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RECORDAR- Cap. 2:

No caminho de volta para casa, sigo pensando na situação da fotografia.

Viverse
Pensamento

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oitoemponto

O seu Manoel travou o palheiro quando ouviu das tranças e logo depois mandou a Verô buscar fósforo justo no quarto. Ele queria que ela achasse a caixinha, esse velho sabe de tudo.

O seu Manoel travou o palheiro quando ouviu das tranças e logo depois mandou a Verô buscar fósforo justo no quarto. Ele queria que ela achasse a caixinha, esse velho sabe de tudo.

Conteúdo da publicação

No caminho de volta para casa, sigo pensando na situação da fotografia.

— Quem era aquela mulher? — murmuro, olhando para o horizonte.

Não quis insistir no assunto com a Ame, porque nunca a tinha visto com aquela expressão. Mas eu não teria esquecido alguém com quem já havia sido fotografada, teria?

Perguntei sobre a mulher misteriosa a mais algumas pessoas do setor, mas ninguém sequer a reconheceu.

— O que caralhos tá acontecendo? — continuo murmurando.

Como de costume, passo na padaria da Carol para pegar o pãozinho do seu Manoel.

— Boa noite? — falo um pouco hesitante, pois não parece haver ninguém atrás do balcão.

Espero alguns segundos…

Sem resposta.

Olhando ao redor, encontro o pacote com os pães do seu Manoel em cima do balcão.

— Essa é nova! — minha voz ecoa um pouco na padaria vazia.

Pego o pacote, apago a luz e fecho a porta da padaria.

Que dia...

Chego em frente à casa de seu Manoel e vou até a varanda, onde ele está sentado, como se tivesse passado o dia inteiro lá.

— Entrega! — falo em tom de brincadeira.

— Boa noite, minha querida! Como foi seu dia? Senta aí e fuma um cigarrinho comigo...

— Boa noite! Olha seu Manoel, acho que eu tô precisando relaxar um pouquinho mesmo, o dia hoje foi dureza! — falo, desabando na cadeira do outro lado de sua varanda.

Seu Manoel e eu não costumamos fazer isso com muita frequência, pois quase sempre estou cansada demais depois do trabalho ou preciso ir às reuniões municipais para redigir as atas.

Acendo um cigarro e observo meu querido vizinho preparar seu palheiro, com a paciência e o cuidado de sempre.

— Pois então me conta, criança. O que houve no seu dia que lhe deixou abalada? — pergunta, enquanto me lança um olhar de ternura e preocupação.

— Ah, seu Maneco, acho que é só uma sensação estranha. Sabe? Tipo quando você sai com a camisa abotoada errada ou com um pé de cada sapato. — Rio enquanto dou uma tossidinha. — Mas além disso, teve uma situação hoje no trabalho... Aliás, o senhor por acaso conhece uma mulher que usa tranças, tem mais ou menos a minha idade, é gata pra caramba e tem os olhos meio puxadinhos? — pergunto, cheia de expectativa.

Observo seu Manoel interromper por uma fração de segundo o movimento de enrolar o palheiro. Logo depois, ele retoma o que estava fazendo e responde:

— Ah, minha criança… Sabe que esse velho aqui já não tem a mesma memória de quando era moço.

— Velho nada, tá na flor da idade! — digo com um sorrisinho de canto de boca.

— Você está bem engraçadinha pra quem está exausta, não é mesmo? — diz ele, com o palheiro entre os lábios, olhando para mim com uma expressão de falsa braveza.

Logo em seguida solta uma risadinha.

— Me faça um favor, querida: pegue meus fósforos no meu quarto, por gentileza.

Levo um pequeno susto. Seu Manoel me convidando pra entrar na casa dele?

Já nos conhecemos há anos, mas nunca entrei lá. Morro de curiosidade, só que ele nunca havia me convidado.

Essa é minha chance!

Levanto num pulo e dou um peteleco na xepa de cigarro que voa longe.

— Mas é claro, meu querido senhor Maneco! Indique-me o caminho, por gentileza! — falo com uma formalidade forçada e completamente desnecessária.

— Você não tem jeito mesmo, né criança? — Ele solta um riso sincero. — Ai ai… É só seguir pelo corredor até o final. É a última porta à esquerda.

Faço uma mesura com excesso de floreio e entro em sua casa rapidamente.

— Vou ser rápida antes que ele se arrependa e me peça pra sair. — murmuro enquanto entro.

A casa do seu Manoel é tão… normal.

Acho que criei expectativas demais durante todo esse tempo. Rio e balanço a cabeça.

A casa tem uma sala, uma cozinha, um corredor, um banheiro e dois quartos. A decoração mistura tons de marrom, verde e terracota. É simples, mas bonita.

— O senhor tem bom gosto — digo, ainda seguindo a passos lentos para o quarto.

Acho que tem algo de profundo em entrar no quarto de outra pessoa, algo de íntimo.

Assim que abro a porta já avisto a caixinha de fósforos na mesinha de cabeceira ao lado da cama. Evito bisbilhotar. Apesar de curiosa, respeito muito o seu Maneco.

Assim que pego os fósforos, vejo, de canto de olho, meu nome escrito em uma caixinha de aparência envelhecida.

Rapidamente vou em direção a mesinha do outro lado da cama e a pego.

— Será que eu abro? Tipo, tem meu nome e tal, né… — falo, enquanto observo-a de perto.

Não resisto à curiosidade. Abro a caixinha devagar, tomando cuidado para não danificá-la.

— Uma chave? — indago, enquanto levanto a fina corrente prateada à qual ela está presa.

Vendo mais de perto, há algumas inscrições na chave.

— C & V? — Leio em voz alta tentando entender o significado.

Dobrado ao lado da chave, vejo um bilhete contendo uma única frase: Verô, guarde-a junto de seu coração.

Pisco.

Minha mente é inundada pela cor azul e pelo cheiro de tangerina.

Quando abro os olhos, sinto uma lágrima correr pelo rosto. Depois outra. E outra.

— Que porra é essa? — murmuro, tentando me recompor enquanto enxugo o rosto.

Assim que me recomponho, coloco a corrente de prata no pescoço por dentro da camisa, pego a caixinha de fósforos e saio.

— Aqui estão seus fósforos, seu Manoel. — Estendo a caixinha para ele.

— Muito obrigada, criança. Mas acho que já está ficando tarde, não é mesmo? Melhor ir descansar. — diz ele enquanto acende seu palheiro.

Cabisbaixa, concordo com a cabeça e sigo em direção ao portão.

— Boa noite, minha querida! Bom descanso e bons sonhos.

— Igualmente, seu Manoel.

Quando chego ao meu quarto, tiro apenas as botas e me jogo na cama.

— O que tá acontecen…

Adormeço antes de conseguir entender o que aconteceu naquele dia.

#misterio #mistery #investigacao

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  • oitoemponto

    O seu Manoel travou o palheiro quando ouviu das tranças e logo depois mandou a Verô buscar fósforo justo no quarto. Ele queria que ela achasse a caixinha, esse velho sabe de tudo.

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