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Quando a política se torna idolatria.

LeonardoSantana
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Vivemos em uma época em que a política, que deveria ser instrumento de organização da sociedade e busca pelo bem comum, muitas vezes transforma-se em uma espécie de religião. Políticos passam a ser…

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rotaAntiga

Isto já acontecia nas repúblicas romanas, só que eles eram honestos: chamavam o ditador de deus mesmo. Evoluímos a linguagem.

Isto já acontecia nas repúblicas romanas, só que eles eram honestos: chamavam o ditador de deus mesmo. Evoluímos a linguagem.

Conteúdo da publicação

Vivemos em uma época em que a política, que deveria ser instrumento de organização da sociedade e busca pelo bem comum, muitas vezes transforma-se em uma espécie de religião. Políticos passam a ser tratados como salvadores, líderes infalíveis e donos da verdade, enquanto seus apoiadores deixam de enxergar erros, contradições e até atitudes que, em qualquer outra pessoa, seriam imediatamente condenadas. A crítica deixa de existir quando dirigida ao político de estimação, e a razão é substituída pela paixão. O cidadão já não pergunta se determinada atitude é correta; pergunta apenas se ela foi praticada pelo seu lado. Nesse cenário, a política deixa de ser uma discussão sobre ideias e princípios e passa a ser uma disputa de devoção, na qual alguns defendem seus ídolos com uma intensidade que jamais dedicariam à defesa da verdade.

Mais preocupante ainda é perceber que, em meio a essa idolatria política, muitos princípios religiosos e valores morais acabam sendo convenientemente esquecidos. Para aqueles que professam a fé cristã, por exemplo, os mandamentos divinos deveriam ocupar lugar de destaque na formação da consciência e na maneira de tratar o próximo. Entretanto, quando a preferência política entra em cena, aquilo que se proclama como princípio durante a vida cotidiana pode ser deixado de lado para defender um político. O amor ao próximo, o perdão, a honestidade, a humildade, o respeito e o temor a Deus tornam-se, em determinadas circunstâncias, valores negociáveis diante da paixão partidária. É uma contradição difícil de ignorar: pessoas que afirmam não admitir a idolatria espiritual acabam, paradoxalmente, construindo verdadeiros ídolos políticos.

O problema se torna ainda mais grave quando políticos percebem que a fé, a esperança e os sentimentos das pessoas podem ser utilizados como instrumentos eleitorais. Fala-se em amor ao próximo, família, Deus, solidariedade, justiça e esperança, especialmente quando esses discursos são capazes de aproximar o candidato do eleitor. Porém, passada a eleição, muitas dessas palavras parecem perder sua importância e dão lugar à disputa pelo poder, aos interesses particulares, à conveniência política e, em alguns casos, ao ódio e ao preconceito contra aqueles que pensam de maneira diferente. O discurso de união é substituído pela divisão; o respeito pelo adversário transforma-se em desprezo; e aquilo que foi apresentado como princípio durante a campanha passa a ser tratado como mera estratégia quando já não é necessário conquistar votos.

É preciso reconhecer, contudo, que essa responsabilidade não pertence somente aos políticos. O eleitor também possui um papel fundamental nesse processo. Uma sociedade que transforma representantes públicos em ídolos acaba concedendo a eles um poder que nenhum ser humano deveria possuir. Políticos são pessoas, com virtudes e defeitos, acertos e erros. Não são santos, messias ou salvadores. A democracia pressupõe cidadãos capazes de fiscalizar, questionar, discordar e cobrar resultados, independentemente de quem esteja no poder. Quando o eleitor passa a defender seu político incondicionalmente, mesmo diante de evidências contrárias, deixa de exercer cidadania crítica e passa a exercer uma espécie de militância cega.

Também é necessário fazer uma autocrítica sobre a forma como consumimos e interpretamos informações. Há pessoas que se consideram extremamente inteligentes, instruídas e capazes de compreender qualquer assunto, mas que não conseguem sequer interpretar corretamente um texto, identificar uma contradição ou distinguir um argumento de uma falácia. Muitas vezes, não procuram a verdade; procuram apenas aquilo que confirma aquilo em que já acreditam. Uma frase retirada de contexto é suficiente para provocar indignação, enquanto uma mentira conveniente é aceita sem questionamento quando favorece o político admirado. A inteligência não está em repetir aquilo que o nosso grupo diz, mas em ter coragem de examinar os fatos, reconhecer os próprios erros e mudar de opinião quando a verdade assim exigir.

Talvez uma das maiores dificuldades da sociedade contemporânea seja justamente compreender que discordar não significa odiar e concordar não significa idolatrar. Podemos admirar uma administração sem transformar o administrador em um ídolo. Podemos reconhecer uma qualidade em um político sem fechar os olhos para seus defeitos. Podemos votar em alguém sem entregar a ele nossa consciência. E, sobretudo, podemos defender nossas convicções sem abandonar o respeito pelo próximo.

Se acreditamos verdadeiramente nos ensinamentos divinos que pregamos, então precisamos colocá-los em prática principalmente quando somos contrariados. Amar o próximo somente quando ele pensa como nós não é um grande desafio. Respeitar quem compartilha das mesmas opiniões é fácil. O verdadeiro teste dos princípios está justamente diante daquele que discorda, critica ou vota diferente. É nesse momento que devemos escolher entre a razão e a paixão, entre a verdade e a conveniência, entre o respeito e o ódio.

A política deveria servir ao cidadão, e não o cidadão servir cegamente à política. Nenhum político merece nossa idolatria, porque nenhum político está acima da verdade, da lei, da moral ou dos princípios que uma sociedade afirma defender. É preciso abandonar a mentalidade de torcidas e recuperar a consciência de cidadãos. Afinal, quando colocamos um político no lugar que deveria pertencer à nossa consciência, à nossa fé e aos nossos valores, deixamos de ser livres para questioná-lo. E uma sociedade que deixa de questionar seus ídolos corre o sério risco de deixar de enxergar a verdade.

Por fim, é preciso também ter muito cuidado com aquilo que dizemos e compartilhamos, principalmente quando a política transforma adversários em inimigos. Discursos de ódio, ofensas, humilhações e manifestações de desprezo pela vida ou pela dor do outro não podem ser justificadas simplesmente porque foram dirigidas a alguém de quem discordamos. Não há virtude em comemorar o sofrimento de uma pessoa apenas porque ela pertence ao lado político que rejeitamos. A dor do próximo não deveria ser motivo de festa, ironia ou vingança. Antes de julgarmos, deveríamos lembrar que continuamos diante de um ser humano, com uma história, uma família, sentimentos e dificuldades que muitas vezes desconhecemos. A empatia não exige concordância; exige apenas humanidade.

Da mesma forma, é necessário abandonar a preguiça intelectual e buscar compreender os fatos antes de formar opiniões definitivas. Em uma sociedade inundada por informações, manchetes, vídeos curtos, discursos inflamados e interpretações convenientes, procurar a verdade exige esforço, leitura e disposição para ouvir aquilo que contraria nossas próprias convicções. Estudar não significa procurar argumentos para vencer uma discussão, mas tentar compreender a realidade com honestidade. É preciso ler o texto inteiro, conhecer o contexto, verificar as informações e ouvir diferentes perspectivas antes de condenar alguém ou defender cegamente uma ideia. Quem realmente deseja a verdade precisa estar disposto não apenas a perguntar “quem está dizendo?”, mas principalmente “isso é verdadeiro?”. Só assim poderemos substituir a paixão cega pela consciência, o ódio pelo respeito e a intolerância pela compreensão.

Thoughts

  • salmo91

    Tu toca numa tentação real. A fé me ensinou que consigo defender o que acredito sem abandonar o respeito pelo próximo.

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  • rotaAntiga

    Isto já acontecia nas repúblicas romanas, só que eles eram honestos: chamavam o ditador de deus mesmo. Evoluímos a linguagem.

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  • rfontes83

    Na minha congregação temos gente que vota em tudo quanto é lado. O bloco só existe na pesquisa.

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  • religioes_lado_a_lado

    Nas tradições que estudo existe sempre um aviso: os profetas hebraicos confrontavam o poder, os mestres budistas pregavam desapego, os imãs recusavam submissão total. A mistura de religião com política nunca funcionou bem porque as duas reclamam lealdade exclusiva.

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  • rbatista64

    Vinte e dois anos a fazer visita domiciliar e vejo tudo isto que tu descreves. A filha que cuida do pai fica sem folga porque o seu lado político não consegue criticar o outro lado. Quem sofre não é o político amado; é a pessoa que não tem lugar seguro para ir na terça-feira.

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  • por_tras_do_veu

    O problema moral não é admirar um político; é quando essa admiração se torna condição para a consciência funcionar. Um sistema de valores que só se sustenta se tu concordares com meu lado provavelmente não é um sistema moral, é apenas uma lealdade com outro nome.

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  • perguntaAberta

    Concordo com tudo isso. O que me interessa é saber: o que seria preciso para alguém realmente mudar de posição sobre um político que defende incondicionalmente?

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  • notaDeRodape

    Tu falas em mandamentos divinos no dia a dia, depois entra a política e tudo vira negociável. Por quê mesmo?

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