O cansaço de pensar em todas as explicações antes mesmo de perguntar. Isso eu reconheço de longe, o ensaio inteiro na cabeça.
Quase vinte anos, mas ainda me tratam como criança
Pensamento
O cansaço de pensar em todas as explicações antes mesmo de perguntar. Isso eu reconheço de longe, o ensaio inteiro na cabeça.
Conteúdo da publicação
É estranho ter quase vinte anos
e ainda precisar pedir permissão
para viver coisas tão pequenas.
Como se a minha idade não contasse,
como se o tempo não tivesse passado,
como se eu ainda fosse aquela menina
que precisava de alguém
para decidir tudo por ela.
E eu me pergunto
quantos anos mais precisarei ter
para que finalmente enxerguem
que estou crescendo.
Não quero saber de tudo,
não quero fingir que sou invencível,
não quero dizer que conheço o mundo
quando mal me deixaram conhecê-lo.
Mas como querem que eu saiba
se nunca me deram espaço para aprender?
Como querem que eu não seja inocente
se tantas vezes me impediram
de descobrir as coisas por mim mesma?
É curioso,
porque eu aprendi tanta coisa sozinha.
Aprendi observando,
pesquisando escondida nas minhas próprias dúvidas,
tentando entender o que ninguém me explicava,
descobrindo caminhos
que precisei percorrer sem companhia.
Aprendi a me virar
porque nunca consegui pedir ajuda.
Aprendi a procurar respostas
porque nunca encontrei ouvidos.
Aprendi a guardar certas vontades
porque mostrá-las parecia trazer problemas.
E, mesmo assim,
ainda me chamam de inocente.
Talvez eu seja.
Talvez ainda haja tanta coisa
que eu não saiba sobre a vida.
Mas existe uma diferença
entre não conhecer o mundo
e não ter tido a oportunidade de conhecê-lo.
Eu não nasci sabendo,
ninguém nasce.
Só queria poder aprender
sem sentir que cada descoberta
precisava passar pela aprovação de alguém.
Queria sair.
Conhecer pessoas.
Fazer amigos.
Ter histórias bobas para contar,
fotos espontâneas,
risadas que começassem na rua
e terminassem muito depois de chegar em casa.
Queria saber como é
receber um convite
sem sentir o coração apertar
antes mesmo de responder.
Porque, às vezes,
o mais cansativo nem é ouvir um não.
É precisar perguntar.
É pensar em todas as explicações,
em todas as perguntas que virão,
na cara fechada,
na culpa que vão colocar em mim,
na discussão que talvez me espere
quando eu só queria passar algumas horas
sendo uma garota da minha idade.
E então eu desisto.
Não porque não queira ir,
mas porque estou cansada
de pagar tão caro
por coisas tão simples.
Minha mãe diz que sou inocente demais,
que não conheço os perigos,
que o mundo não é como imagino.
Mas, mãe,
como vou conhecer o mundo
se você sempre me mantém distante dele?
Como vou aprender a escolher
se minhas escolhas nunca parecem suficientes?
Como vou descobrir quem merece minha confiança
se quase nunca posso conhecer alguém?
Como vou criar coragem para caminhar
se toda tentativa parece provar
que ainda não estou pronta?
Você tem medo de que eu me machuque.
Eu entendo que talvez tenha.
Mas também tenho medo, mãe.
Tenho medo de acordar daqui a alguns anos
e perceber que passei tanto tempo
tentando não te decepcionar
que acabei decepcionando a mim mesma.
Tenho medo de não saber quem sou
longe das suas expectativas.
Tenho medo de continuar pedindo licença
até para desejar uma vida diferente.
E tenho medo de que, um dia,
quando finalmente puder sair por aquela porta,
eu já esteja cansada demais
para aproveitar a liberdade
que esperei durante tanto tempo.
Meu pai também está aqui,
mas quantas vezes seu silêncio
pareceu ocupar mais espaço
do que qualquer palavra?
Às vezes, eu queria que alguém
me defendesse sem que eu precisasse implorar,
que alguém me escutasse
sem transformar meus sentimentos em exagero,
que alguém dissesse
que eu também tenho direito
de participar das decisões sobre a minha vida.
Mas a casa continua a mesma,
as regras continuam as mesmas,
e eu continuo tentando encontrar
um lugar para a minha voz.
E o que mais dói
é que nem sempre quero sair.
Às vezes, só quero ficar,
mostrar algo de que gosto,
contar uma coisa que me deixou feliz,
dividir um pedaço do meu mundo
com as pessoas que dividem o teto comigo.
Mas encontro olhos presos às telas,
respostas distraídas,
um depois a gente vê,
um agora não dá.
E eu espero.
Espero que olhem para mim.
Espero que me escutem.
Espero que tenham tempo.
Sempre espero.
Até que, em algum momento,
começo a me perguntar
se existe alguma coisa errada comigo,
se talvez eu não seja interessante o bastante,
se minhas palavras não merecem atenção,
se preciso fazer mais,
ser melhor,
ser diferente.
Mas eu só queria ser ouvida.
Só queria que, por alguns minutos,
alguém deixasse o próprio mundo de lado
para conhecer o meu.
Porque existe tanta coisa aqui dentro
que vocês nunca conheceram.
Tantos sonhos que não contei,
tantas vontades que escondi,
tantas versões de mim
que talvez nunca tenham tido espaço
para nascer nesta casa.
E eu estou cansada.
Cansada de precisar provar
que sou responsável
antes mesmo de me deixarem tentar.
Cansada de ser tratada como criança
quando preciso que reconheçam meu crescimento
e de ser chamada de inocente
quando preciso de orientação.
Cansada de aprender tudo sozinha
e ainda sentir que não sei o suficiente.
Cansada de me sentir culpada
por querer o que parece tão simples
para tantas outras pessoas.
Tenho quase vinte anos.
E não quero que me deem o mundo,
nem que me prometam uma vida sem perigos.
Quero apenas a oportunidade
de descobrir como viver nele.
Quero errar sem que cada erro
se transforme em uma sentença.
Quero acertar sem precisar provar
que alguém estava errado.
Quero aprender a me proteger
sem precisar me esconder da vida.
Quero deixar de ser
a menina que espera autorização
para se tornar a mulher
que aprende a fazer as próprias escolhas.
Mas, acima de tudo,
queria que alguém entendesse
que eu ainda preciso de amor.
Não desse amor que vigia cada passo,
que pergunta até cansar,
que transforma preocupação em proibição.
Quero o amor que ensina
e depois confia.
Que orienta
e depois permite tentar.
Que segura minha mão
sem me impedir de soltá-la
quando eu estiver pronta para caminhar.
Porque eu ainda sou filha.
Ainda tenho medo.
Ainda preciso de ajuda às vezes.
Mas também estou crescendo.
E não deveria precisar escolher
entre ser amada
e ser livre.
Eu não quero fugir da minha família.
Quero apenas deixar de fugir de mim
para continuar pertencendo a ela.
Quero chegar em casa
e sentir que posso descansar,
que não preciso esconder o que penso,
ensaiar o que digo,
medir o que sinto.
Quero que casa seja mais
do que o lugar onde durmo.
Quero que seja o lugar
onde posso existir inteira.
E, se um dia eu precisar ir embora
para aprender a construir esse lugar,
espero que entendam
que não foi por falta de amor.
Foi porque, durante muito tempo,
eu tentei encontrar espaço para crescer
em um lugar que ainda me enxergava pequena.
Tenho quase vinte anos.
Ainda não conheço tudo.
Ainda tenho muito a aprender.
Ainda sou, em tantas coisas,
uma menina descobrindo a vida.
Mas eu queria ter o direito
de descobri-la enquanto vivo.
Porque o tempo está passando,
e eu não quero passar a minha vida inteira
esperando que alguém finalmente me permita
começar a viver.
Thoughts
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PermalinkAprender olhando e pesquisando escondido, sem ninguém explicar, tem nome antigo: aprender de olho. Quem aprende assim quase sempre sabe bem mais do que deixam mostrar, só fica esperando alguém deixar pôr a mão.
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PermalinkO cansaço de pensar em todas as explicações antes mesmo de perguntar. Isso eu reconheço de longe, o ensaio inteiro na cabeça.
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