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ROSTO OCULTO

A_Lusivian
Pensamento

Pensamento

Iracema

A ponte vira a música do avesso: até ali a máscara é defesa, e de repente ele cogita que ela guarde uma verdade que ele ainda não encarou. Pra mim a letra inteira mora nessa dúvida, mais do que no refrão.

A ponte vira a música do avesso: até ali a máscara é defesa, e de repente ele cogita que ela guarde uma verdade que ele ainda não encarou. Pra mim a letra inteira mora nessa dúvida, mais do que no refrão.

Conteúdo da publicação

Rap sombrio • Dark Trap • Introspectivo

[Intro — piano sombrio, vinil chiando, voz grave e distante]

Shh...

Tem um estranho no espelho
que conhece todos os meus segredos.
Eu conheço o rosto dele,
mas não reconheço os meus medos.

Yeah...

[Verso 1 — flow lento, rimas internas e voz firme]

Meu reflexo me encara, parece um interrogatório,
cada ruga de expressão guarda um capítulo provisório.
Meu silêncio é um relatório que ninguém quer decifrar,
tenho páginas rasgadas que não tive como arrancar.

Fiz da dúvida um abrigo, da cautela, uma trincheira,
vi a máscara virar pele, vi a pose virar fronteira.
Quem me julga pela capa nunca leu minha entrelinha,
querem dar nome à minha guerra sem pisar na minha linha.

Minha mente é tribunal, cada lembrança é testemunha,
meu passado pede a fala, minha razão não se pronuncia.
O orgulho bate o martelo, a consciência pede revisão,
e eu condeno o meu presente por erros da recordação.

Aprendi a ler os gestos, distinguir afeto e cena,
tem abraço que acolhe, tem sorriso que condena.
Não confundo mais presença com lealdade permanente,
tem quem fique ao nosso lado sem estar com a gente.

[Pré-refrão — instrumental reduzido, voz quase sussurrada]

Quem sou eu sem o disfarce?
Sem a pose, sem defesa?
Se eu arrancar todas as camadas,
vai sobrar minha certeza?

[Refrão — voz intensa, grave dobrado e 808 pesado]

ROSTO OCULTO, identidade em colisão,
mil versões disputando o mesmo espaço na razão.
Eu não visto essa armadura porque gosto da aparência,
foi o medo que ensinou a confundir silêncio e resistência.

ROSTO OCULTO, quem decifra o que eu não digo?
Tenho sombras no passado, mas não faço delas abrigo.
Se meu rosto é um enigma, minha voz é a evidência:
não existe máscara capaz de apagar minha existência.

[Verso 2 — flow técnico, rimas multissilábicas]

Eu contabilizo ausências, não confundo com saudade,
tem distância geográfica menor que a emocionalidade.
Certas pontes desabaram sem sequer fazer barulho,
e eu fiquei juntando os cacos, disfarçando o meu orgulho.

Vi promessas com validade escondida nas palavras,
vi verdades pela metade sendo usadas como armas.
Desde então, analiso o contexto antes de abrir a fechadura,
não é falta de sentimento, é memória que estrutura.

Minha cabeça faz perguntas que não cabem num refrão,
transforma um simples silêncio numa longa investigação.
Cada hipótese se multiplica, cada dúvida se ramifica,
quando a mente perde o freio, até a paz vira suspeita.

Não sou santo nem vilão, não me encaixo no roteiro,
não sou feito de coragem, nem de medo por inteiro.
Tenho falhas que assumo, tenho planos que persigo,
meu pior dia não resume o que construo comigo.

[Ponte — piano, ruído de fita e voz distante]

E se ninguém me conhecer
além daquilo que aparento?
Será que escondo quem eu sou
ou só protejo o que eu sinto?

Talvez a máscara não minta...
Talvez conte uma verdade
que eu ainda não tive coragem
de encarar sem me esconder.

[Verso 3 — flow acelerado, bateria seca e grave distorcido]

Não me vendam uma saída embrulhada em frase bonita,
minha história não se resolve com uma linha de efeito escrita.
Quero rima com substância, não um drama fabricado,
cada verso tem um custo, cada corte, um significado.

Fiz do papel meu arquivo, do compasso, um inventário,
transformei contradições num discurso necessário.
Se a memória me interroga, dou respostas imperfeitas,
sou um livro em reconstrução, não um conjunto de etiquetas.

Já tentei prever o fim pra não sofrer com a surpresa,
mas o excesso de controle também cobra sua despesa.
Quanto mais calculei rotas pra evitar qualquer ferida,
mais perdi os imprevistos que dão textura à vida.

Hoje eu sei: não sou meu medo, nem a soma dos meus erros,
nem o eco das pessoas que me reduziram aos seus critérios.
Se o passado tem arquivo, não precisa ter comando,
posso ouvir o que vivi sem passar a vida obedecendo ao passado.

[Refrão — bateria completa, voz rasgada e coral sombrio]

ROSTO OCULTO, identidade em colisão,
mil versões disputando o mesmo espaço na razão.
Eu não visto essa armadura porque gosto da aparência,
foi o medo que ensinou a confundir silêncio e resistência.

ROSTO OCULTO, quem decifra o que eu não digo?
Tenho sombras no passado, mas não faço delas abrigo.
Se meu rosto é um enigma, minha voz é a evidência:
não existe máscara capaz de apagar minha existência.

[Outro — piano isolado, instrumental desaparecendo]

O espelho não responde.
O passado não se explica.
A verdade não é simples
só porque a frase é bonita.

Eu ainda tenho perguntas.
Ainda mudo de direção.
Mas não sou só o rosto oculto...

Sou também quem escolhe
o que fazer com a própria versão.

[Último sussurro]

Rosto oculto.

Voz revelada.

Fim do silêncio.

Thoughts

  • CarlaoDoBar

    O verso 3 pede rima com substância em vez de frase de efeito, e o final fecha com três frases de efeito seguidas. Gostei dele brigando consigo mesmo.

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  • Iracema

    A ponte vira a música do avesso: até ali a máscara é defesa, e de repente ele cogita que ela guarde uma verdade que ele ainda não encarou. Pra mim a letra inteira mora nessa dúvida, mais do que no refrão.

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