Faço estágio pastoral numa paróquia de periferia. Os rapazes de lá organizam mutirão, festa e time de futebol, e nada disso vira candidatura. Ninguém nunca chamou.
QUEM TEM O DIREITO DE GOVERNAR? Pergunta Sem resposta
QUEM TEM O DIREITO DE GOVERNAR?
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Faço estágio pastoral numa paróquia de periferia. Os rapazes de lá organizam mutirão, festa e time de futebol, e nada disso vira candidatura. Ninguém nunca chamou.
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QUEM TEM O DIREITO DE GOVERNAR?
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
Poder, dinheiro, raça e a reprodução das elites políticas no Brasil
Existe uma pergunta que a democracia brasileira precisa enfrentar com mais coragem: por que os espaços de poder continuam sendo ocupados, em grande medida, por pessoas que pertencem a determinados grupos sociais, econômicos e familiares?
Não se trata de afirmar que todo político brasileiro é rico, branco, velho ou descendente de famílias tradicionais. Isso seria uma generalização incorreta. A questão é outra: por que as condições sociais que historicamente favorecem determinados grupos também parecem favorecer sua presença nos espaços de representação política?
Essa pergunta ganha ainda mais importância quando observamos a composição étnico-racial da própria sociedade brasileira.
Segundo uma pesquisa que fiz coletando dados do Censo 2022 do IBGE, 45,3% da população brasileira se declarou parda, 43,5% branca, 10,2% preta, 0,6% indígena e 0,4% amarela. Ou seja, pretos e pardos constituem a maioria da população brasileira. (Educa IBGE)
Entretanto, a maioria demográfica não significa, automaticamente, maioria nos espaços de poder.
E é justamente aí que começa o problema.
O poder também possui uma história.
A política não nasce no dia da eleição. Antes de chegar à urna, o indivíduo já carrega consigo as condições sociais nas quais nasceu, cresceu e construiu sua trajetória.
Uma pessoa pertencente a uma família tradicional, com patrimônio, relações empresariais, influência social, conhecimento dos mecanismos políticos e sobrenome conhecido pode começar uma campanha eleitoral em uma posição completamente diferente daquela ocupada por alguém oriundo de uma família pobre, sem patrimônio e sem qualquer tradição política.
Não estamos falando apenas de dinheiro.
Estamos falando de capital social, capital econômico, capital político e capital simbólico.
O sobrenome conhecido abre portas. As relações construídas ao longo de décadas facilitam alianças. A disponibilidade financeira permite maior estrutura de campanha. A experiência familiar possibilita compreender os caminhos partidários. A influência social facilita a aproximação com lideranças e grupos organizados.
Assim, muitas vezes, não se transmite apenas patrimônio de uma geração para outra.
Transmite-se também poder.
É por isso que, em determinados municípios brasileiros, encontramos famílias que permanecem presentes na política durante décadas, alternando parentes, aliados e grupos próximos em diferentes cargos.
Não significa que essas pessoas sejam incapazes ou que não tenham legitimidade eleitoral. Elas podem ser excelentes administradoras e representantes públicos.
A questão democrática é outra:por que determinados grupos possuem muito mais condições de chegar ao poder do que outros?
E onde entra o racismo estrutural?
É impossível responder a essa pergunta ignorando a história racial brasileira.
O Brasil foi marcado por mais de três séculos de escravidão. A abolição, em 1888, não foi acompanhada de uma política ampla de inclusão econômica e social da população negra. As consequências históricas desse processo não desapareceram com a assinatura da Lei Áurea.
Pesquisando mais profundamente sobre o assunto, descobri que o próprio IBGE demonstra que as desigualdades por cor ou raça permanecem presentes em dimensões como educação, mercado de trabalho, renda, moradia, violência e representação política. O instituto destaca que essas desigualdades estão relacionadas a aspectos estruturais do processo histórico de desenvolvimento brasileiro.
Portanto, falar em racismo estrutural não significa afirmar que toda pessoa branca seja racista ou que todo indivíduo negro seja vítima direta de uma discriminação explícita.
Significa reconhecer que estruturas sociais construídas historicamente podem produzir resultados desiguais entre grupos raciais, mesmo quando não existe uma ordem explícita determinando a exclusão.
E isso também pode acontecer na política.
A cor da pele não é o único problema, mas não pode ser ignorada.
É necessário evitar uma interpretação simplista.
Não se pode afirmar que uma pessoa branca está automaticamente em situação privilegiada em relação a toda pessoa negra ou indígena. Existem brancos pobres, negros ricos, famílias negras tradicionais e famílias brancas sem patrimônio.
Entretanto, quando analisamos a sociedade brasileira como estrutura, os indicadores mostram que raça e condição socioeconômica continuam profundamente relacionadas.
Isso significa que a ausência ou a sub-representação de determinados grupos nos espaços de poder não pode ser explicada exclusivamente pela capacidade individual ou pelas escolhas dos eleitores.
Há uma história por trás dela.
Uma democracia pode ser formalmente igual e socialmente desigual.
Todos podem votar.
Todos que atendam aos requisitos legais podem se candidatar.
Todos podem, em tese, disputar uma eleição.
Mas será que todos começam a disputa do mesmo lugar?
Essa é a pergunta fundamental.
Imagine dois candidatos.
Um possui sobrenome conhecido há décadas, patrimônio, relações políticas, empresários próximos, estrutura partidária e uma rede de apoiadores construída ao longo de gerações.
O outro é um trabalhador comum, sem patrimônio expressivo, sem família politicamente influente e sem acesso às mesmas redes.
Legalmente, ambos são iguais.
Socialmente, não necessariamente.
Essa diferença entre igualdade jurídica e igualdade de condições é fundamental para compreender a reprodução das elites políticas.
A idade também revela outra dimensão.
A predominância de pessoas mais maduras nos espaços de poder também merece reflexão.
Experiência política é importante. Conhecimento administrativo é importante. Maturidade pode ser uma qualidade.
Mas uma democracia que não consegue renovar suas lideranças corre o risco de transformar experiência em permanência.
Onde estão os jovens?
Onde estão as novas lideranças comunitárias?
Onde estão os trabalhadores?
Onde estão os representantes das periferias?
Onde estão os negros, indígenas e demais grupos historicamente sub-representados?
Onde estão aqueles que não possuem sobrenome tradicional nem patrimônio suficiente para financiar uma trajetória política?
Onde está você nesse bojo?
Essas perguntas não significam defender a substituição de políticos experientes simplesmente pela juventude.
Significam defender renovação, pluralidade e democratização do acesso ao poder.
O eleitor também faz parte desse processo.
É preciso reconhecer, entretanto, que a responsabilidade não é exclusivamente dos partidos ou das famílias tradicionais.
O eleitor também participa da reprodução dessas estruturas.
Muitas vezes, o sobrenome conhecido transmite uma sensação de segurança.
"Essa família já governou."
"Eu conheço essa pessoa."
"Meu pai já votava nela."
"É uma família tradicional."
Essas relações de confiança são compreensíveis, mas podem produzir um círculo difícil de romper:a família tradicional permanece no poder porque é conhecida; torna-se ainda mais conhecida porque permanece no poder; e permanece no poder justamente porque é conhecida.
É uma espécie de ciclo de reprodução política.
O perigo é transformar democracia em sucessão.Uma democracia saudável precisa permitir alternância.
Quando a política municipal ou estadual começa a funcionar como uma espécie de patrimônio familiar, surge um problema democrático.
Prefeitura não é herança.
Mandato não é propriedade privada.
Partido político não deveria ser instrumento exclusivo de grupos familiares.
O Estado pertence à sociedade.
E o poder público deve estar aberto à participação de diferentes segmentos sociais.
Isso não significa impedir famílias tradicionais de participar da política. Significa impedir que a tradição familiar, o dinheiro, as redes de influência e as desigualdades históricas se transformem em barreiras invisíveis à renovação democrática.
Representatividade não é privilégio; é democracia
Quando uma população majoritariamente negra e parda encontra dificuldades para alcançar proporcionalmente os espaços de decisão, não estamos diante apenas de uma questão racial.
Estamos diante de uma questão democrática.
Quem governa decide prioridades.
Quem legisla define regras.
Quem controla o orçamento influencia políticas públicas.
Quem ocupa os espaços institucionais define, em grande medida, quais problemas serão vistos como urgentes e quais permanecerão invisíveis.
Por isso, quem está sentado à mesa das decisões importa.
Uma sociedade plural precisa de instituições capazes de refletir sua pluralidade.
Não basta democratizar o voto. É preciso democratizar o poder.
Essa talvez seja a principal reflexão.
O Brasil conquistou o sufrágio universal, ampliou direitos políticos e consolidou instituições democráticas importantes.
Mas a democracia não termina na urna.
Ela começa também antes dela: na oportunidade de estudar, trabalhar, adquirir patrimônio, participar de organizações sociais, ingressar nos partidos, disputar eleições e construir uma trajetória pública.
Se determinadas pessoas nascem com muito mais acesso a essas oportunidades, enquanto outras enfrentam obstáculos históricos relacionados à pobreza, raça, território e origem social, então existe uma desigualdade de participação que precisa ser discutida.
A urna pode ser igual.
As condições de chegada até ela, não necessariamente.
O Brasil precisa olhar para seus próprios espelhos
Talvez seja necessário abandonar o discurso confortável de que "todos têm as mesmas oportunidades" e começar a perguntar:
Quem tem dinheiro para disputar?
Quem tem sobrenome?
Quem tem redes de influência?
Quem controla estruturas partidárias?
Quem recebe mais oportunidades?
Quem consegue transformar prestígio social em capital político?
Quem continua chegando ao poder geração após geração?
Quem controla a mídia e possui mais tempo nela?
E, principalmente:
Quem permanece do lado de fora?
Essas perguntas não têm como objetivo demonizar famílias tradicionais, pessoas brancas, pessoas ricas ou políticos mais velhos. O objetivo é muito maior: compreender por que o poder brasileiro ainda apresenta uma concentração social que não corresponde integralmente à diversidade da população que ele deveria representar.
A democracia verdadeira não pode ser apenas a possibilidade abstrata de todos concorrerem.
Ela precisa ser a construção de condições para que pessoas de diferentes raças, classes sociais, idades, territórios e histórias de vida possam efetivamente disputar o poder.
Porque uma sociedade na qual poucos grupos têm as melhores condições de governar durante décadas pode até possuir eleições livres.
Mas a pergunta continuará sendo inevitável:
Se a democracia pertence a todos, por que o poder continua chegando com tanta facilidade às mãos dos mesmos grupos?
Talvez a resposta esteja justamente naquilo que muitas vezes não aparece na urna: a história, o patrimônio, o sobrenome, as redes sociais, as oportunidades e as desigualdades que cada candidato carrega antes mesmo de começar sua campanha.
E enfrentar essa realidade é, também, enfrentar o racismo estrutural, a desigualdade econômica e a concentração histórica do poder.
Democratizar o Brasil não significa apenas garantir que todos possam votar.
Significa garantir que todos tenham uma chance real de serem ouvidos, representados e de ocupar os espaços onde as decisões são tomadas.
Base factual: utilizei dados pesquisados do IBGE para a composição étnico-racial e para a discussão das desigualdades estruturais. O Censo 2022 mostra que pardos e pretos somam 55,5% da população brasileira, enquanto o próprio IBGE relaciona as desigualdades raciais a dimensões como renda, educação, trabalho e representação política.
Agora reflita comigo:
Quantos prefeitos (as) vereadores (as) da cor negra ou indígena eleitos o seu município já possuiu ou possui.
O Brasil, já teve um Presidente (a) da República eleito (a) de cor negra ou indígena?
A Assembleia Legislativa do seu estado possui quantos (as) deputados (as) estaduais negros (as) ou indígenas eleitos (as)?
A Câmara Federal dos Deputados possui quantos (as) deputados (as) negros (as) ou indígenas eleitos (as)?
No Senado Federal, temos quantos (as) Senadores (as) negros (as) e indígenas eleitos (as)?
O STF possui quantos (as) Ministros (as) negros (as) e indígenas?
Eu sou Edson Carlos de Sousa Leal, professor, e quero te levar a pensar sobre essas questões e o que você pode fazer na prática pra mudar essa história.
Boas reflexões!
Respostas
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PermalinkUm detalhe: você citou Presidentes. Mas antes disso tem 50 mil secretários, assessores, deputados federais. A barreira tá muito mais baixa em cada passo.
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PermalinkO que você falou no fim é o principal mesmo. Não adianta garantir que pode votar se a gente não garante que pode estudar, trabalhar, ter dinheiro pra campanha. Tudo junto ou nada.
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Permalink"chega diferente" é eufemismo pro óbvio né. Chega querendo fazer diferente porque não tem máquina pra fazer igual.
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PermalinkPor aqui o que funciona é candidato novo que chega direto, fala com gente mesmo, bate a mão onde dói. Depois é claro que estabelecido no poder quer ficar. Mas tem espaço pra quem chega diferente.
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PermalinkA doutrina social chama isso de bem comum, e isso vale pra cargo público. No meu meio ninguém aplica a mandato que passa de pai pra filho.
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PermalinkDúvida de método: o Educa IBGE é a página escolar e resume muito. Foste à Síntese de Indicadores Sociais ou ficaste por esse resumo?
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PermalinkIsto tem desenho antigo. As Cortes cá funcionavam igual, entrava quem já lá estava. Salvo erro vocês herdaram a peça inteira em 1822.
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PermalinkAqui no meu bairro em Fortaleza é assim mesmo. Gostei muito das perguntas do fim, foi a primeira vez que eu parei pra contar os vereadores.
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PermalinkFaço estágio pastoral numa paróquia de periferia. Os rapazes de lá organizam mutirão, festa e time de futebol, e nada disso vira candidatura. Ninguém nunca chamou.
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PermalinkA distinção entre igualdade jurídica e igualdade de condições aguenta bem. A dúvida vem no passo seguinte, o de assumir que quem se parece com o eleitorado decide como ele. Tens um município onde isso se verificou?