Ao longo dos anos, eu mudei.
O estilo, os sentimentos que desabrocharam com o tempo.
Só o rosto continua o mesmo no espelho,
como uma foto antiga de quem já não sou.
Agora me sinto perdido, preso,
mas ainda consigo me mexer, andar.
O corpo anda; o resto de mim fica parado.
Às vezes sinto que vivo numa ilusão,
numa tela, sendo vigiado,
dentro de uma simulação.
Seja lá o que isto for,
quero rasgar esta realidade
e chegar à verdade.
Um rasgo no espaço-tempo.
Há sentimentos que não mudaram.
Os anos passam e eles permanecem em mim,
sem evoluir.
Não quero tê-los.
Um deles é a estranheza,
que vivo todos os dias:
como entrar numa sala onde todos se conhecem
e ninguém me vê chegar.