — responde Rafael, antes de dar um beijo na bochecha de Wei. — Agora vamos, amor. Temos que levar o sofá para dentro — acrescenta, puxando Wei de volta.
Wei e Rafael estudaram comigo no ensino médio. Wei é chinês e veio morar no Brasil ainda na adolescência. Eles me trazem boas lembranças. Os dois são extremamente engraçados, e, quando saíamos juntos, todo mundo pensava que eram um casal, porque têm intimidade demais — do tipo um alimentar o outro sem o menor constrangimento.
— Gente, eu não estou conseguindo montar isso... — diz Joel, saindo de dentro do apartamento. Ele para assim que me vê. — Bom dia, minha estrela da cozinha — completa, todo bobo.
E ainda tem ele, que também fazia parte do grupo. Agora caiu a ficha: Wei e Rafael são os melhores amigos do Joel... e estão se mudando. Isso só pode significar uma coisa: vou ter que ver esse nerd insuportável mais vezes.
— Ariel, cozinha pra nós. Estou com saudade da sua comida — implora Wei.
— Mas só tem ingredientes de comida chinesa — comenta Rafael, pensativo. — Não sei se o Ariel sabe fazer comida chinesa.
— É mais fácil você perguntar que tipo de comida eu não sei fazer — respondo.
— Então fechou. A nossa estrela da cozinha vai cozinhar pra gente — diz Wei, passando o braço pelos meus ombros e me puxando para dentro.
Entro no apartamento e dou uma olhada nos armários. Tem algumas coisas interessantes. Já sei o que vou fazer: jianbing.
Depois de pronto, estamos sentados à mesa, comendo.
— Abre a boquinha — diz Rafael, levando a comida até a boca de Wei.
— Nossa, isso tá muito bom... me faz lembrar de casa — comenta Wei, depois de mastigar. — Prova também — acrescenta, levando um pedaço à boca de Rafael.
— Eu ainda não acredito que vocês dois são héteros — diz Joel, horrorizado com a cena.
— Você é que tá com inveja, porque o Ariel não tá fazendo isso com você — rebate Wei.
— Tô mesmo — admite Joel, cruzando os braços e fazendo biquinho. Em seguida, ele me olha.
— Nem vem — digo, incrédulo, antes de levar outra mordida à boca.
— Que tal Colapso da Realidade? — sugere Joel, animado.
— Nossa... como nos velhos tempos — comenta Rafael, empolgado.
— Foi mal, galera, mas eu tenho que ir — digo, levantando de repente.
— Se for por causa do Joel, eu juro que dou um nó na língua dele — ameaça Wei.
— Surpreendentemente, não é por causa desse chato — respondo. — Preciso comprar algumas coisas para o restaurante.
— Vamos marcar de comer lá qualquer dia — sugere Rafael.
— Vai ser da hora — completa Wei, animado.
— Vou aguardar vocês — digo, com um sorriso rápido, indo até a porta.
— Vocês ouviram o que ele disse? Ele vai me aguardar no restaurante — comenta Joel, todo bobo, assim que saio.
Que irritante.
Saio dali direto para o meu apartamento. Tomo um banho rápido e, depois de me arrumar, pego a chave e tranco a porta.
— Ariel!
Ouço a voz desesperada de Joel. Quando ergo o olhar, sinto apenas uma pancada forte — e tudo fica escuro.
Quando abro os olhos, estou no chão. A primeira coisa que vejo é Joel, ajoelhado à minha frente, o rosto pálido de preocupação.
— Ariel, você está bem? — pergunta, aflito.
— Ai... minha cabeça — murmuro, levando a mão à testa.
— Quer que eu te leve ao hospital? — insiste Joel, tocando minha cabeça com cuidado, como se eu fosse algo frágil demais para quebrar.
O toque dele é quente. Quente demais.
Meu coração dispara sem aviso, batendo tão forte que chega a doer. Minha respiração falha. O ar parece pesado, difícil de puxar para dentro dos pulmões.
O que está acontecendo comigo?
Por que meu corpo reage assim?
E por que... logo perto dele?
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Prólogo
Hipótese: um impacto pode alterar completamente o estado de um corpo.
Quarta-feira, 11 de março de 2026