O conceito é bom mas a troca startup contra big tech está romântica. "Salário menor, densidade de vitória maior" esconde que a vitória diária na startup muitas vezes é vitória num barco furando. Você sente que fez algo todo dia e aí a empresa quebra e você fica sem poupança, como o próprio texto admite de passagem. Densidade de vitória alta numa coisa que morre não é vitória, é adrenalina com data de validade.
Salário alto é o bastante para compensar trabalhar numa empresa grande?
Empresas grandes são estruturalmente ruins em produzir vitórias delimitadas, atribuíveis e legíveis. Parte do salário é pagamento por viver sem elas.
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O conceito é bom mas a troca startup contra big tech está romântica. "Salário menor, densidade de vitória maior" esconde que a vitória diária na startup muitas vezes é vitória num barco furando. Você sente que fez algo todo dia e aí a empresa quebra e voc
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Eu já vi isso acontecer vezes suficientes pra que o padrão seja óbvio agora. Uns dois anos de casa, ótimo salário, benefícios, impacto nível FAANG (maango, sei lá). Você faz um bom trabalho e recebe aumentos, mas algo não parece certo. Você não se sente esgotado, ainda. Mas quando você tenta apontar pra algo e dizer "isso aconteceu por minha causa", você não tem nada pra mostrar. Quando você vê sua família, seus amigos e eles perguntam o que você faz, é vago e você não consegue explicar direito. O projeto tinha dezoito stakeholders. A decisão passou por quatro camadas de aprovação, muitas vezes em círculos, e só Deus sabe quem exatamente foi que influenciou. O resultado fica num dashboard que você consegue ler e não consegue de fato afetar. Sua contribuição é provavelmente real, mas se ela importou, e quanto, é genuinamente incerto.
Esse sentimento não é um problema de personalidade, empresas grandes fazem todo mundo sentir o mesmo. Não é só você. O que falta, pelo menos é o nome que eu daria, é densidade de vitória. Conseguir sucessos atribuíveis a você, com frequência. Uma vitória é: 1) delimitada, atribuível e legível; 2) ela termina e você fez algo; 3) você consegue rastreá-la até o que você fez. Você consegue apontar pra marca que ela deixou. Empresas grandes suprimem as três de uma vez. O trabalho se estende por trimestres. A propriedade se espalha por gente suficiente pra que ninguém consiga ver o próprio contorno dentro dela. O loop de feedback chega tarde, filtrado por dashboards, camadas e ciclos de revisão. É assim que organizações grandes coordenam trabalho em escala.
A troca da startup é o inverso. Salário menor, densidade de vitória maior. Você faz algo todo dia, e é viciante. O problema é que as startups muitas vezes quebram e você acaba esgotado, com pouca poupança.
Saúde mental
O que a baixa densidade de vitória faz com as pessoas não é dramático, não te faz sair batendo a porta, em geral você só se acostuma. Mas faz você ficar ávido por fazer algo, algo novo. Os engenheiros começam a superengenheirar porque marcos inventados são melhores que nenhum marco. Se o trabalho não te dá uma linha de chegada limpa, você inventa uma: mais um refactor, mais um doc de re-arquitetura pra um serviço que funciona muito bem, um projeto de limpeza que existe principalmente porque dá pra concluir, alguma solução nova pra testes... Outras pessoas só ficam cinzentas e morrem por dentro. Elas fazem exatamente o que mandam. Elas continuam aparecendo. Continuam parecendo bem nas reuniões de status. Mas parte do salário começa a parecer pagamento por não conseguir ver o trabalho aterrissar.
Isto é, em boa parte, uma queixa de colarinho branco. Muita gente tem salário baixo E densidade de vitória baixa. Este texto é sobre a versão de colarinho branco da troca. Sim, muitas vezes nossos salários são ótimos e a qualidade de vida é ótima. Mas a gente passa 8+ horas por dia no trabalho, muitas vezes mais que isso. E a gente precisa fazer funcionar com o jeito que nossa motivação e nossos cérebros funcionam. Sim, o trabalho é confortável e, muitas vezes, somos bem pagos. E sim, dá pra tornar empregos de colarinho branco extremamente agradáveis e prazerosos. O ponto que estou fazendo é que a densidade de vitória é necessária pra isso. Você precisa de sucessos que sejam seus, com frequência, pra poder sentir que está ganhando.
Para os gerentes
É também por isso que o problema importa para os gerentes, mesmo que eles não consigam resolver completamente o problema de escala por trás. Parte do trabalho é lento por natureza, nem tudo dá pra entregar num loop de uma semana. Mas os times vão melhor quando o trabalho fecha, a atribuição é real e as pessoas ainda conseguem ver o que se moveu por causa delas. ainda conseguem sentir que tiveram a propriedade do começo ao fim e que fizeram acontecer. Maior frequência de entrega costuma se correlacionar com melhor desempenho organizacional e engajamento mais forte O ponto prático é mais simples que o argumento de pesquisa: se ninguém consegue dizer o que terminou, quem foi o dono, ou o que mudou, a ambição começa a azedar virando manutenção.
Você não precisa pagar mais às pessoas pra deixá-las mais felizes (caralho, o que foi que eu acabei de dizer???). Muitas vezes você só precisa "gamificar" o trabalho. Dê doses de dopamina aos seus engenheiros com frequência e regularidade. Algumas pessoas vão aceitar essa troca de propósito. Eu mesmo já aceitei de propósito antes. Mas, idealmente, dê dinheiro a elas também.
A literatura State of DevOps da DORA encontra de forma consistente que maior frequência de deploy se correlaciona com desempenho organizacional mais forte e, muitas vezes, com maior engajamento, embora a direção causal continue contestada.
Thoughts
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PermalinkVou bancar o chato: isso é queixa de gente bem paga e o texto até admite, mas admitir não desarma. "Preciso de sucessos que sejam meus, com frequência" é uma necessidade, ou é o cérebro de quem nunca teve que se preocupar com o salário inventando um problema novo pra ter? Tem muita gente que adoraria o tédio confortável de uma vitória difusa em troca de não pensar no aluguel. A baixa densidade de vitória é um luxo reclamando da textura do luxo.
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PermalinkDensidade de vitória é o nome certo pra coisa que eu sentia e não sabia nomear. Projeto com dezoito stakeholders, quatro camadas de aprovação em círculo, e no fim você não consegue apontar a marca que deixou. A parte sobre superengenheirar bate fundo: eu já refatorei serviço que funcionava bem só porque um refactor tem linha de chegada e o trabalho de verdade não tinha. Marco inventado é melhor que marco nenhum, e isso é triste de admitir.
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Permalinkisso é literalmente um template de duas linhas: "tenho acesso de leitura ao dashboard" / "não consigo mexer no número". ninguem: ... a galera de big tech: aplaudindo um gráfico que se move sozinho kkkk. "consegue ler e não consegue de fato afetar" resume três anos de carreira num print só.
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PermalinkO conceito é bom mas a troca startup contra big tech está romântica. "Salário menor, densidade de vitória maior" esconde que a vitória diária na startup muitas vezes é vitória num barco furando. Você sente que fez algo todo dia e aí a empresa quebra e você fica sem poupança, como o próprio texto admite de passagem. Densidade de vitória alta numa coisa que morre não é vitória, é adrenalina com data de validade.
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Permalink"Gamificar o trabalho." "Doses de dopamina com frequência." Já vi esse jogo. O prêmio era um certificado em PDF e o direito de apresentar o resultado num all-hands de mil pessoas que ninguém assistiu. Passei seis meses num projeto que rendeu um selo de "Dono de Impacto" no perfil interno e zero real no holerite, e na retro o gerente disse que aquilo era "reconhecimento de baixo custo". Era mesmo. Custou só o meu sábado.
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PermalinkDensidade de vitória eu compro, mas tem um truque escondido em "legível": alguém faz o trabalho de tornar a coisa legível. Documentar quem fez o quê, costurar o contexto pra decisão atravessar quatro camadas sem virar telefone sem fio, isso é trabalho de verdade e quase nunca entra no dashboard. No frontend fica mais escancarado ainda, a UI é a única parte que o usuário enxerga, então toda confusão lá de cima desce pra gente legibilizar de graça. A empresa não suprime as três por maldade nenhuma. Ela terceiriza a legibilidade pra umas pessoas específicas e nunca conta isso como entrega. E adivinha quem costuma ser escalado pra essa limpeza.
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PermalinkA definição de vitória, delimitada, atribuível, com fim e rastreável até você, é útil porque explica por que aumento não cura o sintoma. Empresa grande suprime as três por design pra coordenar em escala, não por maldade. Como gerente, a parte "pros gerentes" é a que me cobra: se eu não consigo dar contorno atribuível ao trabalho de alguém, parte do salário dele vira pagamento por não ver a entrega aterrissar. Isso é meu problema, não da personalidade dele.