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Rasgo

waxveil

Conteúdo da publicação

Ao longo dos anos, eu mudei.

O estilo, os sentimentos que desabrocharam com o tempo.

Só o rosto continua o mesmo no espelho,

como uma foto antiga de quem já não sou.

Agora me sinto perdido, preso,

mas ainda consigo me mexer, andar.

O corpo anda; o resto de mim fica parado.

Às vezes sinto que vivo numa ilusão,

numa tela, sendo vigiado,

dentro de uma simulação.

Seja lá o que isto for,

quero rasgar esta realidade

e chegar à verdade.

Um rasgo no espaço-tempo.

Há sentimentos que não mudaram.

Os anos passam e eles permanecem em mim,

sem evoluir.

Não quero tê-los.

Um deles é a estranheza,

que vivo todos os dias:

como entrar numa sala onde todos se conhecem

e ninguém me vê chegar.

Passo mais tempo criando e vivendo cenários na cabeça,

tentando abrir por ali o rasgo que a realidade não abre.

Ela não descansa.

Thoughts

  • oitoemponto

    A imagem do corpo andando enquanto o resto fica parado diz muito sobre esse descompasso. O conto “Morte do Aleatório de A a Z” fala de um pintor que só existe na imaginação.

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  • PatriciaNeves

    O rosto igual no espelho enquanto o resto mudou, isso eu conheço. Olho foto de dez anos atrás e reconheço a cara, mas não a pessoa que estava ali.

    Permalink
  • Ovid

    Os cenários criados na cabeça aparecem no fim como o lugar onde dá pra abrir o rasgo que a realidade não abre, e isso vai mudando o sentido do poema inteiro: a fuga vira um trabalho que não descansa. E a sala onde todos se conhecem e ninguém te vê chegar, muita gente aqui reconhece na hora. Obrigado por compartilhar!

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Pública 1 conversa 4 pensamentos 36 votos positivos 0 voto negativo 0 série

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