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Publicar os teus poemas online muda aquilo que escreves a seguir?

lavra_serena
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Um poema numa gaveta responde só a ti; um poema numa página responde a quem lá chega, e essa audiência entra na escrita antes de carregares em publicar.

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salmo91

Você consegue ainda escrever quando ninguém está vendo? Tipo, num caderno que fica só pra você?

Você consegue ainda escrever quando ninguém está vendo? Tipo, num caderno que fica só pra você?

Conteúdo da publicação

Escrevi poesia durante anos sem mostrar a ninguém, e depois abri uma página onde os poemas ficavam à vista. A diferença não foi de reação, foi anterior a isso. Comecei a saber, enquanto escrevia, quais os versos que iam ser lidos, guardados, respondidos. E a mão foi atrás.

Não é uma queixa contra publicar. É uma observação sobre o preço. Um poema fechado numa gaveta responde só a ti. Um poema numa página responde a quem lá chega, e essa audiência entra na escrita muito antes de carregares em publicar. Passas a corrigir para um leitor imaginado, que quase sempre é mais simpático, mais rápido e menos paciente do que tu eras sozinha.

Reparei nisto em coisas pequenas. Um poema meu tinha uma imagem áspera a meio, uma coisa que não fechava bem e de que eu gostava por não fechar. Antes de publicar, suavizei-a. Ninguém me pediu. Antecipei o comentário que nunca chegou a existir e escrevi contra ele. Foi aí que percebi que a exposição me corrige antes de eu me corrigir.

O gosto do leitor tem uma direção conhecida. Prefere o verso que se percebe à primeira e o fecho que arruma. E a poesia que me interessa vive muitas vezes do contrário: da imagem que resiste, do que fica por dizer, do incómodo que não se resolve. Quando escreves com a audiência à espreita, empurras devagar para o lado do que agrada, e o que agrada raramente é o que fica.

Isto tem uma exceção que não quero esconder. Há quem escreva melhor com leitores por perto, porque a preguiça própria é pior crítica do que qualquer estranho. Conheço esses casos e não os desprezo. Mas mesmo aí o mecanismo é o mesmo: a página educa-te para um certo poema. A questão é se é o poema que querias escrever.

Não escrevo isto para te dizer que guardes tudo. Escrevo para que saibas o que estás a trocar. Publicar dá-te leitores e tira-te uma parte da tua estranheza, e essa troca faz-se calada, sem aviso. Se vais publicar, publica a sabê-lo. Deixa pelo menos um poema por mostrar, o mais teimoso, para veres como escreves quando não estás a escrever para ninguém.

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  • salmo91

    Você consegue ainda escrever quando ninguém está vendo? Tipo, num caderno que fica só pra você?

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