Capítulo 5: Traços, Linhas e Sorrisos Ao entrarem na biblioteca, o silêncio reconfortante do lugar pareceu abraçá-los. Theo caminhou até uma das mesas mais reservadas ao fundo, perto das grandes janelas de vidro, e colocou a pilha de livros sobre a madeira com o maior cuidado do mundo, sem fazer quase nenhum barulho. Mabel puxou uma cadeira, ainda um pouco sem jeito, e Theo se acomodou na cadeira em frente à dela. Suas pernas longas de dois metros exigiram um certo malabarismo sob a mesa da biblioteca, o que fez Mabel soltar um risinho contido.
— Eu vou ficar um pouco aqui, se você não se importar — Theo sussurrou, apoiando os braços fortes na mesa.
— Só para garantir que o seu dia vai seguir tranquilo. E, bem... eu gosto da calmaria daqui.
— Pode ficar o tempo que quiser — Mabel respondeu, sentindo o coração aquecer. Ela abriu o enorme tratado de anatomia humana e, em poucos minutos, mergulhou em seu mundo. Theo apenas a observava. Ele ficou fascinado com a transição: a garota que minutos atrás chorava no corredor agora exibia uma concentração inabalável. Mabel lia as descrições dos sistemas do corpo humano com os olhos semicerrados, ajeitando os cabelos cacheados atrás da orelha quando eles teimavam em cair sobre o rosto. De vez em quando, ela pegava seu caderno de desenho e traduzia os diagramas complexos do livro em traços artísticos, delicados e precisos. Theo achava aquilo magnífico. Ele, que vivia em um mundo de táticas de vôlei brutas e milimétricas, via arte na forma como ela estudava medicina. A cada capítulo terminado, Mabel levantava os olhos castanhos e compartilhava alguma curiosidade com ele, quase sem notar que estava fazendo isso.
— Você sabia que o osso fêmur é mais forte que o concreto? — ela sussurrou, os olhos brilhando com a descoberta. Theo deu um meio sorriso, inclinando-se um pouco mais para a frente.
— Faz sentido. Mas aposto que o bloqueio de um ponta-esquerda com dois metros de altura chega bem perto disso — ele rebateu, em um tom divertido e baixo.
Mabel não aguentou e soltou um sorriso aberto, daqueles que faziam seus olhos se fecharem um pouquinho. Toda vez que Theo falava, ele conseguia arrancar um sorriso dela. Não importava se ele estava fazendo uma piada boba sobre a altura dele, comentando sobre como seu cachorro Max tentaria comer as páginas daquele livro, ou simplesmente fazendo perguntas genuínas sobre o que ela estava desenhando. A voz dele, calma e compassiva, agia como um bálsamo. Para Mabel, aquela rotina pesada de estudos nunca tinha sido tão leve. Cada palavra de Theo desarmava a tensão de seus ombros, transformando a biblioteca pública no lugar mais seguro do mundo. E para Theo, ver aquele sorriso que ele tanto cobiçava de longe, agora brilhando exclusivamente por causa dele, era a maior vitória que ele poderia desejar.