Sacerdotisa, Mago, Hierofante e o ás no fim: a parte III virou uma tiragem de tarô inteira. Fiquei achando que o eu do poema é justamente a carta que ninguém tirou.
Simulacro sacro
Pensamento
Sacerdotisa, Mago, Hierofante e o ás no fim: a parte III virou uma tiragem de tarô inteira. Fiquei achando que o eu do poema é justamente a carta que ninguém tirou.
Conteúdo da publicação
I
Em paradoxo, o óxido do ódio se instalou,
Inalou e tragou o que tanto repudiou.
Sentiu-se preso em um oco pomposo,
Troncoso e rugoso pulsando em repouso.
.
Difuso e abscôndito sob a mortalha do século,
Ascético e herético, orando pelo hierático.
Montado e ludibriado no proscênio proposto,
Contrafeito e sob o jugo, o sufoco que carrega naquele posto.
.
Nessa função, em desgosto se encontra ruminando,
De martírio e martini pegou-se regurgitando.
Palavras de epifania e hierofania se viu gritando,
Em burocracias e serventias se fez infando.
.
Dobro, desdobro e também redobro,
O preço do prego é só o troco em dobro.
Endosso o torso de outrem já morto,
Revivido e travestido em algo torto.
II
O eu, alienado ao próprio fixo,
Desloca e condensa o que convém do afixo.
Mariposa se torna presa ao prefixo
Da luz angulada e prismática do sufixo.
.
Ao próprio umbigo se volta em órbita,
Enquanto de fora entoa ovação hipócrita.
Ajoelha-se e clama ao dogma que prega:
Sacrilégio penitente ao ego deífico.
.
Ímpio Idólatra, indivíduo sem pena,
Que mimetiza pesares enquanto encena.
Ri um choro coletivo para a próxima cena,
Mascarando a si a ira, truística, obscena.
III
No entrave do trato dos conformes,
No estopim das críticas dos desformes,
Entre entrelaço e laço se findou
Não reconhecendo o que se criou.
.
De repente, agente e árbitro se metaforiza:
Sibilando, de forma inescrutável, a Sacerdotisa.
Mago, esse que transgride como o prestidigitador,
Ao ponto de ludibriar o futuro escamoteador.
.
No pressuposto frontispício caído,
É posto no proscênio de modéstia.
Inerente à tiragem de ás do simulacro,
Baralho e mitos que trazem idolatro.
.
Límpido e inefável, bendito Hierofante;
Execrável, mofino, aquele que segue avante.
Sociedade moldada pelo idolátrico sacro —
Porém quem escuta sempre será o mais fraco.
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